Toda Prosa, de Adriana Sydor | Travessa dos Editores

sexta-feira, 19 de agosto de 2016
"vontade de escrever uma carta de mil linhas
nela, os arrepios da pele,
a boca seca,
o tremor das mãos,
as vontades,
os receios,
e tudo aquilo que me percorre,
(...) risada, calmaria e amor."
(p. 49)


O coração desperto rascunha um poema. Na primeira estrofe, imagina-o descalço, ao pé da página, como se o tempo fosse uma rima para a alegria e sinônimo para tudo o que não esquecemos.

Um pouco de sol aquece o verso, e a febre é parte da cena: tudo sempre tão novo, como primavera ou lábios frescos! Porém a vida transborda pela margem, e fere o desejo, e faz com que a escrita então arranhe e estremeça.


 

"quantas coisas cabem num minuto? nem sabia que alguma coisa inteira acontecia num único minuto. nem em corrida de Fórmula 1 consigo imaginar isso. (...) com tanta coisa no planeta, e o volume só aumenta, preciso eu sair das páginas do diário privado para expor imperfeições em público?" (p. 36)

Quantas coisas cabem em você, em nós, neste nó de coisas que em um único minuto desconhecemos? 

Em Toda Prosa, Adriana Sydor traduz a leveza de seus dias, ainda que a chuva inunde a tarde, e o pé no chão tropece nos versos e ruas de Curitiba. 

Porque é preciso falar do vento que embaraça os fios e da árvore derrama seus ninhos, e entorpece também a náu e o navegante, que em êxtase recitam versos de medo e vontade, assim como os meus, e os seus, neste chiado de página, sob a letra miúda, à esquina de um poema imenso, onde nos encontramos, aqui, lá fora, em eternidade.

Toda Prosa é todo imensidão e muitas vozes, e nos faz pensar o quanto a vida pode ser uma conquista, e também uma dádiva, repleta de sal e luz, agridoce e festim, brilho no olhar e primavera, e uma ou duas tardes onde os olhos se fecham, e inundam, em vermelhidão de lágrimas ou corpos quentes, nesta realidade que é ao mesmo tempo sonho, página de jornal e verdade, e raiz de poesia.


Adriana Sydor, Toda Prosa. Curitiba, PR: Travessa dos Editores, 2015
Conheça Mil Compassos, o Blog da autora :)


"o clima nos provoca, chovendo nossas angústias diárias, trancamos as janelas, despedaçamos as soleiras, transformamos praças em alamedas. (...) trabalhamos muito, trabalhamos o tempo inteiro, trabalhamos pelo mundo, trabalhamos sobretudo para ver se o tempo passa rápido e se uma migalha de raio dourado nos chega para esquentar o rosto e aliviar a alma. mas enquanto isso não acontece, trabalhamos e reluzimos e refletimos em pingos e gotas.
em Curitiba, somos orvalhos constantes." (p. 102)


"o amor não deixa espaço vazio. e quando a solidão tenta se aproximar, ela já não tem boa música e incomoda e atrapalha e perturba e enlouquece. a solidão fica ali, escondidinha, a espiar.
o amor não consegue esperar." (p. 171)


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