Bob Dylan - Crônicas | Editora Planeta | Resenha por Gih Medeiros

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O mundo da Literatura foi sacudido em 2016 por uma notícia totalmente inesperada (inclusive pelo protagonista da tal notícia): o vencedor do 113° Prêmio Nobel de Literatura foi Robert Allen Zimmermam, mais popularmente conhecido como Bob Dylan.

Li muitos textos defendendo a escolha da Academia Sueca, mas também muita gente “reclamando” que não achava a premiação justa, já que Bob “nem é um escritor de verdade, ele é um músico!!! Enquanto muitos de nós lutamos a vida inteira para receber um mísero reconhecimento, ele sem esforço algum consegue essa façanha! Marmelada!!!!!”. Quando li coisas do gênero, fiquei chocada com a mesquinharia da mentalidade de alguns pseudo-influenciadores digitais! Vamos nos resignar à nossa insignificância galera, que tal???

A premiação se deu porque, de acordo com a Academia, Bob Dylan “criou novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana". Mas não foi a primeira vez que a Academia premiou alguém de fora do círculo literário tradicional. Em 1913, o indiano Rabindranath Tagore, músico e também poeta e prosador, foi premiado pela Academia Sueca, mas acho que não causou tanto burburinho negativo na época quanto agora – risos – já que segundo o site da Academia Nobel, é o Nobel de Literatura mais popular atualmente – o de Dylan está em segundo lugar, podem conferir – muitos risos. 

Estou falando tudo isso porque finalizei recentemente a leitura de um livro muito desejado por mim, a autobiografia do Bob Dylan, Crônicas – volume 1, publicado em 2004 pela Editora Planeta de Livros e relançado no final de 2016. Confesso que conhecia muito pouco sobre a figura do Bob, apesar de conhecer algumas de suas épicas canções – Like a Rolling Stone, Knockin' on Heaven's Door, Bringing It All Back Home – muitas versões feitas por outros artistas, mas ano passado assisti ao filme A Música Nunca Parou e ouvi Mr. Tambourine Man que faz parte da trilha sonora e essa canção me derrubou, sério! Imediatamente me pus a buscar vídeos do Dylan cantando essa música e encontrei diversos vídeos dele novinho cantando, tocando violão e harmônica ao mesmo tempo e usando ternos gastos e simples e fiquei me recriminando por nunca ter parado para ouvir Bob Dylan de verdade.

Essa experiência de conhecer o músico, me levou a querer conhecer o escritor e foi com imensa curiosidade que iniciei a leitura. Dylan inicia seus relatos a partir do momento em que chega à Nova York em 1961, durante um inverno cruel, em busca das lendas vivas da música folk e em busca da própria maneira de fazer música:

“Quando cheguei, o inverno estava de matar. O frio era brutal, e cada artéria da cidade estava entupida de neve, mas eu tinha vindo do norte enregelado, um cantinho da terra onde bosques sombrios congelados e estradas glaciais não me chateavam. Eu podia transcender as limitações. Não estava em busca de dinheiro nem de amor. Tinha um senso de percepção ampliado, estava firme no meu rumo” – pg. 15.

Com a cara a e a coragem, Dylan começou seu caminho tocando em pubs, cafés e alguns bares que mantinham o microfone aberto para artistas de todos os gêneros: cantores, atores, comediantes, instrumentistas, etc, e dessa forma começou a travar conhecimentos com pessoas que o levariam a se tornar o grande astro que se tornou, ainda que isso não tenha acontecido de maneira tranquila.

Uma das coisas que mais me chamou atenção na escrita do Dylan, foi o fato de que ele não descreve as pessoas de maneira estereotipada, falando sobre suas características físicas, ele nos mostra as características da personalidade, a forma como a voz soava, de que maneira essas pessoas o faziam se sentir, e é encantador e apaixonante ao descrever figuras que o influenciavam positivamente e que são conhecidas do público que acompanha a história da música mundial:

“Eu estava sempre à procura de alguma coisa no rádio. Assim como trens e sinos, o rádio fazia parte da trilha sonora de minha vida. Movi o dial para cima e para baixo, e a voz de Roy Orbison irrompeu pelos pequenos alto-falantes. (...) Orbison, contudo, transcendia todos os gêneros – folk, country, rock and roll e praticamente qualquer coisa. O lance dele misturava todos os estilos e algo que ainda não fora sequer inventado. (...) Com ele, era sempre do bom e do melhor. Soava como se estivesse cantando no topo do Olimpo e a coisa era séria” – pg. 41.

“Passar o tempo com Bono era como jantar em um trem – parece que você está em movimento, indo a algum lugar. Bono tem a alma de um antigo poeta e você tem que ter cuidado perto dele. Ele pode rugir até a terra tremer” – pg. 189.

Talvez a grande surpresa, tenha sido descobrir que o Dylan mostrado na mídia não é quem a gente imagina. Por volta de seus 30 anos, Dylan já era pai de família e mundialmente conhecido por suas canções. Durante esse período na América, várias questões políticas assolavam o país, além da guerra do Vietnã e coincidentemente ou não, as canções de Dylan de certa forma retratavam as injustiças sofridas pelas minorias, o que levou as pessoas a elegerem Dylan como a voz daquela geração, como se ele fosse o representante que eles precisavam. Mas, para Dylan, isso não passou de um mal-entendido que lhe causou imensos transtornos:

“Tudo o que eu havia feito era cantar canções totalmente sinceras e que expressavam novas realidades poderosas. Eu tinha muito pouco em comum com a geração da qual supostamente era a voz e a conhecia menos ainda. Havia deixado minha cidade natal apenas dez anos antes, não estava vociferando as opiniões de ninguém. Meu destino assentava-se na estrada com o que quer que a vida trouxesse, não tinha nada a ver com representar qualquer tipo de civilização. Ser verdadeiro consigo mesmo, esse era o meu lance. Eu estava mais para vaqueiro do que para flautista de Hamelin.

As pessoas gostam de pensar que fama e riqueza se traduzem em poder, que isso traz glória, honra e felicidade. Talvez traga, mas às vezes não. Me vi enterrado em Woodstock, vulnerável e com uma família para proteger. Contudo, se você olhasse a imprensa, me veria retratado como qualquer coisa menos isso”
 – pg. 128



Diante da persistência de tal situação, Dylan se viu sem opção a não ser desconstruir a imagem que a mídia tinha dele. Dessa forma, começou a escrever canções que nada tinham a ver com seu repertório anterior, voltando-se para canções mais pessoais, introspectivas, ligadas a uma visão muito particular de mundo. Isso causou estranheza inicialmente, mas Dylan conseguiu manter a qualidade de seu trabalho e continuou fazendo sucesso, mas dessa vez sem se sentir atormentado por um rótulo que ele não almejava.

“A velha imagem lentamente se desvaneceu e, com o tempo, não me vi mais sob o dossel de uma influência maligna. Por fim anacronismos diferentes foram lançados sobre mim – anacronismos de dilemas menores, embora pudessem parecer maiores. Lenda, Ícone, Enigma (“Buda em Trajes Ocidentais” era o meu favorito) – coisas desse tipo, mas estava tudo bem. Esses títulos eram plácidos e inofensivos, surrados, fáceis de carregar por aí. Profeta, Messias, Salvador – esses são os difíceis” – pg. 137.

Durante os 5 capítulos em que o livro foi dividido, Dylan compartilha conosco as agruras do início de carreira em Nova York, seu primeiro contrato com uma gravadora (antes mesmo de completar a maioridade), a amizade com Woodie Guthrie (o cantor que mais o influenciou quando decidiu que abraçaria a música folk tradicional e sobre quem compôs uma canção), suas primeiras composições e turnês, os primeiros amores e desamores, sua família e terra natal, os recomeços na carreira, a reconstrução da própria figura em diversas fases de sua carreira. E tudo com uma linguagem lírica, poética, que nos deixa com um sorriso espontâneo nos lábios, sem que percebamos.

É uma viagem incrível dentro da mente de um homem que se reinventou tantas e tantas vezes dentro de um cenário que pode ser muito cruel com aqueles que não tem a força de espírito e convicção no que fazem necessárias para se manter sempre em movimento.

Na era medieval na Europa, uma manifestação muito comum da literatura se dava através do Trovadorismo, onde poesias eram declamadas acompanhadas de melodias e isso é mundialmente aceito dentro da Comunidade Literária. Sendo assim, deixo essas perguntas no ar: seria Bob Dylan um Trovador de nosso tempo? E nesse caso, não seria ele merecedor de um prêmio literário pelo conjunto de sua obra que se mantém viva e atual desde os anos 60? 

Convido vocês a conhecerem o trabalho dele, suas composições atemporais, conhecidas ou não do grande público para poderem chegar a alguma conclusão.

Um beijo grande!
<3


Bob Dylan - Crônicas
2ª edição


“Eu tinha vindo de muito longe e começado muito de baixo. Mas agora o destino estava prestes a se manifestar. Senti como se ele estivesse olhando direto para mim e para mais ninguém.”

Nestas notáveis memórias sobre os primeiros anos de sua carreira, Bob Dylan nos guia pela Nova York dos anos 1960, a cidade mágica cheia de possibilidades que encontrou ao buscar o sucesso – festas esfumaçadas atravessando na noite; descobertas literárias; amores passageiros e amizades verdadeiras. Crônicas: Volume 1 é uma coleção íntima e pessoal de lembranças de um tempo extraordinário, de descobertas e resistência.

Lançado originalmente em 2004, foi considerado um dos livros do ano por jornais e revistas como The New York Times, The Washington Post, The Economist, Newsday, People e Guardian – e comparado, por Mikal Gilmore, da Rolling Stone, aos melhores escritos pessoais de Henry Miller. Revelador, poético, apaixonado e bem-humorado, o livro Crônicas: Volume 1 é uma janela fascinante dos pensamentos Bob Dylan, escancarando suas influências. Com seu dom inigualável para contar histórias e a personalidade que são as marcas registradas de suas músicas, Dylan faz desta obra uma reflexão sobre as pessoas e os lugares que ajudaram a moldar sua vida e sua arte.


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