Tentativas de fazer algo da vida - Hendrik Groen | Editora Planeta de Livros | Por Bruno Fraga

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
"Domingo, 27 de janeiro

Tentei, mas não consegui ficar até o final do bingo. Quando começou uma briga por causa do quinto prêmio - um salsichão de fígado do Aldi, de noventa centavos -, disse que estava com enxaqueca e fui para o quarto. É prático ter enxaqueca porque é algo aceito como desculpa em toda parte. Quando cheguei aqui e ninguém me conhecia, apresentei minha enxaqueca inventada e, desde então, já fiz uso dela inúmeras vezes. Espremer um pouco os olhos e esfregar a mão na testa é o suficiente. Alguém sempre pergunta preocupado se por acaso não estou com enxaqueca. Então preciso 'deitar um pouquinho'. Nenhuma chateação para meu lado e fim de papo."



Tentativas de fazer algo da vida, o best-seller holandês que retrata o cotidiano de um senhor que vive em uma das centenas de casas de repouso para idosos em Amsterdã, chega ao Brasil publicado pelo selo TusQUETs da Editora Planeta de Livros

O sucesso do livro atraiu a curiosidade da mídia para descobrir a real identidade do autor, que, de maneira brilhante, escreve em seu diário sobre a vida de quem já não vê muitos motivos para se importar com o que os outros pensam. 

Independente da pessoa por trás do pseudônimo, Hendrik Groen conhece bem o cotidiano dos moradores de casas de repousos e, acima de tudo, conhece o ser humano e sua natureza conflituosa, pois mesmos idosos em cadeiras de rodas tendo que usar fraldas demonstram inveja, praticam bullying , entram em inúmeras discussões e talvez só não haja luta corporal pela precária condição física dos contestantes. 

Hendrik, porém, não quer que o resto de sua vida se resuma a isso. Já vivendo no asilo por alguns anos e sem receber visitas, junta-se aos poucos, mas bons amigos que também vivem lá e funda o Tovemantomo (Tô velho, mas não tô morto), um grupo que planeja reuniões, jantares e passeios semanais para aproveitar o pouco da vida que lhes restaram. 

Partimos então para as aventuras do grupo narradas de forma muito animada no diário de Hendrik. Evert, melhor amigo de nosso herói, torna os dias e a leitura bem mais divertidos com muitas piadas politicamente incorretas e domínio na arte de constranger os outros. Eefje, uma senhora que acaba de chegar ao asilo com muita graciosidade e seu peculiar hobby de ouvir áudios de pássaros em cds, encanta Hendrik, que passa a nutrir um belo sentimento por sua nova amiga. 

Não há como deixar de falar sobre as interessantes citações acerca da cultura holandesa que são apresentadas no livro. Nós, que não estamos o tempo todo rodeados pela cultura desse país, aprenderemos algumas coisas bem interessantes sobre costumes, culinária, música e até sobre os programas de televisão dos países baixos. 

A excitação ao escrever um diário, coisa que nunca tinha feito antes, os animados passeios e a chegada de alguém especial melhorariam a vida de qualquer um . Estar em uma casa de repouso sem familiares e sem receber visitas nos depressivos domingos torna a ligação de Hendrik ainda mais forte com seus amigos ao redor. Amigos que podem cair e quebrar um osso, entrar em coma, ter Alzheimer ou tantas outras enfermidades e deixá-lo na já experimentada solidão. Desta forma, a leitura nos faz refletir, pois, em meio a tantos sentimentos compartilhados por qualquer faixa etária, a tristeza em ser deixado para morrer é insuperável. 

O leitor poderá experimentar alguma resistência ao ler tanto sobre a defesa quase compulsiva de Hendrik da eutanásia ou mesmo discordar de algumas de suas visões políticas. Poderá achar que o estilo diário nos best-sellers hoje em dia está em sobre demanda, mas não, não há como serem mais forte do que as belas mensagens contidas na obra. Favor, aguarde até os 84 anos para discordar. 



Hendrik Groen

Hendrik Groen pode ser velho, mas nem de longe está morto – e não planeja ser enterrado tão cedo. Seus passeios estão ficando mais curtos porque as pernas já não dão conta, as visitas ao médico se tornaram mais frequentes do que gostaria. É nesse momento da vida que se pergunta se não há nada mais a fazer além de tomar chá fraco e cuidar de flores. Quando o novo ano começa, ele toma uma decisão: escreverá todos os dias um diário, contando os altos e baixos de sua rotina num asilo em Amsterdã. O resultado é um olhar terno e hilário sobre a terceira idade, mas é também um devastador retrato de uma parcela da população esquecida pela família e pela sociedade.
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