segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Louvre e a (crueldade da) Matrix - parte 2


Primeiro mandamento: Não julgue um livro pela capa. Por sua sinopse, talvez. O mesmo vale pessoas, principalmente pessoas. Mas quando nos deparamos com um autor desconhecido e o último capítulo de uma saga favorita, dificilmente escolheremos o personagem sem referências. A não ser é claro que você seja um fã incondicional de todo e qualquer lançamento (e sociabilidade) possível. Mas, em geral, não somos assim, e o estranhamento nem sempre será nossa primeira escolha.

Mas então, terminei o Nós, e na parte 1 comentei alguns dos porquês de ter gostado do livro. E neste meio tempo encontrei leitores que não conseguiram sequer chegar ao meio da história. Olha, concordo com vocês, a vida seria tão mais fácil se não fôssemos tão irritadiços (e talvez por isso o mundo ranzinza do personagem de Nicholls não seja a melhor das leituras). Mas você consegue tolerar alguma situação ou relacionamento só para evitar a dor (e o cansaço) de perder esta alguma coisa ou alguém? Ou você consegue com facilidade se desapegar de tudo o que não faz bem e sem pensar muito nas consequências?

Concordo com Nicholls que em algum momento (talvez aos quinze, vinte e cinco ou aos cinquenta) a vida simplesmente acorde 'embolada' demais, cheia de 'nós', e quase pronta a se romper de tanto conserto e remendo. E nestes momentos não há muito o que decidir: ou vivemos de menos, para que o tecido da História não entre em desalinho, ou vivemos demais e nos conformamos (melhor seria aprendermos) com as cicatrizes de cada dia. 

Eis o que somos, eternos alfaiates, por vezes costurando o melhor dos ternos, mas (na maioria das vezes) também costurando lycra com seda e ficando pelado na primeira chuva que descostura o tecido.

Enid and Seymour

Ghost World (2001) 

Esse vídeo é ótimo (clique na imagem para vê-lo no Youtube), trecho de um filme chamado Ghost World, baseado em uma história do quadrinista Daniel Clowes, e que apresenta um pouco dessa inadequação com o mundo a partir de três personagens: Enid (Thora Birch), Rebecca (Scarlett Johansson) e Seymour (Steve Buscemi). O filme começa com Enid e Rebecca despedindo-se de seus anos de high school, e também da própria adolescência. Em tese, pois Enid é o oposto de sua amiga, e sua vontade de sair de casa, trabalhar e rascunhar algum início de vida adulta é quase nula. Talvez por seu medo de não mais viver o que lhe é familiar, afinal, o desconforto será sempre uma de nossas últimas opções dentre as opções de vida possíveis.

I can't relate to 99 percent of humanity / Não consigo me identificar com 99% da humanidade (diálogo final do vídeo acima) representa bem esta 'motivação cética' de Enid, que poderíamos resumir como há todo um mundo que não entendo e por isso não o quero; agora tragam-me um café, por favor. Já Seymour é a personificação da insegurança sincera, e neste algum momento de amizade com Enid ambos encontrarão um espaço para uma improvável nova vida. Até que....

Até que a vida real assuste Enid e alguns nós sejam finalmente desatados; até que a vida real faça com que Seymour desperte da crueldade da matrix e comece a finalmente viver. 

Não, a vida não será fácil, mas nem por isso precisamos interromper nosso diário quando "o acidente do meio pro final da história" chegar.

É o que esperamos; e é o que o Nós nos deseja (assim acredito).

Ps:

Façamos um exercício: Se fôssemos criar um Museu de Nós Mesmos, 1) criaríamos uma grande lista de recordações (boas) e as apresentaríamos cronologicamente (ou talvez por 'ordem de importância') em todas as salas e corredores do Museu, ou 2) destacaríamos de nosso diário apenas os momentos realmente muito importantes e os apresentaríamos todos em uma só parede, como um grande mapa onde cada ponto da história sustenta o seguinte e por isso todos (ainda que não sejam muitos) precisem estar sempre juntos para que façam algum sentido?

Qual das opções você escolheria: um "Louvre" de histórias independentes ou um quebra-cabeça de histórias que só se encaixam com o tempo? Taí talvez um segundo assunto sobre o qual poderíamos escrever...
  

David Nicholls, Nós. RJ: Intrínseca, 2015.

Terry Zwigoff, Ghost World, 2001.
2 comentários on "O Louvre e a (crueldade da) Matrix - parte 2"
  1. Menina que texto maravilhoso! Parabéns pelas observações e análises. Eu - I N F E L I Z M E N T E ! - ainda não li Nós, fui tentar comprar recentemente e não achei em loja alguma. Mas tenho que dizer que sou Fã do David Nichols eprincipalmente pelo fato de ele escrever histórias que mesmo sendo ficção me faz enxergar naturalmente a realidade.
    Quando eu ler volto aqui e releio essa postagem e vamos discutir (rs.).

    Beijos.
    Diego, Blog Vida & Letras
    http://blogvidaeletras.blogspot.com

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  2. Di, eu super acho que temos que fazer (um carnê e encomendar todos os livros para) uma maratona David Nicholls pra em seguida escrevermos uma gigante resenha sobre o autor, o que acha? :D :)

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