Um menino em um milhão - Monica Wood | Editora Arqueiro

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O Menino

"Tinha um jeito bonito de falar, apesar de sua dicção incluir pausas quase imperceptíveis nos lugares errados, como se fosse um estrangeiro ou tivesse perdido o fôlego. (...)
- Por acaso sua mãe é professora?
- Minha mãe é bibliotecária.
- Você fala como um bibliotecário.
- Não tenho nenhum amigo.
- A bem da verdade, eu também não. De vez em quando tomo chá com as senhoras da igreja, mas elas reclamam tanto da saúde que eu saio de lá exausta. Você é um bom menino. Por que não tem amigos?
- As pessoas só gostam de você se você faz algum esporte. Os truques de mágica não adiantaram muito.
- Eu avisei, disse Ona.
- Um, detesto esportes. Dois, detesto grupinhos. Três, detesto almoços."

Esta é a história de um Menino que trocou as primeiras palavras pelo silêncio. Para ouvir o canto dos pássaros; para ouvir a si mesmo.

Em sua voz diminuta, o Menino construía um novo mundo: datas, recordes, listas e as páginas (todas as páginas!) do Guinness Book eram a inspiração de seus dias, e uma espécie de consolo para as impossibilidades de sua própria vida.

Aos onze anos, tudo o que o Menino conhecia rimava com Solidão: a linguagem, o Pai e os amigos, assim como o canto de uma dezena de pássaros (em sua vida de escoteiro, já conseguira reconhecer a primeira dezena, mas, para chegar a um recorde - e ter seu próprio nome em uma lista de recordistas!, era preciso aguçar os ouvidos e chegar a vinte) eram importantes itens a acrescentar em suas listas. Enquanto o bom-futuro não chegava, os anos passavam e O Incompleto permanecia, como um incansável amigo. Seu único amigo.


Ona Vitkus, a Senhora mais velha do mundo (do Menino)

"Não precisa se desculpar. Pra falar a verdade, até gostei que você tenha perguntado. E que não tenha ficado surpreso com a resposta.
...
Porque muita gente acha que sou uma espécie de estátua sem passado nenhum, por isso. Mas você senta aqui na minha cozinha e me obriga a tirar essas coisas todas do baú, me fazendo lembrar que eu sou eu."

Cento e quatro anos, um casamento, duas guerras, inúmeras despedidas (a de sua mãe e pai e esposo e filhos, e seu trabalho junto a máquina de escrever, e também a Lady Di, a tevê preto e branco e o presidente Kennedy). E a chegada do Menino.

Pois foi em um sábado de seus cento e quatro anos que Ona Vitkus então preencheria o espaço que restara em seu coração. Foi em um sábado de chuva que conheceu o atencioso e franzino escoteiro, cuja boa ação dos próximos dias seria a de ajudar esta velha senhora a cuidar de seu quintal e, ao término de suas tarefas, comer um biscoito em forma de dinossauro, dizer obrigado e adeus, até a próxima semana, só isso.

Ona Vitkus não imaginou que a solidão que a afastava de toda a vizinhança era a mesma sentida pelo Menino, e por isso os dois se aproximariam. Afinal, toda amizade é uma segunda infância, assim como um amadurecimento de nossa própria vida.

No segundo e terceiro sábados então, Ona e o Menino compartilhariam histórias, truques de mágica (em sua infância, Ona trabalhara em um circo) e improváveis recordes (recordes que, quando crescer, o Menino sonha em também realizar). E foi assim que um novo encontro de almas estava estabelecido. Bastava o olhar dizer sim. Bastava a dor chegar ao fim.

(Para Ona, não chegaria. Tampouco para o Menino.)


Quinn, também chamado Pai

"Não era um sonhador. (...) Era um guerreiro. Um guerreiro que amava música. (...) Tinha por tudo isso um afeto irracional e inabalável, como se as composições, tanto as boas quanto as ruins, fossem crianças deixadas sob seu cuidado.

(...) Inúmeras vezes na sua vida de guitarrista (...) ele havia tocado algo importante o suficiente para tirar as pessoas da sua imobilidade natural, (...) algo que fazia com que se lembrassem de algum lugar onde já tinham morado, alguém que já tinham amado, uma versão esquecida de si mesmo. (...) Amava o vazio que conseguia preencher."

Ganhava o suficiente para cuidar de uma e duas vidas. E trabalhava o suficiente para perder estas próprias vidas. Belle e o Menino eram sua fonte de inspiração, embora a Música fosse sua verdadeira razão de existir. De não desistir de si mesmo.

Era homem de palavra, ainda que o amor tivesse se tornado apenas uma palavra amarga em seu dicionário: "incompetente"; "egoísta"; "não tens a nós em teu sangue?". Ora, as canções eram todo o seu sangue. Desde a infância. Desde o dia em que, a duros golpes, aprendeu que não adiantaria explicar: o apaixonado por canções seria sempre um qualquer, um incompreendido. Um alguém cuja partitura era aos olhos dos outros incompreensível.

Quinn poderia ter diminuído os solos e ouvido a saudade de sua esposa, ou o canto dos pássaros junto ao Menino; mas não importa: aos onze anos, aos quarenta ou aos cem, a solidão é por vezes nossa primeira escolha, justamente por nos fazer escolher a nós mesmos.   


A Mãe, também chamada Belle

"- Eu adorava sua música - disse ela (...). - Pensava que...
- Pensava o quê?
- Eu acreditava em você. Acreditava na coisa toda.

Acreditava. O tempo pretérito entristeceu Quinn. Ele se lembrou do dormitório em que ela morava na universidade, depois de um show dos Benders em que ele tocara. Belle tinha 19 anos. (...)

- Eu achava que queria algo diferente - acrescentou, quase sussurrando. (...) A verdade era que eu queria exatamente a mesma coisa que todo mundo.

(...) Ele tinha se casado com ela quando o outro caminho teria sido mais fácil. (...) Mas no final das contas, a lista de Belle se resumia em um item impossível: ele precisaria se transformar em outra pessoa."

Imaginou que a rebeldia era condição para se chegar ao chamado Novo Mundo. A rebeldia ou o casamento, assim diziam os muros da escola e suas amigas. Restava a Belle aguardar os dias predestinados ou rabiscar o futuro. Preferiu deixar a cidade pequena e dedicar-se ao amor e ao ventre. À paixão e à independência. A Quinn Porter e a chegada do Menino.

Pensava que... Poderia ter ouvido a ladainha de seus pais, ou ainda canção do vento, mas preferiu deixar de lado a tradição e os livros e arriscar-se neste quarto-e-sala chamado Vida, cujos apertos eram comuns a toda gente de todo mundo, e não apenas a uma fatalidade de seu destino.

Um belo nome, um lar, uma família, um sonho de menino. Tudo ficou pra trás, quando percebeu que o marido e a criança eram incapazes de ouvir o que teria a dizer. Por vezes, Belle, é preciso estar junto para entender que a vida também nos convida a ser sozinhos, por mais que esta seja uma escolha - ou, como queira crer, um destino - apenas triste.

Era chamada Belle, e Segunda Chance o seu sobrenome. Em um canto de lágrima, o amor finalmente a reencontraria. Embora o passado permaneça como um zumbido, o novo presente parecia promissor, e um pouco mais compreensivo. E nada musical; e ainda sombrio.


O encontro

O tempo interior, as bonitas desculpas dos que habitam neste mundo. Errei porque, não finja, vou embora, casa comigo, você poderia ter ouvido. O livro todo, assim como a vida, conta a imprecisão de nossa história, onde seus heróis (Belle, Ona, Quinn e o Menino) interpretam a realidade através de sua própria palavra, de sua imprópria maneira de ver o mundo.

No interior desse mundo fechado, homens e fatos e coisas parecem igualmente vítimas da solidão de suas escolhas; da incerteza de seus pertencimentos. E não poderia ser diferente: a vida é este algum encantamento que surge dos encontros, e desta alguma coisa inominada, ainda sem expressão, que nasce no intervalo entre o amor e a liberdade, ou no início de uma despedida.

Em relação ao livro, o que fica é a pergunta: o que se passa quando dois personagens, um em presença do outro, trocam palavras, trocam confidências, e desarmam sorrisos?

Contar o mundo é uma espécie de fuga de nossa própria monotonia, da vida que ninguém mais está disposto a conhecer. Por vezes, nossas palavras chegam ao teto e recolhem-se no espelho; por vezes também, a letra é como o cinza da chuva, que desmancha ao sabor dos pingos e renasce quando escrita em forma poesia. Como um encontro de palavras tortas e corações alinhados. Como um segundo nome para Belle, Ona, Quinn e o Menino. E também para nossa própria vida.




Quinn Porter é um guitarrista de meia-idade que nunca conseguiu deslanchar na carreira. Enquanto aguardava sua grande chance na música, foi um marido e pai ausente, e jamais conseguiu estabelecer um vínculo afetivo com o filho, uma criança obcecada pelo Livro dos Recordes e algumas peculiares coleções.

Quando o menino morre inesperadamente, alguém precisa substituí-lo em sua tarefa de escoteiro: as visitas semanais à astuta Ona Vitkus, uma centenária imigrante lituana.

Quinn assume então o compromisso do filho durante os sete sábados seguintes e tenta ajudar Ona a obter o recorde de Motorista Habilitada Mais Velha. Através do convívio com a idosa, ele descobre aos poucos o filho que nunca conheceu, um menino generoso, sempre disposto a escutar e transformar a vida da sua inusitada amiga. Juntos, os dois encontrarão na amizade uma nova razão para viver.

Um menino em um milhão é um livro sensível, poético e bem-humorado, formado por corações partidos e aparentemente sem cura, mas unidos por um elo de impressionante devoção pessoal.


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2 comentários

  1. Oi, Rebeca!
    Suas resenhas são sempre carregadas de tanta sensibilidade! Terminei essa leitura há alguns dias, mas tenho adiado a resenha por sentir que nada do que tem me passado pela cabeça traduz de verdade o que é essa história. Você conseguiu lindamente!

    Beijos, Entre Aspas

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  2. Oi Rebeca!
    Ainda não tinha lido nenhuma resenha desse livro até agora, e adorei sua resenha. Não imaginava que o livro era tão bom assim!

    Beijos,
    Sora | Meu Jardim de Livros

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