Já consigo respirar - Uma crônica de Gih Medeiros

domingo, 8 de janeiro de 2017

Agora está tão longe ver,
A linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui, 
Dentro de mim?

Hoje um amigo me mandou uma playlist que ele montou no Spotify, com músicas pra gente ouvir quando está na bad. Como domingo é o dia oficial da bad, principalmente após o crepúsculo, coloquei para tocar durante o banho (sou dessas que ouve música em todos os cantos da casa, independente do que esteja fazendo – risos). 

Enquanto me preparava para o chuveiro, começou a tocar Vento no Litoral, da Legião Urbana, e meu primeiro instinto foi passar para a próxima música, como sempre acontece quando começa os primeiros acordes dessa canção. Mas, então me dei conta de que não precisava fazer isso.

Durante muitos anos, evitei essa música porque ela me lembra você. Ela me lembra dos planos que fazíamos durante a fase dourada de nosso namoro, quando passeávamos em um parque aos domingos. Ela me lembra que você escolheu me deixar, mesmo achando que eu era a pessoa mais incrível que você conhecia. E por muito tempo, mais até do que imaginei ser possível após um rompimento, ouvir essa música doía. Muito.

Não é porque a gente segue a vida, encontra outros amores, tem o coração partido outras vezes, que a gente deixa de sentir a falta de alguém que a gente amou verdadeiramente. Com o tempo, a gente aprende a lidar com a saudade, com a raiva, com a tristeza e com a monotonia de estar sozinha, até encontrar outra pessoa que nos desperte da inércia. Mas, a nossa memória continua lá, talvez não com todos os detalhes após tanto tempo, mas as principais recordações estão lá. Esperando para aparecer quando ouvimos uma determinada música, sentimos determinado cheiro, visitamos determinados lugares. E depois de um tempo não é tão ruim, até que passa a ser apenas uma boa recordação do que a gente viveu, experimentou.

Hoje aconteceu isso quando ouvi Vento no Litoral, a música proibida no que diz respeito a você. Consegui ouvi-la até o fim e não doeu. Não me trouxe más recordações nem más sensações. Ficou só uma doce melancolia, uma certa saudade de quanto éramos jovens e idealizadores. Às vezes sinto falta de quem eu era naquela época com você. Alguém bem menos cínica, com certeza bem mais doce e generosa consigo mesma, de gostos mais simples e bem menos exigente com a própria inteligência. Gosto de quem eu sou hoje, não estou dizendo o contrário. Mas, às vezes dá saudade de um tempo mais simples, com menos responsabilidades sobre os meus ombros. 

Só achei que você gostaria de saber que a associação de nosso passado em comum com uma música, não mais me causa dor nem nenhum tipo de sofrimento. Já consigo respirar normalmente ao ouvir uma música de que gosto demais e que me foi negada durante tanto tempo por mim mesma. Já consigo olhar para trás e sorrir para você de novo, com gratidão por ter feito parte de mim e por ter despertado o meu melhor lado, esse que poucos tem acesso e valorizam, e que eu sempre revisito quando a rotina fica muito pesada. 
Seja feliz, onde quer que esteja. E obrigada, de verdade.

Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?”

Vento no Litoral, Legião Urbana – V, 1991

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