sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A História Sem Fim, de Michael Ende | Resenha por Jonatas T. B. | Martins Fontes

"Agora sabia finalmente o que era necessário fazer. Só um filho do homem, um habitante do mundo que ficava para além de Fantasia, podia dar um novo nome à imperatriz Criança. Tinha de encontrá-lo e de levá-lo até junto dela.

Levantou-se de um salto.

"Ah", pensou Bastian, "eu gostaria tanto de ajudá-la — a ela e também a Atreiú. Com certeza eu poderia inventar-lhe um nome maravilhoso. Se ao menos soubesse como chegar junto de Atreiú! Iria imediatamente. Como ele iria ficar espantado se eu lhe aparecesse de repente! Mas infelizmente isso não é possível... Ou será?"


Breve mapa das fronteiras entre histórias e memórias

Quanto maior a precisão com que uma história atinge o núcleo de nosso ser, maior é a dificuldade em se expressar qualquer impressão sobre ela. É como ter uma fenda aberta na pele por uma flecha que atinge a alma. Num piscar de olhos você paralisa com o que lê, fica inerte, vítreo feito poça de água refletindo nuvens. Pisca mais uma vez na tentativa de compreender o que o atingiu. Mas ao ler a próxima linha, outra flecha. E outra, depois outra, cada frase é um novo golpe, sucedendo-se tantas que agora parece não se tratar mais de uma história. É como se nela você percebesse sua própria vida paralisada no tempo. Naquele enxame agudo de palavras, a história indefinidamente nos vira do avesso, acabamos por nos perceber os nossos olhos voltados para as páginas, e aquela mesma nuvem refletida na poça termina por imitar as formas tênues do seu espírito preso entre seus dedos e a folha de papel.

Acho difícil falar de maneira sóbria sobre História Sem Fim, de Michael Ende. Lembro-me da primeira vez que vi a edição da Martins Fontes numa livraria Saraiva do Centro da Cidade. Não era possível comprá-lo. Aquele exemplar custava em torno de oitenta reais, caro para um adolescente que não tinha dinheiro nem para calças novas. Passaram-se anos até que o reencontrasse, - a obra que seria das mais importantes para mim. Quando criança a adaptação cinematográfica homônima me cativou. O desejo pelo livro ora adormecia, ora sonambulava. Não tinha a mínima noção do que estava por vir. Sempre que me metia em sebos fuxicava nas prateleiras. Era mais um dentre tantos Bastian Baltasar Bux, gordos de uns onze ou doze anos, abrindo a porta e tocando o sininho da livraria, de corpo ensopado e com muitos problemas na escola. Mas diferente dele, não furtei História Sem Fim nem fugi para o sótão da escola para lê-lo. Simplesmente esqueci que a buscava.


O exemplar do qual falo foi o mesmo que encontrei anos atrás, o mesmo História Sem Fim original, escrito por Michael Ende em alemão. Pode parecer estranho, mas é exatamente o mesmo traduzido para a língua portuguesa e publicado pela Martins Fontes, o mesmo que durante quatro noites insones eu li, e o mesmo exemplar que Bastian leu durante o tempo que poderia ser a metade de um dia ou, literalmente, o início e o fim de um mundo inteiro. Uma história dentro de outra história. Comunicando-se infinita e ciclicamente.

Ouviu-se de novo o soluçar da voz que, cantando, se afastava cada vez mais:  

"O Nada vem chegando
E o Oráculo vai-se calar.
Não mais este som pairando
Tu poderás escutar.
De todos os que vieram
Ao pétreo bosque de esteios,
E minha voz escutaram,
Hás de ser o derradeiro.
É possível que consigas
O que ninguém conseguiu jamais.
Para isto o que te cantei precisas
Guardar, e não esquecer nunca mais!"

E depois, a uma distância cada vez maior, Atreiú ouviu de novo as palavras:
"Tudo uma vez
apenas acontece
e é dessa vez que deve suceder.
Longe, lá onde o campo floresce,
devo morrer e desaparecer..."

A edição que tenho em mãos não me pertence (por enquanto). Na verdade, o livro me foi emprestado e, tal qual Atrieú, que teve sua caça ao búfalo púrpura interrompida por Cairon, o mensageiro metade homem e metade zebra, fui presenteado igualmente por minha mensageira. Obviamente não era o distintivo feito de duas cobras, uma clara e outra escura, ambas mordendo a cauda da companheira, o Aurin, o brilho, a joia, ou Pentáculo, como também era conhecido. Diferente da insígnia enviada pela Imperatriz criança, minha mensageira tirou do envelope feito de papel manteiga uma delicada medalha, também trazida de um lugar muito muito distante, tão distante que suspeito que seja o próprio centro do mundo - obrigado. Foi como o instante em que Atreiú viu Bastian através da porta de espelho, a flecha mais poderosa me atingiu. Entendo agora a minha importância naquele movimento, e da importância do movimento que história provocou em mim.

Mas as surpresas não cessaram. Quando criança, os cães cocker spainel eram meus favoritos, justo porque pareciam com o Dragão da sorte Falkor do filme. Por sorte tive o prazer de possuir dois da raça –  o de pelo negro chamado Joel, já falecido, e Judas. No livro o Dragão da sorte é Fuchur e não Falkor, e há diferenças como a sua cabeça parecer a de leão e a voz repicar igual a um sino. Mas ambos, fosse dragão do filme ou livro, piscam da mesma forma que Joel piscava para dizer que tudo ia terminar bem.


Estava à espera de ver no espelho qualquer imagem terrível e assustadora de si mesmo, como o advertira Enguivuck, mas agora que tinha deixado o medo para trás, isso lhe parecia irrelevante. 

Porém, em vez de uma imagem aterradora, viu uma coisa para a qual não estava preparado e que também não podia compreender. Um rapaz gordo, de rosto pálido — aproximadamente da mesma idade que ele — sentado de pernas cruzadas sobre uma cama feita de colchões amontoados, lendo um livro. Estava embrulhado em um velho cobertor cinzento, todo rasgado. Os olhos do rapaz eram grandes e tinham uma expressão muito triste. (...) 

Bastian estremeceu ao compreender o que acabava de ler. Era ele! A descrição coincidia em todos os detalhes. O livro começou a tremer em suas mãos. Decididamente, aquilo estava indo longe demais!

Ainda me sinto um pouco zonzo ao tentar contar com precisão a respeito. Poderia continuar relatando por incontáveis eras sobre as memórias que encontrei nos subterrâneos de Fantasia, sobre os poemas que cantam o fim dos sonhos e da esperança recitados pela voz do silêncio (ou Uiulala), mas prefiro que você mesma ouça a voz e descubra seu caminho para lá. Desejo do fundo daquele ponto atingido pela ponta da flecha que você vislumbre por si, e testemunhe sua história sem fronteiras caber em algo tão pequeno quanto uma semente de trigo. E a floresta que dela germina se tornar um deserto de dia, para florescer novamente enquanto ainda pudermos sonhá-la por todas as noites.



P. S.: Quase me esqueci de falar das incríveis ilustrações que introduzem todos os vinte e seis capítulos do livro. São letras capitulares, fontes góticas acompanhada de cenas do próprio capítulo. Se você prestar a atenção entenderá porque o número capítulos é o mesmo que o de letras do alfabeto. Mas deixo esse mistério para que descubra por conta própria.

2 comentários on "A História Sem Fim, de Michael Ende | Resenha por Jonatas T. B. | Martins Fontes"
  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Há tempos desejo este livro, que coisa linda! O filme é uma das boas lembranças que tenho da infância, apesar de ter dado um pouco de medo (é um pouco obscuro).

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