[Resenha] [Parceria] Edições Contíguo - Crie sua Redação

sábado, 31 de outubro de 2015

Todo livro nasce de um sonho. E muitos sonhos se realizam a partir do trabalho em conjunto, da colaboração. E foi a quatro mãos que os designers pernambucanos Henrique Lira e Suellen Silva lançaram o Crie sua Redação, um livro interativo que se destaca no segmento por suas atividades educativas, perfeitas para alunos em idade escolar, especialmente vestibulandos. Por ser também uma obra que estimula a criação textual a partir de atividades lúdicas de escrita e desenho, certamente este livro será também uma grande diversão e aprendizado para todas as idades!


O livro tem esse formato de caderninho, como se fosse pensado para caber em qualquer bolsa, pronto para receber nossa escrita a qualquer momento. O papel tem uma boa gramatura e é do tipo pólen (aquele de cor 'amareladinha'), portanto, pode usar caneta, cola, tinta que o livro está preparado para intervenções artísticas em suas páginas. :)

Logo no início os autores apresentam a Redação como sendo o processo de escrever um texto. E por ser a escrita um processo, é necessário que entendamos suas etapas e dediquemos ao texto todo um planejamento. Afinal, escrever por impulso é importante para gerar ideias e até criar uma obra literária, mas para a Redação da escola e dos concursos é necessário que o leitor encontre a harmonia e o objetivo de nossas ideias.

O uso do rascunho, a atenção ao tema, o cuidado com a pontuação e a grafia são algumas das dicas para este início de Redação. E cada uma das dicas é apresentada em um par de páginas, como se em um fichamento onde grifamos o que não é para ser esquecido e ainda adicionamos comentários. O livro é generosamente bem diagramado, então cabem anotações de todo tipo. Eu que adoro um post-it certamente usarei um monte deles no livro :)


E como a proposta é a de criarmos uma redação, os autores conseguiram um equilíbrio entre as atividades específicas para o apefeiçoamento do texto e os momentos de texto livre, onde podemos criar um autorretrato e iniciar uma coleção de poemas, por exemplo. Crie sua Redação não é então um manual, mas um livro interativo mesmo. :)


Apoie o trabalho de jovens autores e também o de editoras jovens, como a Contíguo, que apostam na colaboração e na livre iniciativa para a realização de seus sonhos e os de seus autores parceiros. Abaixo, todas as redes da Editora. Sigam todas! <3 :)




Quem somos

Somos pessoas. Somos o outro. Somos você.
Somos um grupo. Somos o todo. Somos um só.
Somos jovens. Estudantes. Empreendedores. 
Somos aventureiros. Corajosos. Esperançosos.
Somos ideias. Envolvimento. Movimento.
Somos uma empresa. Criadora e criativa. Inovadora e nova.

A grande verdade é que somos sonhadores.


O que queremos

A palavra Contíguo vem do Latim e significa "aquilo que está ao lado de". Nosso principal objetivo é esse: estar ao lado das pessoas. 
Somos, acima de tudo, uma equipe. E como equipe, acreditamos na importância equânime de todas as partes para a construção do todo. 
Não trabalhamos para pessoas; trabalhamos com pessoas. Desejamos que cada parceiro, instituição ou cliente que trabalhe conosco se sinta satisfeito, contemplado, representado e feliz com os resultados alcançados. 


O que fazemos

Como sonhadores, sonhamos.
Como bons sonhadores, realizamos os sonhos.
Como empresa, facilitamos o caminho entre pessoas e seus sonhos, através

- Da assessoria e consultoria relativas à questões editoriais, desde o processo criativo até a materialização do trabalho;
- Do desenvolvimento de ferramentas que potencializem o protagonismo do indivíduo nos processo de ensino-aprendizagem;
- Da elaboração/produção de ações, projetos e eventos literários, culturais e educativos.


Porque fazemos

Fazemos tudo porque acreditamos.
Acreditamos no poder que a Educação tem de transformar, melhorar, ampliar, abrir portas, fazer crescer e libertar. 
Acreditamos também que os processos que compõem a Educação não acontecem apenas nos ambientes formais e institucionalizados; educar não se limita à relação professor-aluno, muito menos ao espaço da escola.
Acreditamos que a leitura, a escrita, as artes e a internet são instrumentos fundamentais para o acesso à informação e a construção do conhecimento. 
Acreditamos na importância de contribuir para a formação de cidadãos críticos, empoderados e participativos.
Acreditamos na força do trabalho em equipe.
Acreditamos num mundo melhor.

Por mais que o trabalho nesse campo às vezes pareça um grito no vazio, também acreditamos que é no vazio onde o grito ecoa mais forte e alcança longas distâncias.


Como fazemos

Fazemos acreditando.E a nossa crença é a de que 
O melhor caminho é a criatividade;
O melhor espírito é a coletividade;
O melhor intuito é a solidariedade.

[Resenha] Sobre a coragem que apenas surge: A máquina de contar histórias, de Maurício Gomyde

sábado, 24 de outubro de 2015
 
- Tenho medo de perder a espontaneidade.

- Esse idealismo é bonito e é próprio dos jovens, e você está certa em ter medo de perdê-lo. Mas não vai ser por ter consciência plena das suas limitações e potencialidades que isso vai acontecer. Admiro sua perseverança em se entregar ao texto. Se assim for, que seja com a alma. O importante é você colocar fogo entre as palavras, e não nas palavras.

(A máquina de contar histórias, p. 159)


Seja você mesmo. Talvez o conselho que mais ouvimos na vida? Nesta busca pelo que é verdadeiro, conseguimos traduzir a intimidade que gostaríamos ou sentimo-nos intimidados por esta expectativa de sinceridade? 

Contar uma história ou um desejo (ou ainda, o desejo de uma história) pode por vezes ter a voz de uma prece: silenciosa, embora irrequieta, como se estivéssemos à espera da melhor das frases, e não apenas de seu melhor. E qual o vencedor nesta luta entre o não-dito (o fogo entre as palavras) e tudo o que por motivos de timidez ou soluço não conseguimos dizer?

Ainda que em um continuum de coragem e tropeço, acredito que o importante seja dizer. Seria este um conselho menos dolorido? Viver de primeiras palavras, não importando quais ou quão importantes, sem medir o tanto de prazer e danos que causaríamos? Haveriam histórias pra contar, lembranças dessa espontaneidade pra vivermos?

Se a conversa e os encontros de nossos dia-a-dias são assim tão difíceis, no limite da naturalidade e da prudência, penso na dor dos que se propõem a escolher palavras para um poema, uma carta de amor, uma obra literária; no quanto de medo, tropeço, coragem, ousadia que cada corpo de texto desses carrega. Afinal, cabe ao autor demonstrar sua verdade com todas as palavras possíveis? É preciso exaustão para soar verdadeiro? Escrever até a alma cansar seu fôlego? Ou, como um antigo texto nos diz, teu nome no meio da página será sempre a melhor declaração de um poeta?

Seria a escrita então este algum-mundo onde nos sentimos... livres? E sentir-se livre, ainda que preso ao texto, é sentir-se então verdadeiro?

Sei que é preciso vontade. Para o impensado e também o texto escolhido. Para que assim o leitor-confidente ouça nossa precisão e soluço, e quem sabe complete o que ficou pelo caminho.

 
 VS, segundo album do Pearl Jam (1993)

 
O segundo álbum tem a fama de ser um marco e um problema para todo artista. Porque quando uma banda consegue seu melhor trabalho logo no primeiro disco, as expectativas para o segundo costumam ser duvidosas, como se já não houvessem créditos para algo ao mesmo tempo novo e incrivelmente fiel à experiência do primeiro. Talvez a Literatura siga em uma outra lógica e indústria, mas ser diferente com a mesma essência é uma cobrança que assola tanto o escritor como o artista, que nestas horas talvez sofram como um menino à espera de seu segundo encontro, onde por sua essência permanecerão formosos aos olhos da mocinha ou simplesmente ignorados por seus dois ou três diálogos mal ensaiados.

Em A máquina de contar histórias, Maurício Gomyde apresenta-nos Vinícius Becker, um escritor mundialmente famoso que, após um longo processo de dor e segundas chances, reconhece que a fama e o sucesso não o torna um escritor de verdade. Ainda que a verdade percebida por seu público tenha sido o êxito de sua carreira em todos estes anos. Mas no instante em que a vida real confronta a literária, é preciso escolher o caminho que mais importa, e então seguir. No caso de Vinícius, foi preciso este nocaute do real para que sua vida literária recomeçasse no caminho certo.

Aos dezesseis anos Vinícius descobre a escrita, e nela se abriga, sendo este seu melhor ofício e carreira, sua razão de existir. Quando adulto, esta vontade de escrita produziu um, dois, inúmeros bestsellers. E a vida assim continuava, entre milhares de fãs, histórias e clichês de sucesso, até o dia em que uma grande perda confrontou Vinícius com uma dura realidade: valeu a pena conquistar o mundo para deixar-se vencer pela vida?

Esposo de Viviana e pai de duas meninas, por muitos anos Vinícius tratou a literatura 'com a frieza de uma ciência exata' (p. 141), como se a proeza de seu texto (conquistada a duras penas) fosse uma fórmula suficiente para o êxito de seu ofício. Porque anterior ao sucesso está o domínio da escrita, mas para o pequeno-grande mundo que acompanha o artista (sua família e amigos), tal êxito talvez seja sinônimo de apenas isolamento.

Para Vinícius, não é preciso responder se a arte é a expressão de sua verdade (pergunta favorita de todo jornalista) pois suas obras falam por si, e por isso despertam uma inimaginável proximidade com os leitores. E se é verdade que o autor dedica mãos e tempo para escrever, costurar e cortar parágrafos e versos atravessados, seu trabalho será então verdadeiro. Como uma confidência, talvez. Ainda que muito bem estruturada e pouco "espontânea", como dirá Valentina, sua filha adolescente e então comentadora favorita, que não entende como podemos chamar de arte algo que não transparece a verdadeira dor e virtude de todo artista. Porque não pode ser autor aquele que não fala com vigor e autenticidade; afinal, é preciso que sua vida simplesmente pule do coração e se derrame na tela do texto.

E assim prosseguem os personagens de Maurício, neste possível-impossível das relações humanas e da criação artística, apaziguados apenas quando a maior das verdades, o Amor, verdadeiramente ocupa as páginas do coração de Vinícius e suas filhas.

Ainda sobre as segundas chances, lembro de uma entrevista sobre o Pearl Jam (trecho de um documentário na verdade) onde os integrantes comentavam sobre como Eddie Vedder era um cara um tanto introspectivo nos palcos, especialmente no início da banda, e que foi preciso um incidente em um dos shows (no caso, um tumulto entre público e seguranças) para que toda a intensidade da cena reverberasse na voz de Eddie. Este momento foi documentado em vídeo, assim como inúmeros outros de inúmeros shows, mas foi esta explosão de voz e expressão específica que a banda decidiu tornar inesquecível. Porque quando parte de nossa vida é de certa forma assim eternizada, importa guardar a lembrança que queiramos como mais verdadeira, talvez porque não seja possível compartilhar a lembrança mais importante de nossas vidas com todo o mundo. No caso do Pearl Jam, parece mesmo haver algum 'romantismo' nesta imagem de um cantor que descobriu sua voz apenas quando confrontou as forças que o policiavam (o que não deixa de fazer sentido); mas se esta imagem é de todo verdadeira ou não, não saberemos, e não importa. Afinal, para que haja história, seja a da literatura ou da música ou de nós mesmos, é importante que haja voz, ainda que fraca, como um prenúncio de uma coragem que em algum momento apenas surge, e vive.


- As palavras de um de seus favoritos, Jack Kerouac, vieram à mente: 'A página é comprida, está em branco, cheia de verdades. Quando eu acabar com ela, provavelmente estará comprida, cheia - e vazia com palavras'. Pois ele sentia que o branco da página era o mais sincero a dizer a Viviana.  
(p. 54)



Maurício Gomyde, A máquina de contar histórias. SP: Novo Conceito, 2014.

[Tag] Música e Séries

quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Toda boa série acompanha uma boa trilha sonora. Seja na abertura do episódio ou em momentos épicos da trama, alguns temas tornam-se até mais famosos que a própria série, e talvez um fardo para seus autores que para sempre ouvirão nos shows "toca aquela música da série tal".

Como nostalgia é um de meus sobrenomes (risos), eis uma lista rápida de temas de abertura de diversas séries hoje um tanto "vintage":

Friends
Dawson's Creek
The Fresh Prince of Bel Air
Blossom
Law and Order - Apesar de não ser um tema com voz mas incluo nesta lista por motivos de amo Law and Order e "canto" a música toda :D
Married with Children
Smallville 


Diz aí: tem algo mais legal que trilhas de seriados? Sim, tem: quando nossos personagens preferidos compartilham suas (in)aptidões sonoras:



E pra não ficarmos só na nostalgia, selecionei também trechos de situações exoticamente musicais em séries "menos antigas" que gosto muito:


1. Uma compilação hilária de The Big Bang Theory com muita "vergonha alheia" musical:



2. E ainda: Sheldon cantando. Apenas.


 
3. "Essa música diz que é hora de ir pra casa. Então, virou minha música favorita." Closing Time, do Semisonic, inspirando o fim do expediente em um episódio de The Office:

https://www.youtube.com/watch?v=OlA8QyBSc3s


4; Enquanto isso, Homer descobre que "música é muito fácil":



5. Pausa para um momento poético onde a música verdadeiramente acalma os corações. Até o do House.

https://www.youtube.com/watch?v=_UwkILPlwBI


6. E quando a vida ficar esquisita, liga o som e se joga galera :)

https://www.youtube.com/watch?v=eBb0UQihUZA




E você, tem alguma trilha sonora favorita? Ou lembra de algum episódio que tenha a ver com música? Conta pra gente :)

[Resenha] Forte como uma carta, frágil como um texto - Sobre alguns livros de Maurício Gomyde

domingo, 11 de outubro de 2015
um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o começo e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro¹

- Então, tenho que te contar uma ideia maluca que eu tive...
- Ideia pra um trabalho?
- É, eu tava indo pra casa, e um vento absurdo vindo de uma só direção, ainda bem que eu não tava de saia. Mas continuei andando, prendi o cabelo, daí as folhas começaram a "andar" mais rápido que eu, como se eu estivesse pisando em um tapete móvel, feito dos restos do último outono...
- Nossa, taí um bom título!
- Não é?! E depois aconteceu uma coisa ainda mais incrível, maior inspiração, peguei o celular na hora, fiz um vídeo, olha.
- Deixa ver... Pena que não deu tempo de filmar também o tapete-Aladyn de outon... Nossa! Isso aqui tá muito bom!
- Poisé! E foi algo que aconteceu no maior acaso...
- Foi algo que aconteceu porque você tava prestando atenção...
- Ah, mas olha esse vento, parecia que tudo tava respirando, a paisagem toda, não tinha como não prestar atenção!
- É, realmente não tinha, mas felizmente o motoboy prestou atenção em você né, porque olha isso, toda louca atravessando a rua e filmando, podia ter morrido, doida!
- Ahhh, tudo pela Arte, amiga! A gente tem que se arriscar, sair do lugar comum, confiar nas sugestões poéticas que o mundo nos oferece!
- Concordo com as sugestões poéticas, mas fica viva, tá? Que esse vídeo realmente tá muito bom! Quem diria, dona Julia recriando o Beleza Americana, vai reescrever o filme todo também?
- Nossa, tá todo mundo falando isso, mas acredita que não vi o Beleza ainda?
- Que isso, menina! Não conhece a cena do saco? É um clássico! Me dá aqui o celular, tem no Youtube. Pronto, assiste aí.
- Bora ver................... Gente!!! Como assim?!!
- Poisé!!!
- Uau, isso sim é arte!
- A tua percepção também, menina! Aliás, principalmente! Já que não conhecia o filme e saiu filmando no instinto.
- É, isso é verdade... Porque eu poderia ter filmado o Gael García da zona norte e ter curtido uma viagem mais documental né.
- Acho difícil. Você é poeta, tem nada de Easy Rider no sangue.
- Cause I am Easyyyy... Easy como a música do Faith no Moooooore...
- Easy como a música do Commodores, amiga.
- Quem?
- Êêê novinha, sabe nada dos flashbacks...
- Êêê idosa, pra mim o amor não tem essa de trilha não, pode ser flashback, pode ser pagode, pode ser...
- Eita, e quem falou de amor aqui antes, menina?
- E quem nunca falou de amor aqui antes, menina?...


Sempre ouviu que cada um é a soma de suas experiências. Mesmo que imperceptíveis, uma palavra, uma cena, uma situação, essas mínimas coisas são capazes de mudar uma pessoa. Para melhor ou pior. (Ainda não te disse nada, p.74)

Um horizonte chamado São Paulo. Ou Paris, Lisboa, um novo lugar. Porque pra sonhar é preciso dar um primeiro passo, e por vezes cruzar alguma geografia. Ainda em seus poucos vinte anos, Marina cruzaria seu primeiro oceano, partindo da pequena São Pedro da Serra em direção a capital paulistana, onde o sonho de estudar, realizar-se profissionalmente e quem sabe amar fosse talvez algo possível. E ainda que a passos poucos, o primeiro salário, a vida universitária e as melhores amigas seriam um conforto para quaisquer inquietações. Porque Marina muito desejava, era preciso ter os pés no chão para sentir cada mudança, cada encontro, cada presente que a vida lhe proporcionava.

Inquietação era também característica de Pedro, que desde muito jovem acreditou que a Arte poderia transformar corpos e consciências. Especialmente o seu, que por incompreensíveis razões foi se tornando um corpo cada vez mais frágil, ainda que permanentemente sensível a tudo o que o mundo julgava insignificante.² Em seus vinte e alguns anos, a visão turva de Pedro seria eternizada pelas lentes do Cinema e de todos os que a cada dia igualmente desafiam a opacidade do mundo.

No improvisado cineclube do bairro, quatro ou cinco espectadores parecem silenciosamente gostar - e de algum modo compreender - os ideais e sonhos ali compartilhados. E como persistência é uma das forças vitais de todo artista, Pedro e sua equipe (um trio formado por seu melhor amigo, uma amiga de trabalho e um futuro amor) seguem na contramão da adversidade rumo a um novo e audacioso projeto cinematográfico, possível até mesmo em um mundo desbotado, prestes a esmaecer.

A busca por inspiração também ocupa os dias de Marina, que em meio a uma rotina de trabalho em uma agência dos Correios dedica-se a minuciosos desenhos de moda, traçados com a intensidade de seus sonhos. Neste vaivém de realidade versus desejo, a história de Marina é como um presente-contínuo onde a interrupção é apenas um intervalo para a continuação de seu traço, pois o cotidiano nunca deixa de se escrever. Mesmo com os inúmeros desvios do caminho.

Ainda não te disse nada é um livro fronteiriço. Assim como Surpreendente!, cujos personagens encontram-se à beira do quase, este limite à primeira vista intransponível, e que ao menor sinal de audácia torna-se um impasse - ou um passo - para uma nova história. Na vida de Pedro e Marina, assim como em nossa própria vida, é preciso saber lidar com este quase que antecede o acontecimento. Para melhor ou pior.

Sempre às margens então, os personagem de Maurício Gomyde de alguma forma motivam-nos a não entregar o jogo. Porque é preciso apostar no que precisa ser feito, ainda que haja dor e inconveniência. Como no dia em que uma carta reescreveria os sonhos de Marina e um eu-te-amo salvaria Pedro de seu próprio abismo. E não há como não nos identificarmos com tais histórias, pois o impasse é o que nos move de um nível ao outro e nos torna ainda mais profundos. 


- Muitas vezes reparei - continuou a Maria dos Remédios -, és capaz de conversar longamente com uma pessoa sem olhar para ela. Eu preciso de lhe ver os olhos, de saber como reage... Para ti só as palavras unem as pessoas, só elas permitem a comunicação. Já tinhas pensado?

Escrever é usar as palavras e não os olhos - saberás tu que eu escrevo? E ao mesmo tempo pus-me a observar-lhe os cabelos: são teus esses cabelos, foste tu a escolher este penteado?

Ela continuava:
- Aprende a olhar, pois as palavras são cegas, são surdas, não têm sabor, nem tacto...
(...)

Respondi-lhe:
- (...) Se olho uma paisagem ou um quadro, se não acompanho esse olhar com alguns comentários, embora silenciosos, os sentidos serão cegos... Não: as palavras é que dão olhos aos sentidos.³


Uma boa escrita é a que nos deixa vulneráveis, imersos na intensidade do personagem e do livro. Acredito que para o autor a escrita seja também uma experiência frágil, como a de um escultor que pode a qualquer momento calejar sua criação. Como se num encontro de palavras tortas e corações alinhados, o ofício do escritor é doar este tanto de (sua) vida em cada letra ou entrelinha, assim como o do leitor é o de recontar (e reencontrar-se em) toda esta criação. Daí a ideia de que toda escrita pode ser boa, bastando a esta encontrar seus bons leitores. Certamente não me refiro ao conceito de bom para o mercado literário; disso não comentaremos aqui. 

A gente escreve para permanecer. Ainda que com toda informalidade, o autor escreve para que algum sentimento permaneça, não importa se em nós ou apenas aqui dentro. E quando não houver sentido, a escrita poderá ser como um papel embolado no fundo da memória, e o autor um grande armazém de experiências: "Quando a impressora cuspiu a capa de The dark side of the moon, ele parou. Talvez ela representasse seu destino e não fosse necessário imprimir mais nada. O desenho do prisma, na capa, foi posicionado de ponta-cabeça. E as cores entravam no triângulo transformando-se em um único feixe, com fundo preto, em direção à borda da capa. As cores que nunca veria. A luz que se apagaria em pouco tempo. Luz que atravessava as janelas e fazia brilhar o mosaico no chão, formado pelas coisas que ele não desejava esquecer. Imagem que talvez tornasse aquele o lugar mais lindo de todo o mundo naquela tarde." (Surpreendente!, p. 127)

Quanto aos personagens de Maurício, estes parecem contar histórias como se conosco as escrevessem. Em confissões ao pé do bar e do ouvido, Marina, Fran, Thaís, Pedro, Fit, Mayla e Cristal compartilham imagens do amor e suas expectativas, como se em um filme onde o desejo eternamente inacabado superasse todo e qualquer script. E não poderia haver melhor definição para a Carta e para o Cinema do que esta intensidade que vem do amor e seus clichês. Afinal, a vida tem também seu universo de dias simples, sem nós, onde tudo apenas segue, um dia por vez, uma batalha por dia, entrecortados por um mundo de realizações e desejos pelo caminho. Daí que após a leitura de Ainda não te disse nada e Surpreendente! você simplesmente acorda ao término das páginas e vê que o sonho permanece. Tal como as histórias que encontramos e os amores que escrevemos. E acredito que a imagem de um bom livro seja esta: a de se tornar um afeto forte como uma carta, sendo ainda algo tão frágil como um texto.


Tu disseste que alguns sonhos não se concretizaram. Mas, pensa... Que graça teria, caso todos eles sempre se tornassem realidade? A beleza da vida está em sua imprevisibilidade. (...) Um sonho não se realizou? Sonha outro. (Ainda não te disse nada, p. 159)


Maurício Gomyde, Ainda não te disse nada. Brasília: Porto 71, 2011.
Conheça o Book Trailer e a Playlist do livro

Maurício Gomyde, Surpreendente!. RJ: Intrínseca, 2015.
Conheça o hotsite do livro



Notas:

¹ Trecho inicial de Galáxias, de Haroldo de Campos. SP: 34, 2011 (3ª ed)

² - Preciso que ela continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie.
- Se essa teoria não começar a colocar dinheiro no caixa do Cultural, quem não vai se salvar é você. (Surpreendente!, p. 13)

³ Augusto Abelaira, Bolor. Portugal: Livraria Bertrand, 1978 (4ª ed)

Para acompanhar o Ainda não te disse nada, uma leitura sugerida: Henry James, In the Cage / Na Gaiola (1919). Infelizmente não encontrei um pdf traduzido, compartilho então o original:

"During her first weeks she had often gasped at the sums people were willing to pay for the stuff they transmitted—the “much love”s, the “awful” regrets, the compliments and wonderments and vain vague gestures that cost the price of a new pair of boots.  She had had a way then of glancing at the people’s faces, but she had early learnt that if you became a telegraphist you soon ceased to be astonished.  Her eye for types amounted nevertheless to genius, and there were those she liked and those she hated, her feeling for the latter of which grew to a positive possession, an instinct of observation and detection. (...) There were those she would have liked to betray, to trip up, to bring down with words altered and fatal; and all through a personal hostility provoked by the lightest signs, by their accidents of tone and manner, by the particular kind of relation she always happened instantly to feel".

[Resenha] O Projeto Rosie - Graeme Simsion

sábado, 3 de outubro de 2015
Gene e Claudia tentaram por algum tempo me ajudar com o Problema Esposa. Infelizmente, a abordagem deles se baseava no tradicional paradigma do namoro, que eu já havia abandonado baseando-me no fato de que as probabilidades de sucesso não justificavam o esforço e as experiências negativas. Tenho trinta e nove anos, sou alto, estou em forma e sou inteligente; (...) porém, existe alguma coisa em mim que repele as mulheres. Nunca achei fácil fazer amizades e, pelo visto, as mesmas deficiências que causaram este problema também afetaram minhas tentativas de relacionamento amoroso. (p. 9)

Rotina como estabilidade, e não apenas tédio. No caso do personagem Don Tillman, o metódico geneticista de O Projeto Rosie, a rotina regrada é sinônimo para estabilidade emocional, ainda que para seus poucos amigos seja algo pior que a monotonia.

A história inicia com um projeto de Don para encontrar possíveis candidatas ao matrimônio. Gene, seu melhor amigo, apostou na estratégia de um questionário, este "instrumento cientificamente válido, com propósito definido" e que eventualmente poderia ser o melhor - senão o único - caminho para que Don encontrasse uma parceira para acompanhá-lo nesta quase segunda metade de sua vida.

Nomeado Projeto Esposa, o questionário é um método de aproximação social com vistas a obter informações sobre o comportamento e gostos de quem concordasse em respondê-lo, no caso, mulheres que também objetivassem encontrar um parceiro pra vida. E por ser Don o autor de tal instrumento, certamente encontraremos perguntas das mais triviais (como "Você fuma?") às mais absurdas ("Você comeria um rim?"), desde já expressando sua excentricidade e lógica para os relacionamentos humanos. 

No entanto, na vida como nas ficções sobre a vida real, o coração descobre sua voz na maior das interferências, e com Don não seria diferente.  

Importante: Por ser este um livro de algum modo polêmico para algumas pessoas (por conta da objetificação do amor), gostaria de nesse texto compartilhar uma leitura "tangencial" à história, como em O Lado Feio do Amor, onde preferi não abordar as infinitas descrições de cenas amorosas e sexuais de Tate e Miles, ainda que estas ocupem praticamente uns 70% do livro. Acredito que a ideia de um Bom Livro seja justamente essa, a de também despertar no leitor possibilidades de interpretação paralelas ao que encontramos em suas páginas. Deste modo acordados, continuaremos então em nossa prosa sobre o tal Projeto Rosie. 


Nem sempre lidamos bem com mudanças, especialmente quando estas dizem respeito ao que nos deixa seguros, como uma profissão ou trabalho não necessariamente perfeitos mas que ofertam alguma comodidade e sobrevivência; ou ainda alguma vida em um mesmo bairro, escola ou círculo de amigos, onde a previsibilidade torna-se um tédio que só admitimos pelo medo de colocarmos tudo a perder ao primeiro passo de mudança. E assim vivemos, como se a rotina das relações, lugares e eventos pesassem menos quando em uma balança onde a segurança é o contrapeso.

Dizem que o segredo para um bom relacionamento é ceder. E por ser este conselho praticamente uma frase feita e um clichê, nem sempre entendemos ou queremos entender a dimensão de sua proposta. Afinal, não importa se em uma relação do tipo par-amoroso ou em contextos de proximidade social: diminuir o nosso espaço para que o outro dele compartilhe é tarefa nada fácil, e envolve todo um medo de 'perder a nós mesmos' neste encontro com a vontade e o desejo do outro, não importando se este outro é um amigo, um vizinho ou alguém com quem compartilhamos uma casa, uma cama ou uma vida.

Mas de volta à história. De todos os livros que conheci neste ano consigo aproximar O Projeto Rosie apenas ao Nós, já que ambos compartilham histórias de relacionamentos mal sucedidos sob a ótica de um mesmo rabugento e cético narrador. Mas não gostaria de encerrar este dado inflexível da personalidade apenas aos personagens "com alguma idade" (claro que a eles isto se aplica com uma maior intensidade, mas não só); que atire o primeiro livro triste quem nunca se sentiu vulnerável e preferiu resguardar-se a acrescentar um novo trauma aos seus sentimentos. E talvez seja por isso que a tal da sick-lit e a literatura dos narradores esquisitos cresça a cada dia...

Sentir! Sentir, sentir, sentir! Os sentimentos estavam atrapalhando minha sensação de bem-estar. 
(p. 150)


Better hurt than to feel nothing at all (antes a mágoa que nada sentir), já dizia alguma música pop do rádio. Mas esta não seria uma definição apropriada ao personagem de Don Tillman, mesmo após duzentos e tantos questionários e também o sim de algumas mulheres que desafiaram as leis da probabilidade de relacionamentos com desconhecidos e aceitaram sair com Don para um jantar ou um baile, que obviamente revelaram-se desastrosas experiências sociais e nada românticas. 

A cada página Don parece então se conformar com seu garantido método de existência baseado em um calendário de atividades alimentares, profissionais, esportivas e nada mais. Tudo o mais é vaidade e desperdício de tempo e energia. O livro, no entanto, é bem dinâmico e divertido, e pouco melancólico, apesar das diversas cenas em que as coisas amorosas não dão certo. Talvez a melhor forma para seguir vivendo seja essa mesmo, a de deixar-se doer menos, e consequentemente importar-se menos com a dor, especialmente quando esta é proveniente do amor.

Don Tillman é mesmo uma dessas pessoas de rigorosa apatia. Mas, de modo a contrariar a literatura melancólica de nossos dias, o personagem permanece apático só até certa parte do livro, só até que...


Rosie.





(contar o restante da história seria spoiler, então... leiam!, que o livro é também especialmente proveitoso e divertido)


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Graeme Simsion. O Projeto Rosie. RJ: Record, 2015.
Leia um trecho

Quotes e imagens do Filme Melhor é impossível  (James L. Brooks, 1997).

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