terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Louvre e a Matrix - parte 1

Então eu comecei a ler o tal do Nós, livro seguinte ao Um Dia, do escritor David Nicholls. Sei que deveria comentar a história apenas quando a tivesse terminado mas... não consigo, especialmente quando o início do livro já me diz alguma coisa.

E alguma coisa tipo: logo no início há um personagem tão... parecido comigo.

Um rabugento. Risos.

O livro começa com a narração de Douglas, Douglas Timothy Petersen, pai de Albie e esposo de Connie, que já nas primeiras linhas comenta o fim de seu casamento. De forma irônica até, apesar da aceitação-dos-fatos e da saudade. E parece-me que este será o tom de todo o livro. Assim espero.

Douglas então amanhece com o fatídico "não é você ou eu, o problema somos nós" e começa a narrar os dias em uma sequência de capítulos curtos, alternados por memórias de eventos muito antigos - como os do início dos bons dias de seu casamento, ou seja, há muitos anos - e que farão um 'sentido maior' para o leitor lá pelo meio da história, ao que parece. Assim espero também.



Então temos já um bom material para uma conversa: o fim de um casamento; o tédio (e o eventual desprezo) que surge de um convívio muito prolongado com alguma coisa ou alguém; as monumentais discussões quando as personalidades do par romântico tornam-se incompatíveis (afinal, essa coisa de Eduardo e Mônica só é bonitinha na letra do Renato Russo), enfim, todo um acervo de problemas conhecidos e totalmente identificáveis.

Mas, por enquanto, destes não falaremos, pelo menos não neste post, pois há uma cena que induz um assunto que merece toda a nossa atenção. Acompanhemos:

(p. 28) A massa de atum gratinada desceu como argila quente, e o monólogo de Jake continuou durante a sobremesa, um pavê de xerez irônico, coberto com creme de leite, confetes e jujubas suficientes para suscitar o surgimento de diabetes tipo dois. Connie e Jake se inclinavam sobre mim agora, os feromônios umedecendo o ar entre os dois, o campo de força erótico afastando minha cadeira cada vez para mais longe da mesa até eu ficar praticamente no corredor com as bicicletas e pilhas de Páginas Amarelas. Em algum momento, Connie deve ter percebido isso porque ela se voltou para mim e perguntou:
          - Então, Daniel, o que você faz?
         'Daniel' me pareceu próximo o bastante.
         - Bem, eu sou cientista.


¬ ¬  judging you


O desconforto. O tempo que se arrasta quando somos obrigados a participar de alguma circunstância social que não gostaríamos. E circunstâncias do tipo festas talvez (mas quase dizendo certamente) sejam das mais traumáticas dentre os inimagináveis eventos sócio-traumáticos da vida! Enfim.

No caso de Douglas, à época um homem em seus quase trinta, seu desafio seria a participação em uma festinha organizada por sua irmã (não-nerd, claro), onde 'finalmente' poderia "conhecer gente nova e quem sabe um amor". Mas a festa estaria repleta de expoentes da sociedade criativa, o que inclui artistas com formações e currículo indefiníveis, e também seres 'sustentáveis' e lindos, como Jake, o trapezista ruivo de inflamável discurso social e um simpático ego sem fim.

Pois bem. Nem sempre a vida será este eterno clube imaginário onde, tal como em The Big Bang Theory, personagens do tipo opostos compartilham fluidos, amor e demais químicas; na vida - e na festa - real, estaremos sempre de calça cáqui e rabo de cavalo em meio a um algum grupo de pessoas com cabelos assimétricos e pós-graduação em Estudos em Ventriloquismo e Artes Mímicas em alguma cidadezinha na Bulgária. 

Não é fácil essa vida. No entanto, e de uma forma quase inevitável, precisamos carregar no bolso algum kit de sobrevivência para situações desconfortantes, e aprender que mesmo nos piores cenários sociais o Charlie que habita em nós encontrará Sam e Patrick, e com eles compartilhará movimentos desajeitados e instantes de alegrias infinitas.

Ah, o amor! Por quê gente sempre termina - ou começa - as histórias com isso...


Não sei se por coincidência ou se por minha atenção estar um tanto "atenta" a este assunto (não especificamente o do amor, e sim o do desconforto) mas praticamente todas as histórias que li neste ano lidam com alguma ideia de inadequação, daí o As vantagens de ser invisível vir sempre à mente, daí a citação no parágrafo anterior, talvez por ser esta história um primeiro lugar na classificação de histórias onde o mundo simplesmente dói e doerá ainda mais se sairmos dele.

Mas olha, o tal do David Nicholls é um bom autor sim, e eu quero muito que este livro termine bem, e que haja algum conforto para o coração e o cotidiano de todos os seus personagens.

Sobre o tal do Louvre e da Matrix, fica pro próximo post, pois ainda estou desconfiada e preciso ler até um pouco mais da metade pra ver se nada de tão bizarro acontece e interrompe meu interesse pela história. Aguardemos então.
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