Lya Luft | Editora Record

sexta-feira, 15 de julho de 2016


Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


(Extraído do livro Perdas & Ganhos)


Na falta de (saúde respiratória para peregrinar por) sebos aqui no Rio de Janeiro, tenho há algum tempo procurado nas livrarias por reedições de autores hoje considerados clássicos, como Drummond, Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Marina Colasanti, Vinicius de Moraes... E fico feliz de ver que a Record, a Global, a Alfaguara e a Companhia das Letras permanecem como exemplos de casas publicadoras que resgatam esta memória de nosso país e nos surpreendem com o esmero de suas reedições.

Meu achado-amor mais recente foi uma edição de Exílio (1987), de Lya Luft, publicado pela Record, e que permanece como uma das mais belas (e trágicas) publicações sobre o passado e suas perdas, e da reminiscência de tudo isso. Porque o que permanece é uma voz de saudade, mas também um abraço da melancolia.

Exílio nos faz pensar em nosso diário de fatalidades e escolhas; na voz de sua protagonista, uma personagem que cresceu à sombra do suicídio de sua mãe, e também do cuidado e dívida do que restou de sua família, Lya Luft nos conta da família que se desfaz em um gesto ou em um crime, e do amor que se desfaz em pequenos passos, e também junto aos grandes desvios. Porque o desafeto e o abandono não silenciam, e o que nos resta é aquietar o coração, e apegar-se ao grão de vida que escapa às ruínas e quedas de nossos dias...


"Fiquei fora. Mas posso me aninhar num regaço transitório entre essas raízes cúmplices, no chão eterno. Auscultar o coração emaranhado das coisas, que empurra as torrentes da vida e da morte que nos levam. Talvez eu não consiga chegar em casa. Talvez, chegando, eu não possa ficar. Quem sabe? Mas eu vou seguir em frente."




Tão sutilmente em tantos breves anos


Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.


(Extraído do livro Secreta Mirada)




Biografia:

Lya Luft começou sua carreira literária em 1980, aos 41 anos, com a publicação do romance As parceiras, seguido por A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1984), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes), Secreta mirada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro (2002), Perdas & Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004) e, no mesmo ano, Histórias de Bruxa Boa, sua estréia na literatura infantil, tema que retornaria em 2007 com A volta da Bruxa Boa.

Em 2005, publicou o volume de poesias Para não dizer adeus e, em 2006, a reunião de crônicas Em outras palavras. Em 2008, após quase uma década afastada da ficção, Lya retorna ao gênero com O silêncio dos amantes.

Formada em letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Lingüística Aplicada, Lya trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês, e já verteu para o português obras de autores consagrados, como Virginia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de Lete: Arte e crítica do esquecimento, de Harald Weinrich. Desde 2004, assina a coluna Ponto de vista, da revista Veja.


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