Em águas sombrias - Paula Hawkins | Editora Record | Texto de Regiane Medeiros

terça-feira, 23 de maio de 2017

“Os homens a amarram de novo para o segundo ordálio. Agora de um jeito diferente: polegar esquerdo com dedão do pé direito, polegar direito com dedão do pé esquerdo. A corda ao redor da cintura. (...)

Ela afunda. Quando a arrastam para fora pela segunda vez, seus lábios estão do roxo de um hematoma e ela já não respira mais” (pg 91/92)

Uma pequena cidade do interior da Inglaterra sofre um abalo: uma jovem mãe solteira é encontrada morta no rio que corta a cidade. Sua irmã caçula, com quem não falava há anos, é obrigada a deixar sua vida em Londres para voltar à cidade natal e fazer o reconhecimento do corpo, além de assumir a guarda da sobrinha, uma adolescente completamente diferente do que ela aguardava.

Esse é o ponto de partida de Em Águas Sombrias, novo livro de Paula Hawkins, a autora que causou frisson com A Garota do Trem, ambos os livros lançados no Brasil pela Editora Record.

Durante anos Jules fugiu de seu passado de sofrimento, perda e violência, mas quando sua irmã Nel é encontrada morta, toda a angústia, humilhação e sofrimento da infância e adolescência emergem de sua alma, atormentando-a. 


“Fiquei pensando no que eu diria para você quando chegasse lá, que sabia que você tinha feito isso para me magoar, para me chatear, para me assustar, para tumultuar minha vida. Para chamar minha atenção, me arrastar de volta para onde você me queria. Muito bem Nel, você conseguiu: aqui estou no lugar para onde eu nunca quis voltar, para cuidar da sua filha, para dar um jeito na confusão que você armou” (pg 13)

As irmãs Abbott tinham uma relação difícil, Jules não amava Nel – ao menos, não sente como se tivesse amado – e Nel, certamente não amava Jules, já que foi uma das maiores causadoras do bullying imposto à irmã caçula, corroborando com atos que quase levaram Jules à morte.

Mas, porque a morte de Nel não se tornou um alívio para Jules? Por que Jules ainda ouve Nel em sua cabeça, rindo dela, fazendo-a de tola?

“Parte de mim queria ter uma conversa com você, mas não antes de você me dizer que sentia muito, não antes de implorar o meu perdão. Mas o seu pedido de desculpas nunca veio, e eu continuo esperando” (pg 65)


Durante a investigação da morte de Nel, vamos conhecendo melhor a história dessa cidade, desse rio, onde outras mulheres também morreram afogadas: algumas acusadas de bruxaria, outras por acidente, outras que se suicidaram... E as que foram jogadas do penhasco. O que tinha em comum entre todas essas mulheres: eram consideradas encrenqueiras.

Nel era uma fotógrafa famosa e tinha uma verdadeira obsessão pela história do rio, especialmente pelas mortes no Poço dos Afogamentos, o que torna sua morte naquele local ainda mais curiosa e bizarra.

“Quando você começa a fazer perguntas e a colocar pequenos anúncios em lojas e em pubs, quando começa a tirar fotos e a conversar com os jornais e a fazer perguntas sobre bruxas, sobre mulheres e almas perdidas, não está atrás de respostas, está atrás de problemas.” (pg. 96)

Afinal de contas, o que aconteceu com Nel Abbott? Alguns, como sua própria filha Lena, afirmam que ela se se suicidou. Outros, como sua irmã Jules e Nickie, a vidente da cidade, tem certeza de que ela foi assassinada. E quem terá razão?


Esse foi meu primeiro contato com livros da Paula Hawkins e preciso confessar que o estilo da narrativa não me agradou, são muitos narradores diferentes e a narração varia muito entre primeiro e terceiro narradores, o que pra mim quebrou um pouco o clima e ritmo da história. Mas, alguns de seus personagens são bem interessantes – particularmente, adorei a boca suja e mal-humorada Erin, uma das policiais envolvidas no caso da morte de Nel e que com seu instinto aguçado colaborou para sua resolução. Jules, a principal narradora do livro, me incomodou um pouco no início, por conta de todo o seu ressentimento pela irmã que acabou de morrer, mas ao longo do livro passei a entendê-la, ao conhecer seu passado, e tudo o que teve que suportar porque não era bela e magra como sua irmã mais velha. Sean, o policial encarregado do caso, foi um completo mistério, mesmo agora depois de terminar o livro, não sei o que pensar a seu respeito.

Com relação ao enredo em sua totalidade, a história realmente é boa e está à altura da expectativa criada – mesmo que eu não tenha devorado o livro, como pensei que faria -, o suspense dura até os últimos capítulos e não há nada de óbvio quando nos deparamos com a solução apresentada para os questionamentos que nos tomam durante a leitura, o que foi o ponto forte para mim com relação à escrita de Paula.

Fazia muito tempo que uma leitura não me deixava tão dividida, mas talvez eu esteja um pouco de ressaca com minha leitura paralela, que é bem pesada: O Livro dos Mortos do Rock – ainda não sei se conseguirei resenhá-lo -, mas recomendo a leitura para os amantes de thrillers e suspenses, vão se surpreender com esse mistério.


Em águas sombrias - Paula Hawkins

Nos dias que antecederam sua morte, Nel ligou para a irmã. Jules não atendeu o telefone e simplesmente ignorou seu apelo por ajuda. Agora Nel está morta. Dizem que ela se suicidou. E Jules foi obrigada a voltar ao único lugar do qual achou que havia escapado para sempre para cuidar da filha adolescente que a irmã deixou para trás.

Mas Jules está com medo. Com um medo visceral. De seu passado há muito enterrado, da velha Casa do Moinho, de saber que Nel jamais teria se jogado para a morte. E, acima de tudo, ela está com medo do rio, e do trecho que todos chamam de Poço dos Afogamentos…

Com a mesma escrita frenética e a mesma noção precisa dos instintos humanos que cativaram milhões de leitores ao redor do mundo em seu explosivo livro de estreia, A garota no trem, Paula Hawkins nos presenteia com uma leitura vigorosa e que supera quaisquer expectativas, partindo das histórias que contamos sobre nosso passado e do poder que elas têm de destruir a vida que levamos no presente.
12 comentários on "Em águas sombrias - Paula Hawkins | Editora Record | Texto de Regiane Medeiros"
  1. Eu sou apaixonada por livros,estou lendo O menino no espelho , de Fernando Rabino.
    E já fiquei com vontade e ler esse seu. Rssrsrs
    Quem sabe um dia eu nao encontro ne?
    Beijão
    www.naiircrislayne.blogspot.com

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    1. Esse ainda não conheço, vou dar uma olhada. Obrigada pela dica 😉😘

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  2. Olá! Tudo bom?
    Nossa esse é um dos livros que mais quero ler n o momento, estou mega ansiosa, fiquei mais ainda de saber de alguém que já leu, que é uma história que realmente preenche nossas expectativas.
    Parabéns a resenha ficou ótima.
    Beijos

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    1. Olá! Tudo bem e você? Pra quem curte o gênero, vale a leitura!!! Bjoooo

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  3. Oi, eu ouvi falar na autora e fiquei com vontade de ler, fora que as capas são muito atrativas, gostei muito da resenha porém fiquei um pouco com receio de ler pelo fato de você relatar que tem muitos narradores, isso me deixa super confusa e me causa ressaca, levo meses pra acabar, destrói a concentração, o enredo parece sensacional, esse mistério, mas a narrativa me deixou com pé atrás.

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    1. Olá! Como eu disse, o enredo como um todo vale muito a pena, mas achei complicado o fato da narrativa não ser de apenas uma modalidade. Eu nem ligaria se fossem muitos narradores, desde que fosse tudo em primeira ou em terceira pessoa... Mesclar os dois acabou me confundindo :/
      Mas recomendo a leitura, de repente você tem uma leitura mais fluida ;)
      Bjoooo

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  4. Tá aí uma autora que preciso ler! E quero começar justamente pelo livo de estréia, A Garota no Trem, tenho disponível o filme p/ assistir mas estou me controlando p/ não assistir antes de ler o livro, haha.

    Sobre o livro resenhado, não conhecia. Adorei conhecer.

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    1. Pois é Rob, não li ainda​A Garota do Trem e é super recomendado :/
      Quando ler, conta pra gente o que achou 😉

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  5. Olá, tudo bem?
    Relação entre irmãs e depois entre sobrinha e tia. Algo muito delicado e complicado até para escrever. A história parece comovente, com aquele drama, imagine receber a notícia que a irmã ta morta e você não tem mais a chance de dizer que a ama. :c

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    1. Olá! Tudo bem e você? Realmente um tema delicado, mas a autora focou mais em outros pontos, aliviando a carga dramática, ainda que essa se faça presente... É um livro bem perturbador em diversos aspectos. Bjoooo

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. É eu ainda não li nada da autora, por falta de oportunidade. Esse lançamento parece ser instigante, além da arte da capa estar muito bela. Já está na minha lista.

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