1001 Discos para ouvir antes de morrer | Editora Sextante

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O que seriam dos feriados sem uma boa trilha sonora, hein? Passei os últimos dias ouvindo discos que nunca imaginei gostar, assim como alguns que eu curtia há uns anos e que passaram a não ter a menor graça. Então, se você é como a gente e adora inventar playlists, certamente curtirá a enciclopédia dos 1001 Discos para ouvir antes de morrer! É claro que muitos álbuns e décadas nem sempre farão parte de seu top 10 ou 100 discos da vida, mas sempre é bom ter uma referência por perto pra quando bater aquela vontade de conhecer um som diferente.

Nesta edição enciclopédica da Sextante, você encontrará títulos dos últimos 50 anos, de diversos estilos, do rock ao pop, passando pelo rap, indie e muito mais. A seleção para a lista dos 1001 discos foi feita em 2006 por 90 jornalistas e críticos musicais e percorre a história da música entre os anos de 1955 a 2005. Impossível não ficar com vontade de conhecer um pouco desta seleção, não é mesmo?

Encontrei um site bacana onde você pode ouvir todos os 1001 discos sem precisar ficar caçando os albuns no Youtube; por enquanto, não é possível ouvir pelo celular, mas basta digitar http://www.radio3net.ro/play# no computador que a diversão é garantida!


Este é um print do site. Do lado direito, após selecionar um disco da lista geral, você acompanha todas as faixas disponíveis do album escolhido. No meu caso, tentei interagir com a memória grunge da minha juventude e, dentre os discos que ouvi, cheguei a conclusão de que o Nirvana, apesar de toda a importância para a minha geração, realmente não influencia mais a minha vida...

Outros discos icônicos que eu não achei graça (não porque são ruins, mas porque definitivamente não combinam comigo. Haters podem hate me nessa hora, eu entendo. Risos): 

The Clash - London Calling (1979)
Joy Division - Unknown Pleasures (1979)
Sonic Youth - Goo (1990)
New Order - Substance (1987)
Depeche Mode - Music for the masses (1987)
Incluo nesta lista também: Primal Scream, Talking Heads, Elvis Costello, Blondie, B'52s


Agora, bandas e discos que eu não prestava muita atenção, mas que finalmente entraram na minha lista pessoal dos 1001 discos:

The Who - My Generation (1965)
The Who - Who's Next (1971)
Eliott Smith - Eliott Smith (1995)
R.E.M - Document (1987)
The Police - Ghost in the machine (1981)
The Kinks - Arthur - Or The Decline And Fall Of British Empire (1969)


E claro, não poderiam faltar alguns discos que eu já curtia e que continuo achando muito bons:

Massive Attack - Blue Lines (1991)
Bon Jovi - Slippery when wet (1986)
Soundgarden - Superunknown (1994)
Oasis - (What's the story) morning glory? (1995)


Realmente, com tanta opção musical assim, precisaremos de muitos feriados pela frente pra dar conta dessa lista...

E você, já consultou alguma lista-manual de referência assim? Conta pra gente seus favoritos nos comentários <3


Michael Lydon

Os grandes discos lançados nas últimas décadas estão aqui: de What’s Going On, de Marvin Gaye, ao extraordinário álbum conceitual de David Bowie The Rise And Fall Of Ziggy Stardust, passando por inúmeros outros.

1001 discos para ouvir antes de morrer explora a fundo a história da música universal e apresenta ícones tão diversos quanto Beach Boys e Nirvana.

Além de álbuns e artistas já consagrados, você irá encontrar referências mais exóticas, como o Einstürzende Neubauten e o Aphex Twin.

Escrito por 90 jornalistas e críticos de renome internacional, este livro faz uma justa homenagem a todos aqueles que influenciaram o meio musical. Além de acompanhar o desenvolvimento da indústria fonográfica – dos discos de 75 rpm aos CDs –, você vai descobrir como os álbuns foram aceitos pela crítica e que impacto causaram no público.

Com saborosas histórias de bastidores, este livro revela também quais eram as influências de muitas bandas de sucesso. Você sabia, por exemplo, que o Velvet Underground foi uma grande fonte de inspiração para David Bowie, Joy Division, R.E.M. e The Strokes?

Que álbum teve seu lançamento atrasado como demonstração de respeito à morte do presidente John F. Kennedy? Em que Paul Simon se baseou para escrever “Mother And Child Reunion”? O que é a estranha participação de Paul McCartney em Rings Around The World, do Super Furry Animals? Leia e descubra.

Das canções dark e obscuras aos grandes sucessos populares, 1001 discos para ouvir antes de morrer abrange a história da música em todos os seus instigantes detalhes.

Uma semana e(m) um dia #18

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
É Carnaval e a gente tá como?!


Risos. No post de hoje, Jonatas, Rafa, Rebeca e Regiane compartilham dicas de leitura, estudos e filmes. Confira :)


Jonatas

Estou sem PC, então, infelizmente falarei menos do que o justo a respeito de O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman. Esta semana descobri que não havia perdido minha edição, e pude rememorar uma das minhas histórias favoritas. Trata-se das lembranças de um homem que, depois de um funeral,  retorna à casa em que passou a infância, na Inglaterra. Há décadas não pensava naquele tempo, e em Lettie, a estranha menina que vivia com a mãe e avó, e  dizia que o lago nos fundos da fazenda na verdade era um oceano de onde viera um povo antigo. 

O oceano no fim do caminho é uma narrativa leve e fabulosa. Creio que a maioria de vocês irão gostar e, quem sabe, também descubram o confortável segredo de um oceano inteiro que cabe em uma gota de água doce. 

Até a próxima! 



Rafa

Gente, carnaval taí e eu vim pra minha terrinha querida Alegrete/RS! Aproveitando para rever amigos, família e claro, passear um pouco! Dentre os passeios, resolvi passar na locadora (sim, ainda alugo filmes!) e ver o que tinha de bom. Entre tantos filmes, escolhi o Zootopia, que eu já conhecia, mas vale a pena ser revisto várias vezes, porque é muito legal, principalmente a história de superação dos personagens (no caso, da coelhinha), é incrível, e nos traz uma lição valiosa mesmo! Sim, sou meio criançona mesmo, adoro desenho, e ainda fico rindo q nem idiota na frente da tv! :D Mas afinal, quem de nós é adulto totalmente? :)

Essa foi a minha dica do Uma semana e(m) um dia!! Até a próxima, e em breve com algumas fotinhos da minha cidade! Bjss




Rebeca

Aquele instante em que você se dá conta de que sua série favorita foi ao ar pela primeira vez há quase vinte anos e que mesmo hoje, duas décadas após, você ainda se lembra de muitas cenas e de muitos dos sentimentos que nos acompanhavam em cada capítulo.

Hoje, graças ao wikipedia e aos serviços de streaming (e claro, ao box de dvd com toda a série que eu ainda não encontrei mas que a sortuda da Regiane felizmente comprou por aí rs), conseguimos revisitar nosso passado de uma forma um tanto catalogada, pulando cenas, selecionando histórias, e revivendo cada dor e alegria conforme nossa disposição aqui no presente.

Se é uma forma ainda mágica de "enxergar" como éramos há duas décadas, eu não sei, mas que este refrão da Paula Cole na season 1 da série soa ainda quase como um teletransporte, ahhhh, com toda certeza!

I don't want to wait for our lives to be over
Will it be yes or will it be sorry?

Paula Cole - I Don't Want To Wait 


Regiane

Muitas vezes durante a vida adulta, olhamos ao redor e observamos a jornada dos que nos rodeiam, e temos a sensação de que a "vida" de todo mundo está caminhando, e a nossa não. Talvez seja um sentimento geral, ao menos quando converso com pessoas da minha faixa etária, essa é uma queixa em comum.

Nossas opções são lamentar eternamente o fato, enchendo o ouvido dos amigos, ou tentar resolver e procurar uma mudança.

Aproveitando o início do ano, aniversário chegando e a impaciência reinando, resolvi tomar providências urgentes e comecei um curso de Revisão e Preparação de Texto oferecido pela Universidade do Livro da UNESP. Fazer parte do mundo editorial de maneira formal sempre foi um desejo que eu não vejo mais porque adiar, e acredito que é exatamente o que eu preciso nesse momento para impulsionar a minha vida a um novo patamar.

E vocês, o que os tem movido ultimamente? Contem pra gente ;) Boa semana, beijo, beijo!!!

Uma mensagem de esperança - Tom Michell | Editora Rocco

domingo, 26 de fevereiro de 2017
Now take a little while to find your way in here
Now take a little while to make your story clear
Now that you’re lifting
Your feet from the ground
Weigh up your anchor
And never look ‘round

Nick Drake, Hazey Jane II


"Por que aquele pinguim significou tanto para mim? (...) Qualquer um que se mude de repente para longe da família, dos amigos e dos amados animais de estimação sente um vazio devastador. É inevitável (...). A natureza abomina o vácuo, e, nesse espaço, Juan Salvado se apressou em entrar. No começo ocupou o vazio, depois o preencheu e o dominou. O espaço não era grande o bastante para ele, então o esticou, o expandiu além da medida." 

O coração não entende a ausência, e a todo momento a justifica; nesta escrita sobre o vazio, o amor transborda em âncoras, portos e despedidas, e em expectativas, que fazem com que as dores de um relacionamento sejam as circunstâncias de sua própria travessia, assim como de seus desvios.

No entanto, Uma mensagem de esperança não é a história de um romance, mas de um afeto que preencheu as lacunas de uma vida. Escrita por Tom Michell, a Mensagem tem início em algum ponto de seus vinte anos, ao deixar a familiaridade de suas relações para seguir rumo a uma jornada consigo mesmo, a muitos quilômetros de sua terra natal, e a uma grande distância da vida como sempre conhecera. Com este sentimento em mãos, Tom se despede da tranquilidade de uma pequena cidade britânica para aventurar-se por desconhecidos caminhos na América do Sul. Afinal, quando não há mais o que encontrar ao seu redor, o coração inconformado recorre à despedida, ao arrumar de malas, quem sabe eu volte ou não voltem vocês, por vezes é melhor conversar com o vazio, e quem sabe nele me encontrarei.

Poderia ser um diário de um aventuras ou um inventário de casualidades; "Uma mensagem de esperança", porém, é uma história que merece nossa atenção por nos fazer acreditar que nos pequenos gestos do ser humano - e por que não do destino - estarão nossas experiências mais intensas, e que farão a diferença em nossa vida.


A sinopse diz bem do livro, mas não a esgota; a escrita de Tom é bem detalhista, e faz com que o leitor o acompanhe em cada viagem e rotina, especialmente em seus muitos dias no litoral de Punta del Este (onde o inusitado resgate de uma ave marinha iria definitivamente transformar sua vida) e na Argentina, onde fixou residência, e atuou como professor, e também cuidador de um pinguim, chamado Juan Salvado, que um dia perdeu-se em sua própria natureza (naquele mesmo litoral em Punta del Este, no dia em que um derramamento de óleo destruiu todo seu habitat) e quis o destino que sua liberdade e instinto fossem acolhidos por Tom nesta nova etapa de sua vida.

Todo mundo precisa de uma história pra contar, e a de Tom Michell parece estar apenas começando, especialmente quando uma parte inesquecível de sua juventude é compartilhada com o mundo nas páginas de um livro.

Se você tem paixão por animais e natureza, e principalmente por histórias onde a voz do destino fala mais alto, Uma mensagem de esperança provavelmente se tornará um livro inesquecível!



"A impressão de que Juan Salvado prestava uma consideração única a tudo que lhe era dito se devia à maneira com que posicionava a cabeça, alternando com um olho e um ouvido de cada vez. Seus visitantes tanto podiam confiar na sua discrição absoluta como podiam contar com seu apoio incondicional. A incapacidade de falar não era obstáculo para Juan Salvado; seus olhos possuíam a eloquência lúcida de um grande orador." 


UMA MENSAGEM DE ESPERANÇA
O que aprendi com um pinguim
Tom Michell

Com 23 anos, Tom Michell decidiu deixar a Inglaterra para realizar o sonho de conhecer a América do Sul. Ao conseguir uma vaga como professor assistente em um renomado colégio na Argentina, ele jamais poderia imaginar que sua temporada no país seria marcada por um relacionamento inusitado: a amizade com Juan Salvador, um pinguim resgatado de um vazamento de óleo em uma praia de Punta del Este, no Uruguai. Uma mensagem de esperança é um livro de memórias encantador, que mostra como um animal de estimação pode trazer alegria e otimismo, mesmo nos tempos mais sombrios.

Em 1975, a Argentina vivia o colapso do governo peronista e enfrentava uma grave crise econômica e política, que acabou abrindo caminho para o golpe militar no ano seguinte. É nesse cenário de incertezas que chega ao país o jovem Tom Michell, vindo da Inglaterra para satisfazer um antigo desejo: conhecer a América do Sul. Com um emprego de professor assistente no Colégio St. George, internato de prestígio em Quilmes, subúrbio de Buenos Aires, ele não desconfiava que voltaria para sua terra natal com uma das experiências mais incríveis na bagagem.

Durante uma temporada de férias em Punta del Este, no Uruguai, Tom resolve caminhar pela praia. Chocado ao ver um imenso vazamento de óleo e diversos pinguins mortos pela poluição, ele fica surpreso ao encontrar uma das aves ainda viva. Cedendo a um impulso, decide transportar o pinguim até o apartamento onde estava hospedado e limpá-lo. Irritado e assustado no início, o animal chega a machucar seu salvador com uma forte bicada. Mas, ao perceber que não queriam lhe fazer mal, transforma-se em uma criatura tranquila, que espera pacientemente até acabar o banho improvisado e se recusa a deixar a companhia do ser humano que a resgatou. Era o início de uma bela amizade, que ficaria na memória e no coração de Tom para o resto da vida.

De mascote do time de rúgbi a coanfitrião de festas, passando por treinador de natação para um tímido e talentoso jovem, Juan Salvador se torna símbolo de companheirismo e força de vontade. Junto com Michell, ambos aprendem a viver em um ambiente completamente diferente do que estavam acostumados, tendo a amizade como ponto de apoio. Uma mensagem de esperança é uma história comovente e encantadora, com potencial para se tornar um clássico como Fernão Capelo Gaivota. 

Peter Pan - Edição da Martin Claret | Texto por Gih Medeiros

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Quando estava na adolescência, mais especificamente no 1° ano do Ensino Médio, fiz amizade com algumas pessoas da minha turma que eram loucas por livros, assim como eu. Uma delas era a Amália, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Nossas similaridades paravam por aí, no amor à literatura. Amália era muito branca e muito alta para a nossa idade, enquanto eu era morena café com leite e baixinha (parei de crescer aos 14 anos, com 1,53 cm – riso amarelo). Por algum motivo, Amália cismou em me chamar de Sininh e até os últimos dias de aula que tivemos juntas ela me perguntou como andava meu amigo Peter Pan e a Terra do Nunca. E assim nasceu minha relação com Peter, que culmina no dia de hoje, quando venho contar a vocês minhas impressões recentes sobre a leitura do clássico do escritor J.M. Barrie, em uma edição linda e ilustrada lançada pela Editora Martin Claret.

Acho que todo adulto já se perguntou algum dia como seria se pudéssemos ser crianças para sempre, ou já se queixou da vida adulta e desejou retornar aos tempos infantes, quando tudo parece ter sido bem mais fácil e bonito do que provavelmente foi na verdade (é comum “dourarmos a pílula” do passado para nos sentirmos melhor no presente, quando as coisas ficam um pouquinho mais complexas).

Mas por que esse personagem, um menino que não admite crescer e despreza os adultos, produz tanto fascínio em pessoas de todas as idades e há tanto tempo?



O enredo é de conhecimento universal: A família britânica Darling possui 3 filhos, Wendy, João e Miguel, que passam a maior parte do tempo aos cuidados de Nana, a cadela fiel dos Darling. Apaixonados por histórias, sempre se encantam com os contos de fadas que a mãe lhes conta à noite, sem perceber que são observados de perto por Peter Pan, um menino diferente de todos os outros, que sabe voar e fala com as fadas. Peter adora histórias, e sempre que tem um tempinho livre, fica escondido do lado de fora do quarto das crianças Darling, ouvindo atentamente e os observando pela janela.

Um dia, Peter perde sua sombra, que entra no quarto das crianças e acaba sendo escondida pela sra. Darling. Quando Peter volta para buscá-la, depara-se com Wendy, que, movida por um precoce instinto maternal, o ajuda com a famigerada sombra. E, a partir desse momento, Peter decide que vai levar Wendy para a Terra do Nunca, “uma ilha, com extraordinárias pinceladas de cor aqui e ali, e recifes de coral e embarcações de aspecto arrojado navegando em alto-mar, e selvagens e covis isolados, e gnomos que em sua maioria são alfaiates, e cavernas pelas quais corre um rio...” (páginas 15 e 16).

Seduzidos pelas possibilidades infinitas, principalmente de voar, Wendy, João e Miguel seguem Peter até à ilha onde habitam os meninos perdidos, fadas, peles-vermelhas, animais selvagens e piratas sob o comando de James Gancho, e ali vivenciam diversas aventuras (algumas especialmente sangrentas!), entre elas, a de se tornarem uma família, com Wendy assumindo plenamente o papel de mãe deles, o que ela aceita com prazer. Lá, eles acabam conhecendo a história da rixa entre Peter e o Capitão James Gancho, um pirata cruel e assombrado pela figura de um Crocodilo, que o persegue com tanta persistência.

Muitos são os personagens secundários que dão suporte a essa história, e alguns até poderiam ter sido mais explorados, mas de fato o trio de protagonistas é o que nos conquista, pois são os mais intrigantes e bem elaborados, e merecem destaque nessa nossa conversa:


- Wendy - nossa protagonista é uma jovem precoce, em muitos sentidos. Ao conhecer Peter, ela imediatamente se compadece ao vê-lo chorando e o ajuda com a “saga da sombra”, e mesmo escandalizada com a maneira como ele reagiu, acaba o perdoando: “Para Peter, que era um tanto infantil, as aparências não importavam, e assim ele estava pulando de alegria. E infelizmente se esquecera de que devia sua felicidade a Wendy” (pg.41). Ao chegar na Terra do Nunca, Wendy reage de uma maneira incomum a tudo o que está conhecendo, como se na verdade aquele fosse seu lugar desde sempre, e o que mais lhe importa, acima de qualquer coisa, é a sua obrigação com os Meninos Perdidos, cuidando de cada um deles de maneira impecável como uma verdadeira mãe. Apesar de embarcar de cabeça nessa aventura, Wendy nunca se esquece de seus pais, e está sempre tentando fazer com que os irmãos não se esqueçam também, contando a eles e aos outros garotos, noite após noite, a história da jornada deles e sempre garantindo que serão recompensados por confiarem no amor de sua mãe: “A confiança que eles tinham no amor de mãe era de fato tão grande que eles acharam normal se permitirem ser insensíveis por mais algum tempo” (pg. 144). Essa confiança de Wendy, tanto no amor de mãe quanto na bondade intrínseca dos outros, é o que a torna tão especial. Até o fim, a personagem mantém essa fé inabalável e nos faz acreditar um pouquinho também.

- James Gancho: o Capitão James Gancho possui uma reputação aterradora, mas ao olhar um pouco mais de perto, podemos ver que ao menos um pouco de sua atitude é um pouco de fachada. Com um passado digno de príncipe, muito de sua educação ainda permanece em seus trejeitos atuais: “Quanto aos modos, ele ainda conservava algo de grande senhor, de forma que ao destroçar alguém o fazia com um ar de distinção, e tinha a reputação de ser ótimo contador de histórias. Era nas ocasiões em que se mostrava especialmente cortês que ele se revelava mais sinistro, e isso talvez constitua a suprema prova de educação. A elegância da sua dicção, até quando ele xingava, assim como a distinção do seu porte, demonstravam que ele não era da mesma classe da sua tripulação. Homem de coragem indômita, dizia-se que ele só temia ver o seu próprio sangue, que era espesso e de uma cor insólita” (pg. 73). Mas, ao mesmo tempo sua genialidade para o mal, não o satisfazia como gostaria: “Devia haver alegria no seu coração, mas o rosto não a refletia: sempre um enigma obscuro e solitário, ele se isolou dos seus seguidores em corpo e em espírito” (pg. 157) e por vezes um lado seu, mais suave, acaba aflorando em momentos inesperados: “o homem não era mau por completo: gostava de flores (segundo me disseram) e de música doce (ele próprio era harpista, e não tocava mal)” (pg. 165). Mas, o que afinal de contas, inquietava o Capitão? Ele parecia não temer nada, com exceção de um certo Crocodilo, que havia provado seu sabor com a ajuda de Peter e agora queria saboreá-lo por inteiro, nem ninguém, mesmo que muitos considerem que ele tinha medo do Peter, quando na verdade, ele se incomodava com a atitude atrevida daquele menino que não demonstrava receio diante dele. Esse James Gancho que vemos aqui, nada tem a ver com a figura caricata demonstrada nos filmes, e curiosamente, acabamos simpatizando com ele, pois no fundo, ele é apenas alguém assombrado por seu passado, cujo tormento o leva a um terrível e triste fim. Com certeza, você já deve ter conhecido alguém assim.

- Peter Pan: se houve um personagem capaz de despertar emoções contraditórias durante essa leitura, com certeza foi Peter. Inicialmente, suas atitudes infantis me irritaram profundamente: “É constrangedor ter de confessar que essa presunção de Peter era uma das suas características mais fascinantes. Dito com franqueza brutal: nunca houve um menino mais convencido” (pg. 41), e diferente de Wendy, eu não o perdoava logo em seguida porque ele não tinha uma mãe ou porque era muito esquecido mesmo, ou porque por motivos egoístas resolvia praticar alguma boa ação. Esse perdão só chegou com o tempo, ao conhecer um lado de Peter, que talvez nem ele mesmo se desse conta, pois para ele tudo era muito natural, inclusive esquecer. Mas, quando ele se vê na situação de cumprir com responsabilidade seu papel de anti-vilão, ele mostra o seu verdadeiro caráter, de alguém que luta com justiça por justiça: “O que atordoou Peter não foi a dor do golpe, mas a deslealdade do adversário. Ela o deixou totalmente desarmado. Ficou olhando horrorizado, sem ser capaz de mais nada. Toda criança se sente atingida desse modo na primeira vez que sofre uma injustiça. Quando ela chega até alguém, acredita piamente que é seu direito ser tratada com justiça. Depois que você lhe faz uma  injustiça ela voltará a amá-lo, mas nunca mais será a mesma criança. Ninguém jamais supera a primeira injustiça; ninguém, com exceção de Peter. Ele a experimentou com frequência, mas sempre esqueceu. Imagino que essa era a verdadeira diferença entre ele e todos os outros. Assim, quando ele experimentou a injustiça naquele momento, sentiu como se fosse a primeira” (pg. 121).


É impossível não ter empatia com alguém que sofre esse drama existencial com tanta intensidade, ainda que seja um personagem fictício. Ao terminar de ler essa história, você quer pegar Peter no colo e embalá-lo, tal qual a Wendy fazia quando ele tinha pesadelos ou chorava, mesmo que seu lado mais matreiro e insolente nos desperte um pouco de raiva, como fez com James.

A história é narrada em terceira pessoa, por um observador externo, em um estilo próximo ao dos bardos antigos, com muita ironia, humor e atenção, levando-nos com ele durante toda essa aventura: “É só isso que nós somos, observadores. Ninguém nos quer verdadeiramente. Então observemos e digamos coisas cáusticas, esperando que algumas delas magoem” (pg. 202), o que só torna a leitura mais fluida e divertida.

Eu não costumo falar das edições dos livros, mas sobre esse me sinto na obrigação de ressaltar o capricho da Editora Martin Claret, que nos trouxe uma edição de capa dura linda e ilustrada com muita qualidade, o que só tornou a leitura ainda mais agradável, além do cuidado em acrescentar algumas informações importantes no apêndice, e um guia de estudos que pode ser bem útil aos professores que se utilizarem dessa obra em suas aulas, e uma bibliografia a ser consultada caso tenhamos mais curiosidade ainda sobre essa obra atemporal.

Sim, atemporal. No início desse texto, eu questionei o motivo de após tanto tempo (a obra original data de 1911), esse romance ainda nos instigar e fascinar. Creio que cada leitor vai encontrar a sua própria resposta de acordo com suas próprias experiências de vida.

No meu caso, o que eu percebo é que J. M. Barrie, ao tentar escrever uma história de navegação (que estava na moda na época) a partir das aventuras de personagens jovens (o que também estava na moda), nos trouxe algo muito mais profundo a ser discutido, especialmente nos dias atuais. Peter vê em Wendy a chance de ter alguém que faça parte de seu teatro infantil, alguém que vem somar à aventura que ele vive diariamente, e encontra muito mais, algo que ele jamais esperou encontrar novamente: a sensação de pertencimento. Wendy deu a Peter um lar de verdade, e é por isso que ele fica de coração partido quando ela decide voltar para casa; é por isso que ele arrisca tudo, inclusive a própria vida para libertá-la das mãos dos piratas; é por isso que ele cumpre a promessa de leva-la para casa; é por isso que mesmo se esquecendo de sua promessa de passarem uma semana juntos todos os ano, para a faxina de primavera, ele acaba se perdendo no calendário e voltando anos depois. Porque sua mente de criança aventureira pode ter se esquecido do que foi combinado, mas seu coração sempre se lembra da sensação de ter e fazer parte de uma família, e da confiança que tem que ter no amor de uma mãe, ainda que ela seja apenas de faz de conta.


Under Western Eyes (Sob os olhos do Ocidente) - Joseph Conrad | Texto por Bruno Fraga

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"Being nobody's child he feels rather more keenly than another would that he is a Russian - or he is nothing" (Nota do Autor) 

Um livro que poderia facilmente ser apresentado como baseado em fatos reais, não só pela pontualidade em retratar a política russa do início do Século XX, mas também pela fidelidade em descrever as batalhas psicológicas e emocionais que podemos viver. Assim é a escrita de Joseph Conrad, em Under Western Eyes, publicado no Brasil em 1984 pela Editora Brasiliense.

Entre a opressão do governo czarista e a estupidez dos revolucionários, está o povo russo. Neste cenário conturbado, está Razumov, um jovem órfão, estudante da universidade de São Petersburgo, que sobrevive graças a uma modesta ajuda financeira de um misterioso aristocrata. 

Tanto nos dias de hoje como no início do século, sempre foi notória a capacidade de fomentação de ideias subversivas nas universidades. Razumov internamente as despreza, no entanto. Devido a sua inteligência, era visto com imenso potencial por alunos ligados a causa revolucionária. Certo dia, ao chegar em casa, o jovem depara-se com um dos mais radicais progressistas da universidade sentado em sua cama: Victor Haldin, que acabara de cometer um fatal atentado terrorista, envolvendo assim Razumov, para sempre, em todo o movimento revolucionário russo. 

Logo descobrimos que esta história está sendo narrada em Genebra, na Suíça, por um professor de inglês, (que também um espectador privilegiado de reuniões com exilados russos, e com acesso a antigos documentos e diários, inclusive do jovem órfão), claramente com dificuldades de entender o povo e a política daquele país devido a perspectiva de seus "olhos ocidentais". 

Victor Haldin, vivo ou morto, torna-se um fantasma íntimo para Razumov. As questões que aparecem em sua mente e o indesejado envolvimento com as insurgentes forças rebeldes foram suficientes para destruir não só suas aspirações, descartar seu árduo trabalho, mas também para trucidar seu sono, sua paz. 

Por trás do emaranhado de elos apresentados na trama, Mikulin, chefe do Departamento do Secretariado-Geral, condiz com sua fama de saber utilizar pessoas para alcançar seus objetivos, e tem em Razumov uma inesperada chance para seu êxito pessoal e profissional. Uma interpretação a somar-se sobre a história do jovem estudante após a leitura é de que se algo dentro de você te aprisiona, nem toda liberdade do mundo, e nem a mais democrática das nações poderá te libertar. 

Joseph Conrad, com a mesma qualidade que descreve a natureza opressiva do desconhecido na África em Heart of Darkness (publicado no Brasil pela Hedra e Companhia das Letras), e minúcia ao escrever acerca do conturbado jogo de poder latino-americano em Nostromo (publicado em 1991, também pela Companhia das Letras), vai além em Under Western Eyes, pois não só é magistral ao retratar a tensão política vivida na Rússia naquele tempo, como também consegue transpor para o papel os intensos devaneios de seu personagem principal, diretamente nos remetendo a Dostoievski e outros gênios russos, independente do suposto desprezo que Conrad sentia por esses escritores.

"As palavras, como todos sabem, são as grandes inimigas da realidade (…); chega uma época em que o mundo é apenas um lugar de muitas palavras, e o homem parece um simples animal falante, não muito mais digno de admiração que um papagaio."

("Words, as is well known, are the great foes of reality (…); there comes a time when the world is but a place of many words and man appears a mere talking animal not much more wonderful than a parrot.")


A Biblioteca Invisível - Genevieve Cogman | Editora Morro Branco

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Irene fechou o livro com relutância; (...) afinal, não havia nada de errado em ter curiosidade sobre como a história se desenrolaria. Ela era uma Bibliotecária. Era parte do serviço. (...) Só queria, como sempre quisera, um bom livro pra ler. Ser caçada por cães infernais e explodir coisas eram partes comparativamente sem importância do seu trabalho. Obter os livros, ah, isso sim era o que realmente a interessava.

O objetivo da Biblioteca era esse: (...) não se tratava de uma missão maior de salvar mundos, mas de encontrar obras únicas de ficção e guardá-las em um lugar fora do tempo e do espaço. Algumas pessoas talvez achassem que era um jeito bobo de passar a eternidade, mas Irene estava feliz com sua escolha. Qualquer um que realmente amasse boas histórias compreenderia." (p. 23)
 
No interior da Biblioteca, homens e não-humanos habitam em histórias e encantamentos. Neste mundo de inventários, prateleiras e arquivos, a Sabedoria é como uma espécie de selo, impressa na memória e na pele de seus Bibliotecários, cuja função é a de honrar seus segredos e códigos e Linguagem, inclusive com suas próprias vidas.

Irene é a protagonista desta aventura. Em um dia nada qualquer (afinal, Bibliotecários estão cercados por todo o conhecimento de todos os mundos - alguns, inclusive, os têm em suas próprias mãos), a saga de Irene tem início com a seguinte missão: embarcar em um Alternativo (como são chamadas as realidades afins) com o objetivo de adquirir um importantíssimo exemplar para a Biblioteca. Afinal, atravessar mundos e deles obter suas melhores histórias (e claro, e preservá-las) é a missão de todo Bibliotecário, e o destino de Irene não poderia ser diferente.

A luta pelo Conhecimento é uma analogia presente em todas as realidades, inclusive na de nossa protagonista, cujas expedições demandam uma compreensão maior do Tempo e do Sacrifício, especialmente quando sujar as mãos de caos e sangue (e literalmente resistir aos ataques de quem pretende usurpar este Bem) é pré-requisito para conquistar seus objetivos.



A aventura de Irene se passa então em um tempo-espaço de cores nubladas e engrenagens futurísticas (uma atmosfera steampunk, por assim dizer), onde importa conhecer seus aliados e entender o disfarce de seus inimigos. Não é fácil não deixar-se seduzir por atos de coragem ou olhos que esbanjam confiança; Irene, no entanto, mantém-se forte diante das armadilhas que surgem em seu caminho - afinal, a conquista de um livro será sempre o seu destino, ainda que um sotaque ao mesmo tempo familiar e sedutor insista em influenciar os seus dias, e quem sabe modificá-los.

A Biblioteca Invisível não se perde em romances, e tampouco em plágios de Hogwarts (ainda que o amor e a magia sejam quase sinônimos nesta aventura); o ritmo dos acontecimentos é dinâmico, os diálogos são mimuciosos (afinal, há toda uma rotina de mistério em toda a trama, o que faz com que cada detalhe e percepção seja crucial para os desafios de cada personagem) e, para o leitor, fica a reflexão a respeito de nossa própria Missão, e também sobre as escolhas que realmente importam em nossas vidas.

Se você é apaixonado por Harry Potter e histórias onde a magia e o encantamento constituem a essência de seus personagens, certamente você se identificará com a escrita de Genevieve Cogman em A Biblioteca Invisível. Parabéns Editora Morro Branco pelo lançamento! Mais um livro incrível que adoramos ter conhecido :)

A Biblioteca Invisível

Sinopse: Irene é uma espiã profissional da misteriosa Biblioteca, uma organização que existe fora do tempo e espaço e que coleciona livros e manuscritos de diferentes realidades. Junto com seu enigmático assistente Kai, ela é enviada para uma Londres alternativa com a missão de recuperar um perigoso livro. Mas quando chegam, ele já foi roubado.

As principais facções do submundo londrino estão prontas para lutar até a morte para achá-lo, e a missão de Irene é dificultada pelo fato de que o mundo está infestado pelo Caos - as leis da natureza foram distorcidas para permitir a existência de criaturas sobrenaturais e mágicas imprevisíveis.

Enquanto seu novo assistente guarda seus próprios segredos, Irene logo se vê envolvida em uma aventura repleta de ladrões, assassinos e sociedades secretas, onde a própria realidade está em perigo e falhar não é uma opção.

Sobre a Autora: Genevieve Cogman começou logo cedo a se aventurar pelos universos de Tolkien e Sherlock Holmes e nunca mais parou. Antes de A Biblioteca Invisível, seu romance de estreia, fez mestrado em Estatística Aplicada à Medicina e usou isso em uma variedade de empregos: codificadora clínica, analista de dados e especialista em classificação. Além disso, trabalhou como escritora freelance de RPG. Genevieve Cogman atualmente mora no norte da Inglaterra.
 

Lançamentos de Fevereiro + Promo na Amazon - Global Editora

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Fevereiro, mês do carnaval e do crescimento da wishlist, principalmente quando tem promoção na Amazon, não é mesmo? :) No post de hoje, divulgamos alguns dos lançamentos da Global Editora, e também os links dos títulos que estão com até 70% de desconto no site. Confira <3


W
Roger Mello

As referências à cartografia desafiam a ideia do tentar situar-se ou expandir-se. Mapas são um território híbrido da palavra e da imagem. Um mapa não é um objeto científico, é projeção artística, quanto mais científica a intenção do mapa, maior o engano provocado por ele. Em seu primeiro romance, W, Roger Mello, artista renomado e premiado, nos faz embarcar numa jornada embebida por cheiros, cores e inquietudes, num ritmo em que as ações e intenções das personagens são apresentadas num fluxo de consciência.

W se torna um copista, o melhor da casa em que foi adotado. E copiar, nesse caso, parece um ofício maior do que o de descrever, desenhar. Inventar segredos só seus e depois se esquecer. A cartografia interage com livros, com a ciência, com a loucura. Este livro de Roger Mello traz movimento cíclico formado por espera, contato e alumbramento, tão característico dos romances que se tornam perenes na literatura.

Quem estiver em Brasília ou no Rio de Janeiro, pode conferir os eventos de lançamento, que ocorrem nos dias 4 e 7 de março de 2017, respectivamente. Saiba mais nos eventos: Brasília e Rio de Janeiro.


Poemas de Viagem
Cecília Meireles

O tema da jornada sempre acompanhou o itinerário poético de Cecília Meireles. Como se sabe, um de seus livros mais célebres, Viagem, de 1939, é profundamente marcado pelo universo de sensações que o deslocamento no espaço e no tempo proporcionam. Além de Viagem, Cecília compôs outro conjunto de versos nos quais a tópica da jornada vincou fortemente sua criação poética: Poemas de viagens. Menos conhecidos mas igualmente luminosos, eles integraram o volume 9 das Poesias completas da autora, publicadas nos anos 1970. Escritos entre os anos de 1940 e 1964, estes poemas saem agora pela Global pela primeira vez em volume separado, o que se configura numa oportunidade ímpar para os leitores embarcarem de braços dados com Cecília neste caleidoscópio de situações novas transmutadas pela sensibilidade da autora em versos de arrojado lirismo. A passagem por países como México, Estados Unidos, Holanda, Suíça, Portugal, Marrocos, China e outros foram o substrato para que nossa maior poeta desse origem a um relicário de versos de rara beleza.


Melhores Contos António de Alcântara Machado

O nome de Alcântara Machado remete quase que de maneira direta ao seu livro de contos Brás, Bexiga e Barra Funda, publicado pela primeira vez em 1927. Esta seleção, em pocket, cuidadosamente feita por Marcos Antonio de Moraes, professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e profundo estudioso do movimento literário modernista, enriquece tal visão ao reunir, além dos já consagrados, contos do autor que até a publicação dessa antologia eram bem pouco conhecidos. A linguagem dos contos de Alcântara Machado traz um frescor e uma inovação que se revelariam típicos do movimento modernista iniciado em 1922. Fruto de sua atividade jornalística em diários paulistanos, o autor lança mão de forma ousada de cartazes de rua, notícias, anúncios de jornal, letras de música e até de dizeres ouvidos das torcidas de futebol para recompor com sua renovada prosa a vida do dia a dia da São Paulo que se abriria para a entrada de uma enorme massa de imigrantes estrangeiros. Procurando dirigir seu olhar sobre o “ítalo-paulista”, o autor explora toda a complexidade da alma daqueles homens e mulheres que, ao adotarem uma pátria nova, acabariam modificando a nova paisagem urbana, com seus costumes e sua língua.


Para esta obra, cabe a definição que se tornou lugar-comum: este é, rigorosamente, “um livro para todas as idades”. Com o talento imaginativo, o humor e a linguagem elegante de sempre, Orígenes Lessa deixa claro, com esta narrativa, que a boa literatura não tem gênero. O 13º Trabalho de Hércules é um livro que resgata o mundo imaginário dos mitos gregos e de seus heróis, caracterizados pela força, coragem e sabedoria. Todos os dias, diante da TV-Olimpo, a mais popular emissora de TV do Brasil, vêm fazer fila milhares de artistas anônimos em busca de sucesso. Um belo dia, para espanto de todos, aparece ali um gigante – homem alto e fortíssimo – vestindo uma pele de leão. Quem será ele? O que deseja a exótica figura? Será mais um candidato a participar dos programas de luta livre, fantasiado a caráter? De volta de seu passado de glória, o Hércules legítimo, o herói mítico dos 12 trabalhos que o tornaram formoso, reaparece inexplicavelmente no Rio de Janeiro dos nossos dias disposto a realizar seu 13º trabalho.


E pra quem quiser conhecer outros títulos da Global Editora, vale conferir a promoção exclusiva da Amazon, de 20 a 28 de fevereiro. Diversos eBooks da Global com 70% de desconto. Confira a lista e comece sua leitura:


Uma semana e(m) um dia # 17

domingo, 19 de fevereiro de 2017


Bruno 

Acho que nunca falamos deste assunto por aqui, mas minha "dica da semana" é o Goodreads, um site fundado há mais de uma década e que funciona como uma rede social que conecta leitores a outros leitores e a um extenso banco de dados de livros. Confesso que não interajo muito com os leitores, pois utilizo mais o site para catalogar novos livros e organizar os que li e desejo ler.

O site é organizado em "prateleiras" que facilitam muito a vida do leitor, e também listas baseadas em seus gêneros favoritos, onde muito provavelmente você vai encontrar o livro que está lendo, e também os da wishlist. O site também conta com quizzes e desafios. O livro Harry Potter and the Cursed Child já foi eleito pelos leitores do site como uma das melhores publicações ano.



Jonatas 

Depois de toda nostalgia proporcionada pela leitura de O Hobbit, resolvi continuar minha viagem no tempo e assisti, nesta semana, a uma animação japonesa que gostei muito quando era adolescente. Trata-se de Eu posso ouvir o Oceano (Umi ga Kikoeru, 1993), também conhecida como Ocean Waves, originalmente produzida pelos estúdios Ghibli para a TV, dirigida por Tomomi Mochizuki, e baseada no romance homônimo de Saeko Himuro.

A história se passa na cidade de Kochi, na ilha japonesa de Shikoku, e retrata o triângulo amoroso entre dois melhores amigos (o protagonista Taku Morisaki, esperto, prático e trabalhador, e Yukata Matsuno, um rapaz de personalidade forte) e uma aluna transferida para a escola (Rikako Muto, estudiosa exemplar e um tanto temperamental). Apesar das brigas, insultos e desenganos já esperados em dramas amorosos, o desenvolvimento é leve, sem grandes cargas melodramáticas comuns do gênero. O cotidiano familiar e escolar é retratado de maneira lúcida, e, o que considero o melhor da obra, a psicologia dos personagens é muito bem desenvolvida, representando com doçura e suavidade a oscilação de certezas e incertezas da adolescência.

É bom assistir com bastante atenção na passagem de tempo, pois a narrativa é fragmentada em lembranças e flashbacks, o que pode confundir os mais acostumados com narrativas lineares.

Creio que esta animação seja ideal para aqueles que procuram uma obra que privilegie o valor das coisas mais simples e das emoções mais tênues. Espero que gostem desta dica e até a próxima semana!




Rebeca

People living their lives for you on TV
They say they're better than you and you agree


(Jewel - Who will save your soul)

Sempre tive o hábito de procurar vídeos recentes de músicos e bandas que no passado eu curtia muito, especialmente daqueles ícones que hoje "não existem mais", ou que sobrevivem em uma cena artística digamos "fora de cena". Para o assunto não ficar extenso, quero fazer um comentário a respeito do trabalho de algumas artistas mulheres que (não nos cabe dizer se por vontade pessoal ou pressão da indústria ou ambos) simplesmente desapareceram da cena musical, e, infelizmente, também de nossas playlists, por mais que ainda estejam em atividade, gravando, realizando projetos de menor alcance, enfim, mas não menos nobres por isso.

Como toda nostalgia surge a partir do que vivemos, e claro, também de nossas preferências, impossível não mencionar a cena musical da segunda metade dos anos noventa, onde a presença de artistas como Sarah McLachlan, Paula Cole, Jewel, Sheryl Crow, Alanis Morissette e Fiona Apple conquistaram multidões, e fizeram com que toda uma geração refletisse sobre as pequenas coisas cotidianas através de suas melodias e letras.

Hoje, tendo já se passado mais de duas décadas desde o You oughta know da Alanis, fica a pergunta: alguém ainda se lembra dessas cantoras?

É claro que o gosto não é algo estático, e nem sempre a playlist da juventude permanecerá em nossas lembranças; é normal que muitas canções percam o sentido com o tempo, assim como é bem possível que uma banda de uma década que não vivemos torne-se, repentinamente, a trilha sonora de nossa vida.

Deixo esta pequena inquietação em relação ao nosso passado musical recente, já que numa época onde discursos de celebridades no Grammy e gravidez de estrelas do pop levam as redes sociais a um infinito textão sobre representatividade e empoderamento, penso que seria uma grande oportunidade para também sermos mais generosos com o trabalho das mulheres de gerações anteriores, mencionando-as como parte da história, e não as descartando, caso não tenham feito carreira na linha cronológica do pop, que é onde a maioria das pessoas encontra suas referências atualmente (aliás, cabe um parêntese: sei que há na música brasileira e principalmente no pop uma representatividade de artistas mulheres quase infinita, porém, é como falei anteriormente: não seria uma nostalgia legítima se eu contasse essa história a partir do que eu pouco ouvi, então, prefiro não focar nestes estilos).

Pois bem, sem entrarmos especificamente em assuntos e tretas que até hoje distanciam a humanidade, deixo uma pergunta no ar: O que estamos realmente valorizando na música de hoje? Como você vê o trabalho das artistas-cantoras de nossos dias? A sonoridade e as letras ainda importam, ou a atitude (assim como a atitude política) será irremediavelmente nossa primeira escolha?




Regiane

Dizem que as melhores coisas da vida, acontecem de repente, sem planejamento e acho que podemos dizer que é verdade. Ontem fui ao show do Pedro Mariano, cantor que acompanho e admiro, mas que ainda não havia tido o prazer de prestigiar ao vivo - convite de última hora, mas super bem vindo <3

Filho da cantora Elis Regina e do músico Cesar Camargo Mariano, Pedro pôde acompanhar de perto os passos dos mais importantes artistas da cena musical brasileira e desde cedo se envolveu nesse meio que viria a ser (também) seu trabalho de uma vida, vivenciado através da paixão pela música.

Sucesso absoluto desde que se lançou como cantor solo, aos 20 anos, Pedro está sempre se reinventando, assim como ao formato do seu show e ontem não foi diferente.

Ele retoma a parceria feita com dois amigos, Conrado Goys e Luis Gustavo Garcia, há alguns anos atrás e traz ao palco o que há de melhor em si e em sua carreira. O show foi no Teatro Municipal de Barueri, um ambiente confortável, deu para assistir ao show sentada, e foi muito bom ver o Pedro se divertindo no instrumento que ele mais curte, a bateria. O repertório foi composto de alguns clássicos seus - Nau, Voz no Ouvido, Perdoa, Sei de Mim, Simplesmente e outras - e também nos foi apresentada a canção "DNA" que fará parte de uma produção futura.

A aura do show foi bem intimista, aconchegante, parecia que eu estava na sala de casa, curtindo um show particular (não fossem os gritos da mulherada, que me traziam à realidade!!! - risos), e o Pedro parecia à vontade com a platéia que o acompanha há anos e com certeza é uma experiência que eu vou querer repetir - ou seja, farei parte desse rol de fãs que o seguem, mas não contem comigo para gritar "lindooooo" ou "musoooooooo", bem, talvez uma vez ou duas 😉.

Uma linda semana a todos nós, beijinhos!!!

Recomende um Livro #1 - Livros Inesquecíveis

sábado, 18 de fevereiro de 2017
Por tanto gostarmos de muitas vozes em nossas conversas, pensamos em criar mais uma editoria assim coletiva, inspirada é claro em nossa série de posts Uma semana e(m) um dia. E como uma das coisas que mais gostamos é aumentar a wishlist e falar de livros com os amigos, apresentamos o Recomende um Livro, uma nova editoria do blog, onde diversos blogueiros convidados compartilharão suas dicas de leitura. Para esta primeira edição, o tema será Livros Inesquecíveis. Confira!



Meu livro Inesquecível:  Extraordinário
Autor: R. J. Palacio
Editora: Intrínseca
Ano: 2013

Falar em um livro inesquecível e não lembrar de Extraordinário de R. J. Palacio seria como esquecer parte de mim. A história do menino Auggie e seu rosto incomum me fez ver como damos importância ao externo, ao supérfluo, e abandonamos o essencial (o invisível para os olhos). August Pullman me ensinou a ser grata, a ser forte e principalmente, a ser gentil! Por isso sempre lembro e guardo com carinho tudo o que aprendi com esse livro maravilhoso que para além do bullying, trata da empatia e do amor pelo próximo.


Rachel Motta

Meu livro Inesquecível:  Faça amor, não faça jogo
Autor: Ique Carvalho
Editora: Gutenberg
Ano: 2014

Durante muitas e muitas noites eu chorei sozinha. No monitor do meu notebook, algumas breves linhas de Ique Carvalho, do blog The Love Code. Um blog lindo que fala de amor. Amor de homem e mulher. Amor de pai e filho. Ique, além de nos brindar com textos deliciosos, nos expande a emoção com sugestões de clipes musicais para acompanhar a leitura. Do blog, migrei para o livro e posso assegurar que Faça amor, não faça Jogo é um daqueles que não pretendo nunca me desfazer (apesar de eu estar numa vibe desapega de livros, trocando ou doando). O texto de Ique Carvalho é um alento para todos aqueles que acreditam na supremacia do amor. É também uma esperança por mais homens sensíveis no mundo. Por mais e mais pessoas que possam abrir o coração sem medo, sem jogo e sem amarras. (Pisquei três vezes).



Meu livro Inesquecível:  Eva
Autor: William P. Young
Editora: Arqueiro
Ano: 2015
Eva foi um livro que me levou de volta à histórias que ouvi desde à infância, sobre a criação do mundo por Deus, a criação de Adão e Eva e o primeiro pecado com a consequente expulsão do Paraíso...mas esse livro me levou até lá de uma maneira que jamais poderia prever!

O suspense, o drama das personagens, a realidade dos relacionamentos misturada à fantasia dos cenários e acontecimentos, fez desse sucesso de William P. Young um livro tão ou mais inesquecível que A Cabana, pois traz no seu desfecho uma reflexão daquelas que se leva para a vida, pra sempre. 




Como sou nova por aqui, aproveito pra agradecer o convite pra colaborar com o post e me apresentar: sou a Rafaela, tradutora freelancer e encadernadora nas horas vagas, além de dona desnaturada do Undone throughts. Sempre amei os livros, o cinema e a música e resolvi retomar meu blog numa tentativa de dividir um pouco das minhas paixões com leitores desavisados que topam comigo. Aí a Rebeca me pediu pra falar de livros inesquecíveis e o tema me pareceu ótimo e impossível: ótimo porque tenho muitas memórias maravilhosas associadas com a leitura e com o que senti enquanto lia e impossível porque tenho uma listona de nomes que eu poderia citar. Sou dessas que se anima toda pra indicar livros, sabe? Mas decidi manter a lista curta pra fingir que sou controlada:

Preciso começar com Cem anos de solidão (1982), do García Márquez, porque foi o primeiro livro que li dele e o que foi um divisor de águas pra mim. Li quando era adolescente e lembro e ter pensado “ah, então é isso que a literatura pode fazer?!” e um mundo novo se abriu! Já devo ter lido umas três vezes e não me canso porque fico encantada com o realismo mágico e a capacidade do Gabo de criar uma história tão linda e trágica pra família Buendía. Tem cenas lindíssimas que enchem a imaginação de cenas incríveis – e nunca mais olhei pras borboletas amarelas do mesmo jeito! Menção de honra pra Frankenstein (1818), da Mary Shelley – sempre um clássico tanto pelo tema que segue relevante quanto pela estrutura narrativa que me fascina – e pra O morro dos ventos uivantes (1847), da Emily Brontë – que segue sendo um dos meus romances favoritos, cheio de elementos da literatura gótica e tratando como poucos do amor, do ódio e da vingança. E por falar nos queridinhos do meu coração, não posso esquecer das Crônicas Vampirescas (em especial os três primeiros volumes), da Anne Rice, que me apresentaram ao Lestat e companhia e continuam sendo as melhores histórias de vampiros que já li. Das leituras mais recentes, faço questão de falar de A little life (Uma vida pequena, 2015), da Hanya Yanagihara, que acabou comigo. Que livro maravilhoso! Me deixou no chão, sim, mas acredito que tenha sido uma das coisas mais relevantes que li nos últimos anos: o livro conta a história de quatro rapazes que se conhecem na faculdade e da amizade deles que se estende pela vida adulta. São todos muito diferentes (social, econômica, e emocionalmente falando), mas eles compartilham o amor pela arte e por eles mesmos que serve de base pra essa relação duradoura. Um dos amigos, o Jude, é todo misterioso e, aos poucos, vamos descobrindo os segredos do passado dele que é, confesso, doloroso e até inimaginável. Um livro sobre a amizade, a aceitação, a depressão, o luto e, acima de tudo, sobre o amor, nas mais diversas formas.



Um livro inesquecível pra mim, e que passou diversas vezes pelo meu caminho, é As crônicas marcianas, do norte-americano Ray Bradbury. Ele foi publicado originalmente em 1950 e é formado por uma série de contos que narram a colonização humana em Marte.

Apesar de se enquadrar em várias convenções da ficção científica, As crônicas marcianas é diferente de outros livros do gênero (como A guerra dos mundos, por exemplo) justamente por mostrar a raça humana como o povo invasor, e a raça marciana como o povo invadido. Com isso, Bradbury aborda de forma crítica a relação das pessoas (especialmente os norte-americanos) com culturas diferentes das suas. No livro, os marcianos são inteligentes e desenvolveram formas muito particulares de filosofia, arquitetura e música. Mas isso não faz muita diferença para os humanos, preocupados demais em transformar o Planeta Vermelho numa filial da Terra.

Além de tratar do choque cultural, As crônicas marcianas ainda aborda outros temas que continuam atuais, como ecologia, racismo e censura, embora também estejam presentes assuntos datados, como a Guerra Fria, por exemplo. Também é curioso notar que, na imaginação do autor, o primeiro foguete em direção a Marte é lançado em janeiro de 1999! 

Algum tempo depois da minha primeira leitura, As crônicas marcianas foi utilizado por mim na minha monografia de pós-graduação em Língua Inglesa e Literatura (ao demonstrar como a ficção científica pode ser uma ferramenta de compreensão do “outro”). Quase que simultaneamente, o livro foi o primeiro a ser resenhado no blog Valeu, Gutenberg!. Nada mais justo, né?

Infinita Highway - Alexandre Lucchese | Editora Belas Letras

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017


"Humberto nunca havia subido em um palco. Desde a adolescência, fazer música era um sinônimo de acolhimento. Dedo contra corda. Som se projetando. Quando a porta do quarto se fechava, cada acorde no violão sugeria outro, que sugeria outro, e assim iam se sucedendo. Um mundo de sons se formava e passava também a acomodar palavras, poesia anotada em folhas de papel." (p. 13)

Um livro sincero, como todo livro deveria ser. Especialmente quando a sinceridade diz respeito a uma vida (no caso, mais de três) que você viu de perto, ou meio assim de relance, em um registro de memória que em algum momento (ou sempre) revisitamos. Sob o olhar de quem não se desfaz de tamanha juventude, percebemos que a nostalgia é um sentimento também coletivo, e que o resgate de uma época quase sempre surge em tempos como agora, onde pouco é o pertencimento, ainda que muitas as estradas e geografias.

Com este sentimento em mãos, nasce uma Biografia, e já que vamos falar de Engenheiros, há que se dizer que Infinita Highway mantém-se fiel à memória e legado de seus personagens, e só por isso já merece um lugar de destaque neste nicho literário dedicado a cultura musical de nosso país. Afinal, o texto de Alexandre Lucchese é mesmo generoso neste sentido, pois apresenta a história da banda com rigor jornalístico, valendo-se de fatos e depoimentos de época, além de bate-papos e entrevistas recentes que contribuem para a forte autenticidade de seu texto.

Enquanto leitora, percebo um lugar comum entre os autores de biografias de personalidades nacionais, especialmente quando retratadas entre as conturbadas décadas de 1960 e 80 (e felizmente o texto do Lucchese passa bem longe disso); no caso, quando o autor se coloca como protagonista da história e, ao invés de resgatar a vida e obra de seus personagens, dedica inúmeros capítulos a narrativas pessoais e a discursos políticos. Ok, é bem possível que a proposta da obra seja uma reflexão maior que a particularidade de um ídolo, porém, não deveríamos chamá-la Biografia então. Recentemente, inclusive, em uma obra similar a dos Engenheiros (similiar, no caso, porque também sobre rock brasileiro), o autor não só dedicou um capítulo inteiro a suas visões políticas, mas fez questão de reafirmar suas inquietações panfletárias ao longo de todo o texto. Caro jornalista, sabemos que a história do Brasil foi e será sempre tumultuada, e que a gente por vezes sente mesmo uma necessidade de compartilhar textões sobre isso; porém, quando o leitor compra um livro a respeito de um artista ou banda, é bem provável (e óbvio) que ele queira ler sobre a vida e obra de seu ídolo, e não necessariamente umas 150 páginas contendo uma análise política de uma época, especialmente quando a visão nada imparcial do autor interrompe a narrativa biográfica para, por exemplo, saudar "um importante líder político e sindical da época". Desculpe, caro jornalista, mas sua bandeira política não interessa nem um pouco, e eu realmente lamento esta necessidade de obtenção de vendas de seu trabalho sob este artifício da panfletagem.

Um parêntese: peço desculpas ao Alexandre Lucchese por inserir este comentário na resenha, mas o seu trabalho de escrita junto a obra dos Engenheiros realmente se diferencia, e penso ser importante mencionar isto. Afinal, para o leitor, e principalmente para o fã, fatos e entrevistas e algum (muito) afeto por parte de quem escreve deveriam ser os principais objetivos de se escrever uma biografia, e encontrar essa honestidade no seu texto foi mesmo uma grande experiência, a qual não vou deixar de recomendar.

A vida imita o vídeo 
Garotos inventam um novo inglês 
Vivendo num país sedento 
Um momento de embriaguez 
Somos quem podemos ser 
Sonhos que podemos ter 

Somos quem podemos ser (1988)


"Sem muitos amigos, mas sempre com muitos fãs, a saga dos Engenheiros do Hawaii começava a extrapolar o circuito das pequenas danceterias de Porto Alegre. (...) Gessinger, ao menos aparentemente, não teve dificuldades em se fazer compreender para todo o Brasil. (...) Se, por um lado, havia um desejo de seguir na estrada, também ficava claro o desejo de abandoná-la quando o interesse deixasse de ser orgânico ou quando o som precisasse ser transformado por imposições internas. 'A gente está nessa história para continuar, tanto que fazemos a coisa de uma maneira superséria e acreditamos mesmo nela. Agora, a gente não pretende aposentadoria no INPS através da música. Vamos continuar tocando enquanto a coisa estiver viva, enquanto tiver sentido de ser', (...) afirmou Carlos Maltz em entrevista para a Revista ZH (Zero Hora), em 4 de janeiro de 1987." (p. 110 e 151)

De volta a história dos Engenheiros, quem é fã já sabe que a ideia da banda surge em meados da década de oitenta, nos anos da faculdade de Arquitetura, onde Humberto Gessinger e Carlos Maltz se conheceram e, ao longo de uma década, realizaram uma inconfundível parceria. Após algumas páginas de introdução de sua pesquisa, Alexandre Lucchese faz uma apresentação da cena rock de Porto Alegre, e também desta alguma distância entre a o sotaque do sul e sonoridade das outras capitais. Em paralelo a cronologia, o autor dedica capítulos aos primeiros acordes, vida e interesses de cada integrante - inclusive dos que fizeram parte da formação pré-Augustinho Licks, assim como às questões iriam nortear suas escolhas de carreira: "- Nós não éramos brothers de ninguém, nem de nós mesmos. Éramos completamente outsiders - conta Maltz. Tinha aquela questão do individual, herdado do romantismo alemão, de ser um indivíduo, da gente não fazer parte de nenhuma panelinha, de nenhum sindicato do rock." (p. 37)

Esta escolha por autenticidade teve um preço, e a sonoridade e versos que conquistaram o público eram as mesmas que distanciavam os Engenheiros do gosto da crítica e das bandas de seu tempo: "Revolta dos Dândis também pode ser lido como uma tirada irônica sobre a onda roqueira de meados dos anos 1980, nas quais muitas bandas que se diziam radicais e punks eram formadas por garotos de classe média que, como um dândi, se travestiam em uma forma diferente de vestir e agir no palco. Terra de Gigantes é a música que deixa mais clara essa intenção de questionar a suposta rebeldia do rock nacional, com o verso 'A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante'." (p. 187)

(Qualquer semelhança com os dias de hoje...)


"A banda entrou nesse clube fechado não pela vendagem, mas pela credibilidade (...). Até hoje tem gente que não nos entende. Já essas bandas - Titãs, Legião, Paralamas - todo mundo sabe qual é a deles. (...) Nunca me senti tão pouco à vontade quanto no tempo em que minha banda teve exposição avassaladora. Nunca foi uma banda para ter aquele volume de exposição e ser hegemônica. (...) Gosto de fazer parte de uma indústria e saber que ela impõe limites fortes ao meu trabalho. A gente descobriu a dignidade de entreter. (...) É interessante você botar uma poeira na engrenagem, em vez de combatê-la de frente. Acho mais válido do que falar da polícia e da igreja. Isso é uma obviedade desgraçada." (p. 222, 236 e 243)

É claro que em toda relação há atritos, principalmente no que diz a criação artística, liderança e rumos coletivos; uma década de carreira talvez tenha sido pouco, mas tornar-se inesquecível na mente do ouvinte é quase um infinito. Embora grande a saudade, há que se respeitar a vida que cada um escolheu para si após o término da banda, assim como a relação que cada um estabelece com a obra realizada na juventude e a importância ou não de comentá-la hoje em dia. Ao leitor, fica o sentimento de que a biografia de Lucchese realmente respeitou a vontade e espírito de seus personagens, e, de forma gentil, contribuiu para a preservação deste importante capítulo da história da música, assim como o de nossa própria história.

Vida longa ao legado dos Engenheiros e ao honesto trabalho do jornalista Alexandre Lucchese!

Aliás, vale conferir uma entrevista com o autor no site da revista Scream and Yell :) Tá bem bacana!

Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossíveis
E quebra o silêncio e parte o coração

Há um muro de concreto entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
(Duas Alemanhas, duas Coreias)
Tudo se divide, todos se separam


Alívio Imediato (1989)



Alexandre Lucchese

Era pra ter durado uma noite só. Era pra ter sido somente uma banda de abertura. Era pra ter outro nome. Não era pra ser um trio. Eram várias variáveis. Graças a essa sucessão de fatos estranhos, quando não ter plano é o melhor plano, nasceu uma das maiores bandas do rock brasileiro: Engenheiros do Hawaii. Uma história cheia de lances improváveis que o jornalista Alexandre Lucchese conta nesta biografia, depois de ter entrevistado mais de uma centena de pessoas ligadas à banda, inclusive Humberto Gessinger, Carlos Maltz e Augusto Licks, o trio responsável pela fase de maior sucesso, que acabou se desfazendo anos mais tarde em meio a brigas e processos judiciais. Embarque na infinita highway para ver como nada do que foi planejado para a viagem deu certo, mas, nesse caso, ter dado tudo errado não poderia ter sido o mais certo.

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