sábado, 11 de junho de 2016

Soppy, de Philippa Rice - Texto por Jonatas T.B.


Apenas: um dos textos mais bonitos que você já viu neste blog :)
 
Soppy - Os Pequenos Detalhes do Amor, de Philippa Rice. Publicado pela Rocco/Fábrica 231



Soppy


Após fechar a última página do livro Soppy de Philippa Rice, eu te perguntei: lembra da primeira vez que você escolheu a palavra certa e disse no momento exato que ele abriu a boca para falar? Foi nesse dia que você quase soprou aquelas palavras. Seriam como borboletas pelo ar. “te am-” Você ia dizendo, mas ambos dobraram a língua e respiraram fundo como se tropeçassem. “que fo-“ alguém começou a perguntar. Mas você esperou de lábios unidos e olhos em silêncio; as pupilas num eclipse que engolia as cores da íris, sentindo cócegas nas bochechas até germinar um sorriso. Ele sorriu também. E aí está. Depois de ler Soppy até o fim me dei conta: para que precisamos tanto afirmar algo tão óbvio com palavras? Ou ainda: porque tanto de um carinho ensaiado. Nada contra carinho ensaiado. Mentira. Talvez um pouco. Um beijo na testa antes de dormir, mas nada além do necessário. E o que podemos achar ser necessário? Se bem me lembro, e se a história em quadrinhos estiver correta, creio que duas pessoas devem se conhecer em primeiro lugar. Em segundo, se, após pegarem contato, não conseguirem se livrar da vontade de ver o outro, podem trocar mensagens, marcar de sair para um restaurante japonês e se conhecer melhor. Talvez um cinema. No início a gente nunca se importa em escolher o filme. Em Soppy um escolheu ação e na outra vez seria drama. Acabaram vendo drama e, adivinhe: ela comeu pipoca, ele chorou igual criança. E mais uma vez: não disseram nenhuma palavra. Talvez um “amo baunilha”, ou um “Baunilha é versão piorada de chocolate”. Depois um abraço no ponto de ônibus e um sorriso debaixo da chuva. Uma amiga achou que eles começaram a morar juntos cedo demais, logo após um pôr-do-sol na praia. Eles não se importaram. Não disseram nada. No dia seguinte já estavam carregando os móveis para dentro de casa. Teriam bastante tempo para se conhecer agora. Talvez seja isso: em terceiro lugar é necessário simplesmente juntar as tralhas e viver. E ela vai conhecendo de perto o que ele se torna a cada dia. Deve fazer companhia no escritório, jogando Nintendo DS enquanto ele trabalha, ou aprendendo que nem todas as pessoas se importam em usar meias de cores trocadas. Ela descobriu que ele tem o corpo mais frio (curiosamente igual ao meu caso), por isso ele sempre está lá roubando calor quando se aninham debaixo do edredom ou se abraçam na sala. Mas não é motivo para problemas. Em troca ele estará sempre lá para salvá-la se acaso sinta medo do filme de zumbis. E no caso dela, também estará por perto para salvá-lo de usar aquelas camisas com estampas horríveis. Isso eu lembro que foi bem importante na minha vida. Obrigado. 

Confesso que a princípio não levei a sério Soppy, e nunca imaginei que me sentiria tão bem escrevendo para você sobre o quanto a história me tocou, de um jeito que a gente se sente feliz ao tomar sorvete caminhando no parque. E foi ótimo não levar Soppy a sério. É sempre melhor quando conhecemos algo que nos surpreende, ou alguém que nos atraia tão de repente, e o momento não caiba num segundo. E foi nesse um segundo que não parei de ler. É justo afirmar que foi assim comigo: conforme lia, as ilustrações doces e confortáveis cenas cotidianas desenhadas por Rice me diziam: está entendendo agora, bobão? E eu ria. Entendi, entendi sim, senhorita Rice. Entendi que entre os opostos há mais que diferenças. Da oposição se alimenta a verdadeira amizade, - e quem sabe também não se alimente o amor que não se diz em palavras. Um que se revela nos gestos do correr dos dias, e no silêncio do sono profundo à noite. Quem sabe...

Você sabe.


 

6 comentários on "Soppy, de Philippa Rice - Texto por Jonatas T.B."
  1. Ouso dizer que esse foi o melhor texto que já li de sua autoria sr. Jonatas! Que delícia quando a gente é surpreendido por um texto despretensioso e que reflete exatamente como as coisas devem ser na vida real e não o suposto e inalcançável relacionamento descrito na maioria dos textos que vemos por aí, sejam eles reconhecidos ou não. Amor é mais que sentimento, é verbo, e verbo é sempre uma ação, independe de palavras e descrições que podem ser manipuláveis e inverídicas. Nesse momento em que vivemos tantas dificuldades, passamos por tantas complicações na vida real, um texto desses é mais que bem vindo, de verdade. Parabéns!!!
    Bjo, bjo.

    Blog da Gih

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    1. Muito grato, Gih. Sempre que escrevo, acredito que há algo de bom e verdadeiro na nossa percepção, para além do prazer e sofrimento que sentimos ao longo de nossas vidas. Não creio num mundo cor de rosa, mas também não posso afirmar um mundo cinzento. Por isso ainda estamos aqui, resistindo e descobrindo o que de melhor temos, em simples e triviais experiências, as mesmas que nos mostram a direção de um caminho para bem além do próprio mundo. Fico feliz que tenha apreciado. =)

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  2. Acho difícil apontar algum texto seu que já li e dizer que não gosto. Talvez ainda não exista esse texto (rs.). Eu adoro esse livrinho e essas ilustrações. E seu texto descreveu direitinho a leveza e a mensagem que essas imagens carregam com elas. Traçou todo o início de algo feliz e duradouro e mostrou que os opostos podem se atrair sim. Porde não ser uma regra, mas que há muitas exceções que confirmam a regra.

    Abraço.
    Diego Blog Vida e Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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    1. Muito obrigado pelo carinho, Diego. Eu tenho muito altos e baixos em relação a leitura, tenho consciência disso, e fico muito feliz que apesar de às vezes escrever em estilo que pode permear confusão, consiga ainda dizer algo que ressoe com seu interior. Espero te ver sempre por aqui!

      Abraço!

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  3. Você não me convenceu a ler, não sou um ávido leitor de quadrinhos e esse excesso de vermelho me incomoda, mas o seu texto já é uma obra por si só, inspirada lógico pelo quadrinho, e não tiro o mérito dele que provavelmente é uma excepcional obra de arte, mas seu texto tambem se apresentou para mim como uma excepcional obra de arte, parabéns para você e para a Philippa Rice.

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    1. Muito grato, Bruno. É sempre revigorante ter respostas positivas! E que continuemos esta jornada para o cume de nós mesmos.

      Abraço!

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