Rei Arthur e Os cavaleiros da Távola Redonda | Por Jonatas T.B.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

“- São teus os segredos do reino das fadas, Merlim?
- Sim; a maior parte deles, meiga dama do lago. São segredos muito estranhos, e o mais importante jaz debaixo desta lousa.
- Qual é? Dize qual é, Merlim!
- O segredo do descanso eterno – respondeu Merlim, num devaneio -. O segredo cuja posse permite ao homem dormir dia após dia, de mês a mês, de ano a ano. Como eu desejo mergulhar nesse doce sono.”



Sobre as velhas histórias de sempre
 
I
Há histórias que germinam ao ponto de romper as palavras. E dessa fissura, tais histórias sopram, em nossos ouvidos, seus esporos sob o véu do que somos e do que sentimos. Não se sabe ao certo como ou por que, mas acredito que essa espécie de história seja imprescindível para a maneira como sonhamos o mundo. São como vitrais por onde a luz se derrama a fim de iluminar o interior de um castelo. Não é a luz lá fora, nem a construção que providencia forma às sensações. Creio que no fundo de nossas mentes, as histórias, já tão livres das letras, acendem uma chama que sugere sentido ao nome de todas as coisas. São essas histórias como raízes, sementes e vida própria.

“- Ide passar a vida inteira no conforto macio do vosso castelo, comendo e bebendo com vossos cortesãos, em festins suntuosos, divertindo-vos em combates simulados? Não sabeis o que significa uma grande aventura? (...) Não sabeis, podeis experimentar agora, seguindo as fadas caçadoras, grande rei Artur! Que tem que a dama vos tenha pedido só o resgate do seu cãozinho? Que importa que vos pareça magia e loucura tudo o que vistes, e que estejais mais à vontade e mais sossegado em vosso castelo? Tende a coragem de montar a cavalo e seguir Sir Gawaine ao reino das fadas, de tomar o castelo do perigo, de arriscar a vida no enredo tenebroso do vale sem regresso!” (pg. 98)



II

Quando acidentalmente li “Os cavaleiros da Távola Redonda”, uma edição da editora Vecchi publicada em 1958, logo nas primeiras páginas pude ouvir uma voz de Merlim, que me transmitiu algo além do que em geral os magos costumam transmitir. Os encantos do velho sábio aludiam ao tempo de criança, em que eu mesmo me sentia um mago e podia lançar meus próprios feitiços. Assim também ouvia os Cavaleiros da Távola, que pareciam me conduzir por entre um caminho familiar, enfrentando perigos familiares como gigantes e lobos no meio da floresta. Conforme lia a história corria livre pelos bosques povoados por dragões e fadas. A sensação era como se estivesse voltando para casa pela centésima vez depois de um longo tempo, mesmo que em um instante ou outro me perdesse pelo caminho. Tanto participei da história, que creio que poderia até espalhar as páginas amareladas daquele velho livro no chão do quarto e depois lê-las como cartas de baralho. Mesmo assim, não me perderia.

“Disse, pois, que deviam ser três anjos, na esperança de Perceval não tardasse a esquecê-los. Mas o menino empertigou-se, apalpou os músculos dos braços e declarou que, se os três cavaleiros eram anjos, ele pretendia ser como eles.” (pg.181)

Se ao acaso você me perguntar por que uma história contada tantas vezes e de tantas maneiras, como a Demanda do Santo Graal, poderia fazer alguém enferrujado e seco feito eu ser arrebatado para um mundo ao mesmo tempo estranho e familiar; se deseja me questionar como mera coletânea de lendas acerca de uma época em que nem os historiadores afirmam ter existido algum poderoso Arthur e cavaleiros, enquanto estabelecia a paz a unificar a Bretanha - e, se existiu de fato, se seriam seus costumes mais ou menos romanos, menos ou mais bretões; ou se insistir em me perguntar o que teria de especial um círculo de lendas sobre rei e magos, bruxas e fadas, dragões e princesas, tão semelhante a inúmeras lendas espalhadas pelo mundo, não se tratando sequer de uma história original... bem, sinto dizer que eu jamais teria na língua resposta.

Mas se servir de consolo, te aconselharia a inverter a pergunta: por que uma história não apenas sobrevive, mas reaparece como um fantasma escondido debaixo de mil máscaras como acontece com a de rei Arthur? Quais segredos ela guarda para que um número infinito de gerações e de povos queira contá-las, ou, também, o que há em nós a despertar-nos o anseio de ouvi-las?

E se duvidar da existência d’alguma verdade nas respostas que encontrar, não fique triste: as crianças continuarão desejando ouvir as aventuras do mago Merlin e rei Arthur sem se importar, tantos reis Arthur existam e sejam as versões de magos Merlim boas ou más. Haverá sempre, disso tenho certeza, um ouvido novo para ouvir de uma mãe ou um avô uma velha história. As histórias para sempre e sempre provarão, por si só, sua mágica além das palavras.

Fim


Observações:

Como eu havia dito, a versão de “Os cavaleiros da Távola Redonda” que eu tenho em mãos não informa ao menos quem foi seu autor, apenas que fora traduzida por Marina Guaspari. Quem puder me ajudar no conhecimento do autor original, agradeceria profundamente. Além desta, não descobri uma obra propriamente original sobre as lendas arthurianas até o presente momento. Existe o registro reconhecido como mais antigo escrito em latim por Geoffrey Monmouth (s. XII), o Historia Regum Britanniae. É um conjunto de relatos sobre reis da Grã-Bretanha desde sua origem. Além dessa obra, destaca-se a visão do poeta Wace (sec. XII) acerca dos Cavaleiros de Arthur, e também a de Chretien de Troyes (s. XII), que narra diversas aventuras sobre o Santo Graal. Também existe a versão contada pelo britânico Thomas Malory (séc. XV) de nome Le Morte D’Arthur (A Morte de Arthur), tornando-se uma das mais populares. Atualmente foi lançada pela editora Zahar uma edição de Rei Arthur e Os Cavaleiros Da Távola Redonda escrita e ilustrada pelo americano Howard Pyle. (http://www.zahar.com.br/livro/rei-arthur-e-os-cavaleiros-da-tavola-redonda-edicao-comentada-e-ilustrada)

A edição contemporânea de Jacqueline Mirande (sec. XX), baseada nas obras de Troyes, podem lidas no link disponibilizado pela Companhia das Letras (http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/11019.pdf).

Pretendo ler todas as possíveis e comentá-las em algum não tão distante futuro (se PapelPapel não se incomodar com a repetição do tema, claro).

Há, entre as diversas adaptações e inspirações, animações japonesas, histórias em quadrinhos, filmes, séries e outras variações desta lenda que compõem um belo tesselo nas fundações de nossa cultura. 


Creio que seja bem como eu dissera no início: há histórias que germinam ao ponto de romper as palavras.

Que bom que isso nunca termina.
2 comentários on "Rei Arthur e Os cavaleiros da Távola Redonda | Por Jonatas T.B. "
  1. Quando você acha que o Jonatas Tosta já deu tudo de si em um texto, ele vem e nos surpreende. Guri, por favor continue lendo esses clássicos, o mundo precisa conhecê-los. Confesso que nunca li tal livro, mas reconheço os personagens dos diversos filmes que já assisti e de um texto antigo, assinado por Arthur, da Távola, que remete a tal sentimento de nobreza que eu não me surpreenderia se fosse de fato escrito por alguém desse meio. Parabéns, belo texto como sempre :)
    Bjos

    Blog da Gih

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    1. Oi, Gih. É muito bom saber que meus textos conseguem sempre surpreender. Significa que há sempre algo de novo e familiar neles. =D

      As lendas arturianas são praticamente infinitas. Nelas se encontram tanto aspectos de tradições de uma Europa tribal, e a cultura civilizatórias greco latina cristã, ou seja, o monumento que deu corpo, alma e espírito ao homem medieval europeu. Por mais que as pessoas tentem lançar olhar realista sobre a idade média, é impossível não enxergar a grandeza dos valores e ideais de cavalaria. Assim como é impossível para o homem comum alcançá-los.

      Pretendo ler e mergulhar um pouco mais nesse universo, mas só para o ano que vem.

      bsj!

      J.

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