[Tag] Trinta e Três Coisas

quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Não exatamente uma Tag mas uma grande lista com trinta e três coisas. Post inspirado no post da Hello Lolla :)




3 coisas que mal posso esperar
- o fim do horário de verão (que ainda nem começou)
- o próximo inverno
- minhas férias

3 coisas que me dão preguiça
- autores que descrevem uma cena em 400 parágrafos e ainda assim me deixam sem saber do que se trata a história
- atualmente, o uso do facebook (excesso de feed, notificações e perfis bizarros)
- novelas

3 coisas que eu gosto muito
- gatos
- cartas, bilhetes e também emails
- rock anos 60/70/80/90

3 coisas que eu quero e preciso fazer
- escrever diariamente no blog
- organizar meus cds e livros que, após a mudança, ainda estão em caixas
- organizar o planner com mais frequência

3 coisas que eu sei fazer
- descobrir qual é a música/banda já nos primeiros acordes/início da estrofe
- lembrar visualmente onde estão minhas citações favoritas nos livros mesmo não havendo marcações com post-its (em geral, funciona)
- chili mexicano

3 coisas que eu não sei fazer
- dançar
- escrever corretamente em teclados de celulares (toda saudade dos telefones com teclas)
- olho esfumado (Alice Salazar, me ensina? <3)

3 coisas que estão na minha cabeça
- a insatisfação com o livro Ugly Love
- a vontade de ler os livros que os correios ainda não entregaram
- a vontade de comprar livros antes de ler os livros que os correios ainda não entregaram. quem nunca.

3 palavras que eu falo bastante
- saudações
- moço/moça
- poisé

3 coisas que me acalmam
- atividades que envolvam desenho, pintura e colagem
- escrever ouvindo música
- olhar para o céu/mar e demais paisagens

3 coisas que me estressam
- pessoas que falam alto
- pessoas que falam sem parar
- whatsapp

3 coisas que eu vou fazer essa semana
- terminar a leitura do Projeto Rosie
- decidir a próxima leitura
- pensar em um sorteio para os amigos do blog/instagram ;)

O Lado Feio do Livro - Sobre Colleen Hoover e Marian Keyes

terça-feira, 29 de setembro de 2015
Hoje acordei às seis e quarenta e dois ao som do despertador do celular que insanamente gritava. Devo ontem ter exagerado no ajuste do volume pois meu gato também acordou e deu início a uma batalha vocal com o telefone, como se quisesse desafiar o Nokia em uma partida de quem tem um agudo mais alto um dois três já.

Prevendo uma possível enxaqueca para este início das sete horas, fui para a cozinha preparar um café e uma tapioca, pois dizem que tapioca é um bom substituto para o pão de forma que só engorda, e a ideia de engordar um pouco menos pelo menos durante a manhã parece bem interessante. Ao terminar o lanche fui para o quarto escolher a roupa do dia, a saber, uma combinação de saia e blusa em uma tonalidade próxima ao cinza-de-chuva deste início de primavera. Também prendi o cabelo em um coque e passei um batom cor-de-nada pois a disposição para a beleza às quase oito é por vezes bem pouca. Calcei botas, peguei minha bolsa marrom e quase esqueci as chaves que ficam no potinho de vidro em cima da mesa de centro.


Para que uma história cotidiana não se transforme em um simples falatório, é preciso que a banalidade e a repetição sejam personagens de maior importância em nosso texto, e não apenas uma quase infinita descrição de atividades, como as de meus dois primeiros parágrafos. Ou seja: de que adianta o leitor saber do personagem a cor de seu pijama ou o sabor de sua pasta de dentes se estas informações contribuem apenas para um maior número de palavras em cada parágrafo e nada mais?

Claro que toda escrita é uma operação de identificação e escolha: um texto que pode ser péssimo pra mim certamente alcançará o coração de muita gente, e vice-versa. Neste universo da leitura, felizmente encontramos um grande grupo disposto a muitos detalhes da vida de seus personagens, assim como também um outro imenso grupo disposto a chegar logo à página onde um telefonema recebido às três e quinze mudará a vida de toda uma cidade.

Em nosso papel de leitores (e eventualmente também escritores), importa descobrirmos as grandes histórias (que ainda silenciosas) no coração dos objetos e cenas que não imaginaríamos dedicar a menor atenção. Um de meus exemplos preferidos é o conto A Marca na Parede, de Virginia Woolf, onde uma simples mancha instiga toda uma narrativa de vida, reflexão e melancolia:
 
Foi talvez por meados de Janeiro deste ano que vi pela pri­meira vez, ao olhar para cima, a marca na parede. Quando queremos fixar uma data precisamos de nos lembrar do que vi­mos. Assim, lembro-me de o lume estar aceso, de uma faixa de luz amarela na página do meu livro, dos três crisântemos na jarra de vidro redonda na chaminé. Sim, tenho a certeza de que foi no Inverno, e tínhamos acabado de tomar chá, porque me recordo de estar a fumar um cigarro quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez.
(clique para ler o conto completo)

Veja, caberá sempre em nosso diário (e em nossas conversas cotidianas) a presença destes inúmeros elementos de cena: a descrição da casa, da cidade e da rotina que nos cerca; os detalhes da solidão ou da companhia de nós mesmos e de nossos amigos; enfim, inúmeras falas eventualmente banais, e inúmeras outras eventualmente triunfantes. Acho que é isso: é preciso estar aberto e sensível a todo este mundo que nos fala em silêncio, para que assim os dias encontrem uma maior graça e não se percam em uma lista de amenidades do tipo oi-tudo-bem-comprei-pão-na-padaria-e-ainda-sobrou-cinco-reais.

E foi pensando neste excesso emocional e descritivo de muitas histórias (que nos levam a lugar algum) que pensei em conversar com vocês sobre um livro que (de tão amado por seu público) despertou em mim um interesse imenso de leitura. Só que antes de chegar ao término do livro eu já havia praticamente "terminado" com ele, de tão pouca identificação que tive com o texto. Aliás, isso aconteceu com mais de um livro, infelizmente...


Em O Lado Feio do Amor (Ugly Love), a história é narrada por dois personagens: Tate, a jovem pós-graduanda em Enfermagem que por ocasião do trabalho e da vida volta a dividir um apartamento com seu irmão Corbin; e também Miles, o jovem piloto de feições e músculos perfeitos que por ocasião do trabalho e da vida tornou-se vizinho e melhor amigo de Corbin. E talvez por Colleen ter criado um personagem de aparência tão improvavelmente perfeita sua história tenha também seguido em uma narrativa do tipo improvável, onde apesar de todos os pesares e traumas dos personagens (especialmente os de Miles) todo o impasse sentimental será solucionado para que o livro ganhe um desfecho mais fofo que um filme da Disney.

Melancia, de Marian Keyes, também é um pouco assim (pelo pouco que li, pois confesso que mesmo pulando algumas página e capítulos a história parecia não ter fim, então quis logo ler as últimas páginas para ter a certeza de que revelariam um bom e previsível desfecho para suas personagens).

Enfim... talvez por ter lido toda uma sequência de obras existencialmente melancólicas minha percepção destes dois romances não tenha sido das mais generosas. E certamente gosto dos finais felizes (tanto que vocês já conhecem a minha "indignação" com certos livros onde o protagonista morre na melhor parte da história), e gostaria muito de ter-gostado de Colleen e Marian, mas... 

E você, caro leitor, se identifica com esse diário Marian-Colleen de alta sensibilidade e conversas sem fim? Conta pra gente :)


----


Colleen Hoover. O Lado Feio do Amor. RJ: Galera Record, 2015.
Marian Keyes. Melancia. RJ: Best Bolso, 2014.

Cartas de Amor aos Mortos - Ava Dellaira | Editora Seguinte

sábado, 26 de setembro de 2015

Depois de ler o poema hoje pensei que talvez eu queira ser escritora. Mesmo achando que nunca vá escrever um poema tão bom quanto o seu, talvez eu possa fazer algo com meus sentimentos, mesmo os de tristeza, medo ou raiva. Talvez ao contar as histórias, por pior que sejam, não deixemos de pertencer a elas. Elas se tornam nossas. E talvez amadurecer signifique que você não precisa ser uma personagem seguindo um roteiro. É saber que você pode ser a autora.  

(Carta a Elizabeth Bishop)



Terminei Cartas de Amor aos Mortos pensando se deveria escrever uma carta a autora ou a algum de seus personagens. Talvez não escreva, mas guardo do livro a ideia de que é preciso "conversar" com quem nos inspira, e neste diálogo descobrir o quê em nós que se identifica com os objetos de nossa admiração.

A história de Ava Dellaira é narrada por Laurel, uma estudante que compartilha seus dias em cartas destinadas a artistas como Kurt Cobain, Amy Winehouse e River Phoenix; artistas que em algum momento de suas carreiras não resistiram a pressão que o mundo lhes oferecia, e desapareceram, deixando um rastro de vida e obras incompletas. Laurel sabe que estes personagens não podem ouvi-la, mas será nesta cumplicidade da escrita que a menina aliviará o peso de seus dias, e seguirá vivendo.

E neste crescente de títulos do gênero sick-lit (a saber, uma literatura feita a partir da exposição de personagens muito jovens a traumas e dores quase irreversíveis), inquieta-me ainda seu principal enredo: O quão doente estamos? Ou melhor: O que em nós que (por tanta inadequação) dói demais e precisa de inúmeras páginas pra ser amenizado?

Não pretendo responder sobre as dores de nós-leitores e tampouco as deste gênero literário mas, dentre as obras que conheci (As Vantagens de Ser Invisível; Por Lugares Incríveis; Quase uma Rockstar), Cartas de Amor aos Mortos destaca-se por sua simplicidade, e por encontrar alguma beleza na maior das melancolias (que, no caso da personagem Laurel, resume-se a perda de sua irmã e a separação de seus pais - sendo estes também dois dos grandes "temas" da tal sick-lit).

Das cartas do livro, as destinadas a Kurt e Amy são das mais intensas pois, ainda que a partida destes tenha sido injusta para os que ficam, especialmente seus filhos, Lauren percebe que a dor é o que permite que pessoas que o mundo julga comuns criem obras infinitas, que perdurarão por muitas gerações: Amy, fazendo o que você fazia, você estava em todas as capas de tabloide. E do jeito que o mundo é hoje, com todo mundo acompanhando a vida de todo mundo e tentando ver tudo, isso muda a história. Isso transforma sua vida na versão que outra pessoa faz de você. E não é justo. Porque sua vida não pertencia a nós. O que você nos deu foi sua música. E sou grata por isso.

Ainda sobre a obra de Ava Dellaira, gostei da não-pretensão de Lauren, Hannah, Natalie e Sky, seus jovens personagens, cuja melhor história é a de sobreviver aos assombros familiares e encontrar alguma alegria nos pequenos prazeres da vida em uma cidade e vizinhança tão pequenas. Não há muito o que esperar, e justamente por ser o livro um relato de pequenas alegrias em meio ao assombro, devemos dedicar uma boa atenção ao que estes personagens nos dizem, afinal, toda vida tem dias assim, do tipo bem simples, longe de qualquer extraordinário, e fugindo a tudo o mais que nos consome. Cartas de Amor aos Mortos é então um retrato da escrita como ousadia (ou melhor, como ousadia da alma que dói), e será este breve-grande motivo o que o torna, em minha opinião, um bom livro.

E você, caro leitor, também já se identificou com algum livro escrito neste formato diário-carta? Conta pra gente :)




Algumas referências:

Nirvana - In Utero
Amy Winehouse - Rehab
Jim Morrison - Light my Fire
River Phoenix - Filme Stand my me 


Cartas de amor aos mortos
Ava Dellaira

SP: Ed. Seguinte, 2014

Prestes a começar o ensino médio, Laurel decide mudar de escola para não ter que encarar as pessoas comentando sobre a morte de sua irmã mais velha, May. A rotina no novo colégio não está fácil, e, para completar, a professora de inglês passa uma tarefa nada usual: escrever uma carta para alguém que já morreu. Laurel começa a escrever em seu caderno várias mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Elizabeth Bishop… sem nunca entregá-las à professora.
Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky.
Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era - encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um - é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.

“Uma história brilhante sobre a coragem necessária para continuar vivendo depois que nosso mundo desmorona. Uma celebração comovente do amor, da amizade e da família.” - Laurie Halse Anderson, autora de Fale!

Tag dos 50% - Ou: O que aconteceu no meu primeiro semestre literário

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Posso dizer que minha relação com o tempo tem um quê de desordenado. Principalmente com o tempo de leitura dos livros - e também com o tempo que a gente demora pra 'superar' um livro. Ou seja, talvez um livro de 2012 receba todo o meu amor no dia de hoje e o lançamento permaneça por algumas boas semanas aqui na prateleira, conquistando meu olhar e curiosidade a cada dia, grão a grão. Mas quero agora criar um pequeno resumo das histórias que mais me impressionaram nesse primeiro semestre. Aliás, adorei esta essa tag de nome curioso! Não sei qual blog/Instagram foi o primeiro a postar, mas curti a ideia de um "Oscar Semestral da Literatura". Vamos lá então :)


1. Melhor livro que você leu até agora, em 2015
Empate técnico entre Nós (David Nicholls) e A Sorte do Agora (Matthew Quick). Mas prefiro não compartilhar agora os porquês desta escolha porque senão vocês logo logo enjoam do tanto de corações que dedico a estes moços.

2. A melhor continuação que você leu até agora, em 2015
Confesso que estou sempre atrasada com as sagas, mas queria muito ler (e ganhar!) os 87452907 lançamentos Star Wars deste ano <3

3. Algum lançamento do primeiro semestre que você ainda não leu, mas quer muito
Casa de Praia com Piscina parece bem interessante! Mas ainda não tenho esse livro...

4. O livro mais aguardado do segundo semestre
A Menina da Neve, mesmo não sabendo se é um livro da categoria triste-com-tragédia ou chorável-de-tão-lindo. Realmente estou intrigada com o lançamento.

5. O livro que mais te decepcionou esse ano
Outro empate técnico, desta vez entre Por lugares incríveis e Um Dia. Apesar de serem histórias muito boas. E muito bem escritas! Mas meu 'gosto existencial' prefere histórias de superação, e não de relatos de irremediáveis tragédias (exceto A Culpa é das Estrelas, por ser perfeito e lindo e todos os demais adjetivos choráveis, clichês e sinceros que todos dizemos <3).

6. O livro que mais te surpreendeu esse ano
Quase uma Rockstar. Porque eu 'tava super achando que seria apenas um livro do tipo bem teen (ah, essas sinopses... ) mas aí o Sr. Quick transforma a maior das tragédias em uma história além do surpreendente. Sou fã do cara, não tem jeito.

7. Novo autor favorito (que lançou seu primeiro livro nesse semestre, ou que você conheceu recentemente)
Além dos já repetidamente citados, escolho Anthony Doerr, pois Toda a luz que não podemos ver é possivelmente um dos lançamentos de maior intensidade e poesia deste ano. Apesar de ainda não ter lido nem metade das páginas, creio que a narrativa seguirá cada vez mais humana, com coração demais, e sentimento demais. Recomendadíssimo!

8. Seu personagem favorito mais recente
Douglas Petersen, de Nós, por sua moral da história que diz que até o maior dos rabugentos-nerd pode ter - e compartilhar - um coração fiel, dedicado e especialmente humano.

9. Um livro que te fez chorar nesse primeiro semestre
Quase todos! :D Até Nora Roberts me deixou meio... emotiva em algum momento não diabético de suas páginas. Já pensou se leio Nicholas Sparks? 'Guento não, gente.

10. Um livro que te deixou feliz nesse primeiro semestre
Todos da Rainbow Rowell. Porque a gente até se acha super durona e filosófica e tal mas, no fundo no fundo, o que a gente quer mesmo é um livro fofo com um final feliz.


E você, caro leitor, anima participar dessa tag e compartilhar as respostas com a gente? :)

[Resenha] O Lado Bom do Agora e da Vida - Sobre alguns livros de Matthew Quick

quarta-feira, 16 de setembro de 2015


O segundo encontro, o dia seguinte, o recomeço: nestas duas histórias, Matthew Quick narra a sorte de personagens extraordinários: Pat Peoples e Batholomew Neil. E sendo extraordinário sinônimo para uma realidade muito própria, além do comum, podemos já prever que tanto O Lado Bom da Vida como A Sorte do Agora apresentam personagens sensíveis demais, e também por isso sofridos demais.

As histórias de Pat e Batholomew se aproximam por seu otimismo quase ingênuo frente às mais traumáticas experiências de vida, como o divórcio, a perda de um familiar, e o enfraquecimento do corpo e da mente. E tenho gostado muito de Matthew Quick justamente por posicionar sua escrita neste lugar da crença, onde personagens podem sim ser feitos de sonhos (há todo um plano para que a vida seja boa novamente, algum dia), devaneio (tanto o poético como - infelizmente uma realidade - o clínico) e também Fé (em Deus, na vida, e na bondade dos que habitam o nosso mundo). E só por este tanto de boa humanidade já deveríamos mais que recomendar as obras deste autor.

Sinceramente? Nossa geração está por demais inundada de histórias sem esperança e perspectiva, onde páginas e mais páginas e inúmeros personagens simplesmente doem e sucumbem a esta dor, como se já não nos bastasse o tanto de realidade de dor que encontramos "na vida aqui fora", no dia-a-dia das cidades e dos relacionamentos. Eu sinceramente fico feliz de encontrar um autor que traz para seus leitores a perspectiva de um dia melhor, e também essa alguma consciência de fé em meio a toda e qualquer adversidade.

Esperança, sabe?

Não que a arte seja ou deva ser "um escape" para o dia triste; talvez até seja, mas esta nem sempre será sua melhor ou primeira função. Mas talvez a arte possa ser uma grande oportunidade de alegria em um dia ruim, onde os corações parecem a cada dia embrutecer mais e mais.


Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?* 



Em meio ao caos da vida diária, o que você consegue enxergar? Será que apesar de toda dor e trauma conseguimos (como os personagens Pat e Bartholomeu) perceber este algum cuidado que vem das pessoas que estão ao nosso redor, assim como também os pequenos e fortuitos encontros que a vida nos proporciona? Será que toda esta vulnerabilidade dos sentimentos não será justamente uma (ou talvez uma única) oportunidade de restaurarmos a nós mesmos?

Afinal, por quê não acreditar neste algum plano maior que escapa às nossas mãos justamente por não vir de nós mesmos? Que sejamos um pouco como os personagens de Matthew Quick, que apesar da alma turva conseguem em algum momento enxergar esta alguma luz que vem do abraço inesperado, do prato de cereais compartilhado, do canto dos pássaros a cada bom dia.


Ps: E continuaremos a falar deste autor por algum bom tempo, ainda mais por ter iniciado a leitura de Quase uma Rockstar. E já adianto: esse cara é gênio! Leiam leiam leiam <3



________________



Matthew Quick. O Lado Bom da Vida. RJ: Intrínseca, 2013
Leia um trecho

_____. A Sorte do Agora. RJ: Intrínseca, 2015.
Leia um trecho


* Bíblia, Livro de Marcos, capítulo 8, verso 36.

Discoteca #2

sexta-feira, 11 de setembro de 2015


Playlist inspirada no livro Nós, de David Nicholls, com clássicos da época de nossos pais e que ainda tocam em algumas Rádios FM. Sim, caro leitor, recomendo uma breve desplugada no Spotify para esta pequena seleção da época dos vinis, dos penteados volumosos e dos bailinhos. Afinal, os tempos mudam, mas as canções do mal de amor serão sempre... parecidas. De alguma forma parecidas.



1. Carole King - It's too late
There's somethin' wrong here
there can be no denyin'
One of us is changin'
or maybe we've just stopped tryin'

2. Seals And Crofts - Summer Breeze
(essa talvez você conheça, o Jason Mraz já fez uma cover)
See the smile awaitin' in the kitchen
Food cookin' in the plates for two
Feel the arms that reach out to hold me
In the evening when the day is through


3. Procol Harum  - A Whiter Shade Of Pale 
(essa música aparece em um episódio de House
She said, 'There is no reason
And the truth is plain to see'


4. The Carpenters - Superstar
(tem versão do Sonic Youth)
Loneliness is a such a sad affair
And I can hardly wait to be with you again


5. The Marmalade - Reflections Of My Life 
I'm changin', arrangin', I'm changin'
I'm changin' everything, ah everything around me
The world is a bad place, a bad place
A terrible place to live, oh but I don't wanna die


6. Al Stewart - Year of the cat
She doesn't give you time for questions
As she locks up your arm in hers
And you follow till your sense of which direction
Completely disappears


7. Fleetwood Mac - The Chain
(tem versão da Florence)
And if you don't love me now
You will never love me again
I can still hear you saying
You would never break the chain


8. Heart - Crazy On You
You don't need to wonder, you're doing fine
And my love, the pleasure's mine
Let me go crazy on you





Confira também a Playlist criada pela Intrínseca :)

O Louvre e a (crueldade da) Matrix - parte 2

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Primeiro mandamento: Não julgue um livro pela capa. Por sua sinopse, talvez. O mesmo vale pessoas, principalmente pessoas. Mas quando nos deparamos com um autor desconhecido e o último capítulo de uma saga favorita, dificilmente escolheremos o personagem sem referências. A não ser é claro que você seja um fã incondicional de todo e qualquer lançamento (e sociabilidade) possível. Mas, em geral, não somos assim, e o estranhamento nem sempre será nossa primeira escolha.

Mas então, terminei o Nós, e na parte 1 comentei alguns dos porquês de ter gostado do livro. E neste meio tempo encontrei leitores que não conseguiram sequer chegar ao meio da história. Olha, concordo com vocês, a vida seria tão mais fácil se não fôssemos tão irritadiços (e talvez por isso o mundo ranzinza do personagem de Nicholls não seja a melhor das leituras). Mas você consegue tolerar alguma situação ou relacionamento só para evitar a dor (e o cansaço) de perder esta alguma coisa ou alguém? Ou você consegue com facilidade se desapegar de tudo o que não faz bem e sem pensar muito nas consequências?

Concordo com Nicholls que em algum momento (talvez aos quinze, vinte e cinco ou aos cinquenta) a vida simplesmente acorde 'embolada' demais, cheia de 'nós', e quase pronta a se romper de tanto conserto e remendo. E nestes momentos não há muito o que decidir: ou vivemos de menos, para que o tecido da História não entre em desalinho, ou vivemos demais e nos conformamos (melhor seria aprendermos) com as cicatrizes de cada dia. 

Eis o que somos, eternos alfaiates, por vezes costurando o melhor dos ternos, mas (na maioria das vezes) também costurando lycra com seda e ficando pelado na primeira chuva que descostura o tecido.

Enid and Seymour

Ghost World (2001) 

Esse vídeo é ótimo (clique na imagem para vê-lo no Youtube), trecho de um filme chamado Ghost World, baseado em uma história do quadrinista Daniel Clowes, e que apresenta um pouco dessa inadequação com o mundo a partir de três personagens: Enid (Thora Birch), Rebecca (Scarlett Johansson) e Seymour (Steve Buscemi). O filme começa com Enid e Rebecca despedindo-se de seus anos de high school, e também da própria adolescência. Em tese, pois Enid é o oposto de sua amiga, e sua vontade de sair de casa, trabalhar e rascunhar algum início de vida adulta é quase nula. Talvez por seu medo de não mais viver o que lhe é familiar, afinal, o desconforto será sempre uma de nossas últimas opções dentre as opções de vida possíveis.

I can't relate to 99 percent of humanity / Não consigo me identificar com 99% da humanidade (diálogo final do vídeo acima) representa bem esta 'motivação cética' de Enid, que poderíamos resumir como há todo um mundo que não entendo e por isso não o quero; agora tragam-me um café, por favor. Já Seymour é a personificação da insegurança sincera, e neste algum momento de amizade com Enid ambos encontrarão um espaço para uma improvável nova vida. Até que....

Até que a vida real assuste Enid e alguns nós sejam finalmente desatados; até que a vida real faça com que Seymour desperte da crueldade da matrix e comece a finalmente viver. 

Não, a vida não será fácil, mas nem por isso precisamos interromper nosso diário quando "o acidente do meio pro final da história" chegar.

É o que esperamos; e é o que o Nós nos deseja (assim acredito).

Ps:

Façamos um exercício: Se fôssemos criar um Museu de Nós Mesmos, 1) criaríamos uma grande lista de recordações (boas) e as apresentaríamos cronologicamente (ou talvez por 'ordem de importância') em todas as salas e corredores do Museu, ou 2) destacaríamos de nosso diário apenas os momentos realmente muito importantes e os apresentaríamos todos em uma só parede, como um grande mapa onde cada ponto da história sustenta o seguinte e por isso todos (ainda que não sejam muitos) precisem estar sempre juntos para que façam algum sentido?

Qual das opções você escolheria: um "Louvre" de histórias independentes ou um quebra-cabeça de histórias que só se encaixam com o tempo? Taí talvez um segundo assunto sobre o qual poderíamos escrever...
  

David Nicholls, Nós. RJ: Intrínseca, 2015.

Terry Zwigoff, Ghost World, 2001.

O Louvre e a Matrix - parte 1

terça-feira, 1 de setembro de 2015
Então eu comecei a ler o tal do Nós, livro seguinte ao Um Dia, do escritor David Nicholls. Sei que deveria comentar a história apenas quando a tivesse terminado mas... não consigo, especialmente quando o início do livro já me diz alguma coisa.

E alguma coisa tipo: logo no início há um personagem tão... parecido comigo.

Um rabugento. Risos.

O livro começa com a narração de Douglas, Douglas Timothy Petersen, pai de Albie e esposo de Connie, que já nas primeiras linhas comenta o fim de seu casamento. De forma irônica até, apesar da aceitação-dos-fatos e da saudade. E parece-me que este será o tom de todo o livro. Assim espero.

Douglas então amanhece com o fatídico "não é você ou eu, o problema somos nós" e começa a narrar os dias em uma sequência de capítulos curtos, alternados por memórias de eventos muito antigos - como os do início dos bons dias de seu casamento, ou seja, há muitos anos - e que farão um 'sentido maior' para o leitor lá pelo meio da história, ao que parece. Assim espero também.



Então temos já um bom material para uma conversa: o fim de um casamento; o tédio (e o eventual desprezo) que surge de um convívio muito prolongado com alguma coisa ou alguém; as monumentais discussões quando as personalidades do par romântico tornam-se incompatíveis (afinal, essa coisa de Eduardo e Mônica só é bonitinha na letra do Renato Russo), enfim, todo um acervo de problemas conhecidos e totalmente identificáveis.

Mas, por enquanto, destes não falaremos, pelo menos não neste post, pois há uma cena que induz um assunto que merece toda a nossa atenção. Acompanhemos:

(p. 28) A massa de atum gratinada desceu como argila quente, e o monólogo de Jake continuou durante a sobremesa, um pavê de xerez irônico, coberto com creme de leite, confetes e jujubas suficientes para suscitar o surgimento de diabetes tipo dois. Connie e Jake se inclinavam sobre mim agora, os feromônios umedecendo o ar entre os dois, o campo de força erótico afastando minha cadeira cada vez para mais longe da mesa até eu ficar praticamente no corredor com as bicicletas e pilhas de Páginas Amarelas. Em algum momento, Connie deve ter percebido isso porque ela se voltou para mim e perguntou:
          - Então, Daniel, o que você faz?
         'Daniel' me pareceu próximo o bastante.
         - Bem, eu sou cientista.


¬ ¬  judging you


O desconforto. O tempo que se arrasta quando somos obrigados a participar de alguma circunstância social que não gostaríamos. E circunstâncias do tipo festas talvez (mas quase dizendo certamente) sejam das mais traumáticas dentre os inimagináveis eventos sócio-traumáticos da vida! Enfim.

No caso de Douglas, à época um homem em seus quase trinta, seu desafio seria a participação em uma festinha organizada por sua irmã (não-nerd, claro), onde 'finalmente' poderia "conhecer gente nova e quem sabe um amor". Mas a festa estaria repleta de expoentes da sociedade criativa, o que inclui artistas com formações e currículo indefiníveis, e também seres 'sustentáveis' e lindos, como Jake, o trapezista ruivo de inflamável discurso social e um simpático ego sem fim.

Pois bem. Nem sempre a vida será este eterno clube imaginário onde, tal como em The Big Bang Theory, personagens do tipo opostos compartilham fluidos, amor e demais químicas; na vida - e na festa - real, estaremos sempre de calça cáqui e rabo de cavalo em meio a um algum grupo de pessoas com cabelos assimétricos e pós-graduação em Estudos em Ventriloquismo e Artes Mímicas em alguma cidadezinha na Bulgária. 

Não é fácil essa vida. No entanto, e de uma forma quase inevitável, precisamos carregar no bolso algum kit de sobrevivência para situações desconfortantes, e aprender que mesmo nos piores cenários sociais o Charlie que habita em nós encontrará Sam e Patrick, e com eles compartilhará movimentos desajeitados e instantes de alegrias infinitas.

Ah, o amor! Por quê gente sempre termina - ou começa - as histórias com isso...


Não sei se por coincidência ou se por minha atenção estar um tanto "atenta" a este assunto (não especificamente o do amor, e sim o do desconforto) mas praticamente todas as histórias que li neste ano lidam com alguma ideia de inadequação, daí o As vantagens de ser invisível vir sempre à mente, daí a citação no parágrafo anterior, talvez por ser esta história um primeiro lugar na classificação de histórias onde o mundo simplesmente dói e doerá ainda mais se sairmos dele.

Mas olha, o tal do David Nicholls é um bom autor sim, e eu quero muito que este livro termine bem, e que haja algum conforto para o coração e o cotidiano de todos os seus personagens.

Sobre o tal do Louvre e da Matrix, fica pro próximo post, pois ainda estou desconfiada e preciso ler até um pouco mais da metade pra ver se nada de tão bizarro acontece e interrompe meu interesse pela história. Aguardemos então.

Auto Post Signature