quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O Clube de Leitura de Jane Austen - Karen Joy Fowler | Editora Rocco | Texto por Gih Medeiros


“Cada um possui uma Austen particular. A minha é a Austen que mostrava seu trabalho aos amigos e familiares e recebia com evidente prazer suas reações” - Karen Joy Fowler

Acho que pela quantidade de vezes em que falei de Jane Austen por aqui, vocês devem entender que eu concordo com a Karen. Essa paixão pela literatura Austeniana começou há alguns anos, apesar de ouvir falar da autora desde a época do colégio (isso foi há algum tempo kof kof), e só aumentou com cada nova leitura. Muita gente não entende os motivos, já que aparentemente são romances arcaicos sobre pessoas da classe média inglesa do século 18, que só pensavam em casamento e bailes (pelo amor de Deus, leiam antes de fazer tais julgamentos!!!).

Como já defendi aqui anteriormente, Jane Austen era uma observadora e falava sobre a sociedade em que vivia, sobre aquilo que tinha conhecimento de causa, sobre as pessoas que via no dia a dia. Sua escrita se manifestava de maneira irônica, crítica e muitas vezes tão sutil, que confunde um leitor mais desatento, que lê sem ter o mínimo de conhecimento do contexto histórico em que a escritora vivia. Mas, se você consegue enxergar essas nuances e se transportar para aquelas cenas, consegue entender porque ela ainda é tão querida e apreciada nos dias atuais. Tanto que não param de surgir adaptações livres ou obras inspiradas por ela, ano após ano, tornando-a uma das escritoras mais influentes de todos os tempos.

Uma dessas obras inspiradas por Jane foi escrita em 2004 por Karen Joy Fowler, autora americana de ficção científica, fantasia e ficção literária, e teve uma adaptação cinematográfica em 2007 com relativo sucesso, onde um grupo de 6 pessoas se reúnem e formam O Clube de Leitura de Jane Austen. Esse ano a Editora Rocco nos agraciou com a versão nacional e minha amiga linda Hida (do Blog da Hida), me deu de presente de Amigo Secreto <3. Quer presente melhor que esse pra uma janeíte de plantão? Acho que não!!! Se eu devorei esse livro assim que possível??? Absolutamente sim!!!

Nesse Clube do Livro (do qual eu adoraria fazer parte – risos), temos 5 mulheres e um homem. Jocelyn, uma mulher independente, solteira, mas casamenteira, que adora cães e é dona de um canil, amiga de Sylvia desde a infância. Sylvia trabalha na biblioteca e é casada há mais de 30 anos com o namorado da época do colégio, além de ser mãe de Allegra, que trabalha com artesanato, adora esportes radicais, tem uma certa propensão a acidentes (físicos e da alma) e é lésbica. Temos também Bernadette (que foi casada com o padrinho de Jocelyn), uma senhora com quase 70 anos que se veste de maneira estranha e tem a flexibilidade física de uma jovenzinha devido à prática de anos de Yoga, e que adora falar. Prudie é uma jovem professora do ensino médio, que dá aula de francês, mas nunca esteve na França, e apesar de se achar bem casada, está passando por um momento delicado de sua vida, já que tem alguns pensamentos nada profissionais com alguns de seus alunos. E no meio dessa mulherada toda temos Grigg, um fã de ficção científica, que é o caçula em uma família com 3 irmãs mais velhas, que não sabe muito bem porque se meteu em um clube sobre Jane Austen, de quem nunca leu NADA.

Sylvia vê o casamento chegar ao fim, e Jocelyn, como a melhor amiga que alguém poderia ter, desenvolve a ideia de uma leitura coletiva como forma de distrair Sylvia. Mas, cada um dos demais personagens, também tem seus próprios dilemas a enfrentar e aceitam a iniciativa como uma forma de no fundo, distraírem a si mesmos. Fica estabelecido que lerão as 6 principais obras de Jane, e que cada um deles será responsável pelo debate de um livro, um por mês.
 
“Não era culpa de Austen o amor dar errado. Ninguém podia nem mesmo dizer que ela não havia avisado. Suas heroínas se saíam bastante bem, mas sempre havia outros personagens no livro que não tinham final feliz – a Eliza de Brandon em Razão e Sensibilidade; em Orgulho e Preconceito, Charlotte Lucas, Lydia Bennet; em Mansfield Park, Maria Bertram. Era nessas mulheres que era necessário prestar atenção, mas ninguém o fazia” – pg. 88


Ao longo de seis meses, acompanhamos os debates de cada livro e conhecemos melhor cada personagem e suas similaridades com o mundo de Austen. Karen constrói com riqueza, personas à primeira vista comuns, mas que ao serem vistas mais de perto, são complexas e cheias de singularidades, como a doce Jocelyn que é tão mal interpretada tanto no presente, quanto o foi no passado, quando passou por uma situação aparentemente corriqueira na vida de uma adolescente, mas que no fundo não passa de abuso físico e que a marcou tão profundamente, que nunca se permitiu sentir nada verdadeiro por nenhum homem que passou por sua vida; a vívida Allegra que sente tudo com tanta intensidade que para se recuperar das dores causadas pelo coração, necessita de altas doses de adrenalina e por isso ela vai em busca de aventuras sem pensar nas consequências, apenas em poupar os pais da preocupação de saberem onde ela está; ou a incrível e tagarela Bernadette que teve uma vida difícil, sofrendo a pressão imposta pela mãe que queria que ela fosse uma artista, levando-a a enveredar por caminhos esdrúxulos e um casamento após o outro em busca da aceitação de quem ela é de verdade; ou a assustada Sylvia, que sempre teve medo de dizer aos filhos o que realmente pensava sobre eles, mas se vê obrigada a se reconstruir em um momento da vida em que as coisas deveriam ser mais estáveis e descobre uma nova faceta em si mesma que havia perdido; ou ainda a confusa Prudie, que poderia facilmente ter enlouquecido com o comportamento da mãe, que a deixou sem saber que partes da infância são ou não realidade. E temos Grigg, um homem que gosta de ler ficção científica, adora cães, e ama as irmãs, mesmo quando elas lhes dão motivo para odiá-las, e que não se importa em ser resgatado por elas quando necessário (mesmo depois de adulto).

À luz das obras de Jane e pela ótica de Karen, conseguimos enxergar essas pessoas que bem poderiam fazer parte de nosso círculo de amizade/contatos, e que são tão verídicos e tocáveis, assim como os personagens austenianos, onde não há perfeição em suas características, apenas a realidade das fraquezas e qualidades humanas que fazem de cada pessoa um ser tão inusitado, distinto, extraordinário.

Não se engane com a capa fofa e a premissa de romance no ar, esse é um livro pra ser lido e sentido, pra ser saboreado com um doce vinho, pra ser compartilhado com os amigos. É um livro pra vida, que fala sobre a vida.

“Jane Austen é estranhamente capaz de manter todo mundo ocupado. Os moralistas, a turma do Eros-e-Ágape, os marxistas, os freudianos, os junguianos, os semióticos, os desconstrucionistas – todos descobrem um parque de aventuras em seis romances repetitivos sobre provincianos de classe média. E para todas as gerações de críticos e leitores, sua ficção renova-se sem esforço”. - Martin Amis, The New Yorker


Karen Joy Fowler

Consagrada pelos diálogos afiados e pela ironia presente em seus romances, Jane Austen é uma das escritoras inglesas mais conhecidas no mundo. Fã da autora, a norte-americana Karen Joy Fowler faz um divertido passeio por suas obras em O clube de leitura de Jane Austen, que se manteve por 33 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, figurou no prestigioso ranking dos 100 livros notáveis do ano do jornal e deu origem ao filme de mesmo nome. No livro, Fowler apresenta um grupo formado por cinco mulheres e um homem, traçando um paralelo entre seus personagens e os criados pela autora britânica, numa deliciosa análise dos relacionamentos modernos à luz da obra de Jane Austen.

A trama, que se passa na Califórnia, começa quando Jocelyn, uma criadora de cães da raça Leão da Rodésia, decide montar um clube de leitura para discutir as obras de Jane Austen. Ela escolhe a dedo os integrantes: Sylvia, sua melhor amiga desde quando as duas tinham 11 anos; Allegra, filha de Sylvia; Prudie, professora de francês na escola local; a falante Bernadette, conhecida por ter se casado várias vezes; e Grigg, o único homem autorizado a participar.

Ao longo de seis meses, o grupo se reúne para conversar sobre um livro de Jane Austen de cada vez. Eles começam na casa de Jocelyn, com Emma; passam para Razão e sensibilidade, escolha de Allegra; emendam em Mansfield Park, por sugestão de Prudie; se encontram na casa de Grigg para comentar A abadia de Northanger; debatem Orgulho e preconceito enquanto escutam Bernadette; e encerram com Persuasão, voltando à residência de Sylvia.

Enquanto mergulha no universo de Jane Austen, o sexteto vive suas próprias histórias. Os leitores acompanham dramas como o divórcio de Sylvia, a morte da mãe de Prudie e o rompimento do namoro de Allegra. Mas nem tudo é tristeza: as irmãs mais velhas de Grigg dão uma ajuda para que ele se aproxime de sua paixão secreta, Bernadette encontra um novo marido e Jocelyn tem a chance de redescobrir o amor.

Sucesso de vendas nos Estados Unidos, O clube de leitura de Jane Austen mostra que Karen Joy Fowler é capaz de criar uma trama deliciosa, transportando para os dias de hoje a voz da escritora inglesa que soube, como ninguém, descrever a sociedade provinciana da Inglaterra no século XVIII. Assim como aconteceu com algumas obras de Austen, o livro de Fowler ganhou uma adaptação para o cinema, com roteiro de Robin Swicord e nomes como Emily Blunt e Kathy Baker no elenco.
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