quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Unboxing Turista Literário - Agosto 2017 | Por Mich Fraga



O Turista Literário é um serviço de assinaturas que tem crescido bastante nos últimos tempos. As caixinhas promovem uma verdadeira imersão sensorial na historia e todos os meses o conteúdo é surpresa, a única certeza é de que o livro será um Young Adult recém lançado.

No site há a aba "dica do livro", onde eles dão pistas sobre o livro do mês. E para o mês de agosto a dica era que o livro traria uma temática feminista e a história se passaria num lugar jamais antes visitado pelo balãozinho do Turista Literário. 


Eu fiquei extremamente curiosa para saber qual destino seria esse e não me decepcionei em nada quando abri a caixa e descobri o cenário exótico no qual a história se passava.

Confira o vídeo de unboxing com todos os detalhes da caixinha de agosto.


E você, conhece outras histórias que se passem nesse ambiente? Não esqueça de deixar seu comentário.

Beijos e até a próxima.
Mich

Lançamentos Grupo Editorial Record




O Carteiro e o Poeta é um romance do escritor chileno Antonio Skármeta, recentemente reeditado pela Editora Record. Em 1994, o enredo de Skármeta conquistou multidões ao ser adaptado para as telas do cinema. Sob a direção de Michael Radford, respeitou-se a simplicidade do texto de Skármeta, que conta a história de Mario Jiménez, um homem simples criado em uma vila na Itália que não se imaginava seguindo os passos de seu pai, um pescador. Já crescido, Mario consegue um  emprego nos Correios e fica encantado quando descobre que o destinatário de suas cartas é o poeta Chileno Pablo Neruda, que, por motivos políticos, está exilado no país. A improvável amizade entre o escritor e o carteiro, assim como a expectativa de um amor ideal, são os principais temas desta atemporal e inesquecível história.


As Pupilas do Senhor Reitor é um romance português publicado em folhetins no ano de 1886. A história é ambientada na aldeia de Póvoa do Varzim e conta a história das irmãs Guida e Clara, que, após a morte de sua madrasta, são entegues aos cuidados do Padre Antônio. De forma repentina, Antônio, também chamado Reitor, inicia uma amizade com o fazendeiro José das Dornas, que almeja um bom futuro para seus filhos, Daniel e Pedro, também órfãos de mãe. O enredo de Julio Diniz segue nesta narrativa familiar e, como podemos imaginar, apresentando um provável romance entre os quatro órfãos do vilarejo.



E você, já conhecia alguma dessas histórias? Conta pra gente :) Em breve Michelle e eu vamos compartilhar nossas impressões aqui no Blog, fiquem ligados <3

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Lançamentos Editora Morro Branco



O segundo volume da série A Biblioteca Invisível e um dos melhores livros do ano, segundo a Time Magazine, são as apostas da Editora Morro Branco para este segundo semestre <3 A Cidade das Máscaras, de Genevieve Cogman, e Todos os Pássaros no Céu, de Charlie Jane Anders, são histórias de mundos extraordinários e personagens fora do comum que com certeza irão despertar na gente aquela vontade de fazer uma maratona de literatura fantástica pelos próximos meses!

Vamos aos lançamentos:




Sinopse: Irene está trabalhando como espiã em uma Londres Vitoriana, coletando importantes livros de ficção para a misteriosa Biblioteca, quando Kai é sequestrado.

A origem enigmática de seu assistente significa que ele tem aliados e inimigos igualmente poderosos, e seu sequestro só pode significar uma coisa: guerra entre as forças da ordem e do caos, capaz de destruir mundos inteiros.

Para manter a humanidade longe do fogo cruzado – e salvar Kai de uma morte certa –, Irene terá que fazer aliados duvidosos e viajar até as profundezas de uma Veneza repleta de magia negra e estranhas coincidências, onde é sempre Carnaval. Lá, ela precisará lutar, mentir e chantagear seres poderosos. Ou enfrentar consequências fatais.





Sinopse: Desde pequenos, Patrícia e Laurence tinham formas diferentes – e às vezes opostas – de enxergar o mundo. Patrícia podia falar com animais e se transformar em pássaros. Laurence construía supercomputadores e máquinas do tempo de dois segundos. Enquanto tentavam sobreviver ao pesadelo interminável da escola, seu isolamento se transformou em uma amizade cautelosa. Até que circunstâncias misteriosas os separam para sempre. Ou assim eles pensavam.

Dez anos depois, ambos se reencontram em São Francisco. O mundo está prestes a implodir. Patrícia é formada em uma secreta escola de magia, e Laurence é um cientista tentando salvar a humanidade. A medida que os dois se reconectam, se veem levados a lados opostos em uma guerra entre ciência e magia. E o destino do mundo depende dos dois. Provavelmente.

Uma profunda, mágica e divertida análise sobre a vida, o amor e o apocalipse.


E você, já conhecia os títulos da Morro Branco? Acompanhe pelo Facebook as novidades da Editora!


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Raptada por um Conde - Stephanie Laurens | Harper Collins | Texto por Mich Fraga


Raptada por um conde, da Editora Harper Collins Brasil, é um romance de época erótico da autora australiana Stephanie Laurens. Esse é o terceiro volume da trilogia das Irmãs Cynster.

Nessa história, acompanharemos as aventuras e desventuras de Angélica, a mais nova das Irmãs Cynster. E, como em todo romance de época, não poderia faltar bailes e é justamente num grande baile em que toda a peripécia dessa jovem garota, sonhadora e muito determinada vai acontecer.


Ela conhece um formoso cavalheiro que a chama a atenção e, na tentativa de chamar a atenção desse homem, aparentemente, tão virtuoso, é que ela é raptada pelo mesmo. Seria ele um vilão ou um herói que teve seus ideais comprometidos pela grande jornada da vida? O que será que acontecerá com Angélica?

Confira a vídeo resenha e tire suas próprias conclusões.

Espero que vocês tenham gostado.
Beijos e até a próxima.
Mich 


Londres, 1829. Angélica Cynster decidiu comparecer ao sarau na casa de lady Cavendish como parte da estratégia para encontrar o seu herói e futuro marido. Ela sabia que o reconheceria à primeira vista. Por isso, quando notou a presença de um nobre misterioso, ela soube que era o seu escolhido. Apesar do aparente interesse, ele não fazia nenhum movimento para se aproximar, e paciência nunca foi o forte de Angélica. Confiando no seu instinto e na sorte que o amuleto da Senhora lhe dava, decidiu dar o primeiro passo e se aproximar daquele homem enigmático. Tudo ia bem no seu primeiro encontro, até que uma atitude do seu herói a faz questionar as intenções dele: Angélica acabara de ser sequestrada! Fechando a trilogia das irmãs Cynster, “Raptada por um Conde” revela a verdade sobre os sequestros das Cynsters. O desfecho dessa intriga depende da ajuda que Angélica pode oferecer a Dominic. Um enredo com personagens audaciosos e uma trama misteriosa e cheia de aventuras que vai conquistar o público.



sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Notas sobre ela - Zack Magiezi | Editora Bertrand Brasil


Fechar os olhos
Mergulhar dentro de si mesma
E explorar um mundo novo

Notas sobre ela é resultado de um projeto de escrita poética iniciado pelo autor Zack Magiezi em 2014 em sua página no Facebook. Seu primeiro trabalho, Estranherismo, foi publicado em 2016 pela Bertrand e, em uma belíssima edição, apresentou ao leitor toda esta sensibilidade há anos datilografada compartilhada na rede <3

A poética das páginas de Notas sobre ela é também uma grande prosa: uma espécie de encontro de pequenas histórias e imaginação infinita, onde personagens-mulheres, muitas vezes sem nome e idealizadas, e quase sempre reais, povoam a escrita do autor, que as observa em cada detalhe, em cada minúcia de sua gentil e intensa presença, da juventude até a eternidade de seus dias.

Sobre a mulher e o seu mundo, nem sempre é possível dizer; porém, assim como o poema, ambos adoram "grandes caminhadas onde o objetivo é não chegar (...); é caminhar de braços dados com a vida".

Um livro belo e simples, como toda poesia deveria ser.


Faltam algumas poucas páginas para mim
Mas escreverei linha por linha
Letra por letra
Até o ponto final


Notas sobre ela - Zack Magiezi  
Ao retratar a mulher da infância à maturidade, Zack Magiezi mergulha no universo e na aura femininos revelando suas nuances, facetas e matizes. Dos picos de solidão noite adentro às alegrias ensolaradas à beira-mar; dos cheiros e tatos da inocência às expectativas que ora se cumprem ora se quebram; dos sonhos que reconfortam à realidade que lapida. Os vislumbres e as impressões; sentimentos e sensações; gestos, fotos, livros, discos, pessoas: nada foge ao autor. Obra inédita inspirada na série de textos que conquistou as redes sociais, Notas sobre ela é, em essência, sobre todas elas.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

[Unboxing] TAG Experiências Literárias - caixa de agosto | Por Mich Fraga


No dia 10 de agosto chegou aqui em casa mais uma caixinha da TAG Experiências Literárias e, por motivos de vida corrida, a caixinha acabou ficando um pouco de lado até que finalmente eu tive tempo para abri-la em vídeo e compartilhar a experiência com vocês.

Para quem não sabe, a TAG é um serviço de assinaturas de mistery box de alta literatura. E o que isso significa? Significa que todo mês virá um livro considerado de alta qualidade literária pelo curador do mês, geralmente são clássicos, mas isso não é uma regra.



Aí você se pergunta: mas como eu vou saber se eu vou gostar do livro que virá na caixinha? Todo mês o pessoal da TAG deixa diversas pistas sobre o o livro escolhido, assim podemos optar se querermos receber ou não a caixinha do mês.

Eu tenho me surpreendido cada vez mais com a qualidade dos produtos da TAG, as edições são sempre muito caprichadas. Então, confira o vídeo de unboxing com todos os detalhes.


E você, já conhecia a TAG?

Beijos e até a próxima.
Mich


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Médico e o Monstro - Robert Louis Stevenson | Especial Clássicos do Terror | Martin Claret | Texto por Regiane Medeiros

 
Deixe-me escolher o meu próprio destino, por pior que seja” – Henry Jekyll.

Desde o início de nossa compreensão, durante a infância, são incutidos em nossas mentes os conceitos de bem e mal, certo e errado, moral e imoral. Tais conceitos são a principal base da convivência harmoniosa em sociedade e fazem uma importante distinção entre os indivíduos. Mas, em diversas culturas, há a premissa (em grande parte filosófica) de que ninguém é exclusivamente bom ou mau, de que há parcelas de ambos os conceitos em nossas personalidades e que essa dualidade promove o equilíbrio para o nosso desenvolvimento.

Tal dualidade tem sido tema recorrente em todas as vertentes artísticas, especialmente na literatura, e talvez seu maior representante seja o clássico O Médico e o Monstro, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, considerada sua obra-mestra até hoje, reproduzida em diversas versões literárias, teatrais e adaptações cinematográficas, além de servir de inspiração para o desenvolvimento de tantas outras obras – qualquer semelhança com histórias em que há a presença de um alter-ergo, é mera coincidência... Ou não (risos). A obra faz parte da edição especial criada pela Editora Martin Claret, que reúne os três maiores clássicos de terror de todos os tempos – Frankenstein já teve sua resenha publicada no blog.

Publicado originalmente em 1886, segundo os relatos históricos, essa história nasceu de um sonho ou melhor, de um pesadelo (algo parecido com o que aconteceu com Mary Shelley antes de escrever Frankenstein – uma coincidência peculiar) e toda a narrativa parece nos levar a esse clima natural de maus sonhos, onde somos acometidos de uma inexplicável apreensão que cresce até que algo nos desperta do sono e nos traz alívio. Logo nos primeiros capítulos, nos é apresentado um crime brutal, característica que marca quase toda essa história:

Via-se à noite em uma cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa do médico; os dois chocavam-se, e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos” – pág. 183.

Esse crime hediondo assombra o Dr. Utterson, advogado residente em Londres, durante boa parte da história porque segundo testemunhas, tal ato foi cometido por Edward Hyde e Hyde é protegido do Dr. Henry Jekyll, médico e amigo de longa data de Utterson. Inicialmente, o advogado teme que a reputação do amigo esteja em jogo por se associar a um homem capaz de tamanha brutalidade, mas conforme vai investigando a vida de Hyde, Utterson descobre que há muito mais que força bruta e vileza em tal pessoa... Há, a verdadeira presença do mal. Mal esse, que continua a mover Hyde a cometer crimes sem encontrar a punição devida, em parte por conta de seu benfeitor, Henry Jekyll.


O que Utterson não sabe a respeito do seu amigo Henry Jekyll, é que o renomado e respeitado médico está realizando experiências em seu laboratório particular. Jekyll acreditava que tinha encontrado uma fórmula capaz de separar as duas partes do ser humano, o bem e o mal que há dentro de cada um:

Na minha própria pessoa habituei-me a reconhecer a verdadeira e primitiva dualidade humana, sob o aspecto moral. Depreendi isso das duas naturezas que formam o conteúdo da consciência, e, se eu pudesse corretamente dizer que era qualquer das duas, seria ainda uma prova de que eu era ambas. Desde muito tempo, ainda antes que as minhas descobertas científicas começassem a sugerir-me a simples possibilidade de semelhantemilagre, aprendi a admitir e a saborear, como uma fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se” – pág. 215.

Creio que não constitui spoiler (já que a obra é tão conhecida e tão reproduzida em todos os lugares do mundo) dizer que a conclusão desse mistério nos leva à revelação de que Jekyll e Hyde são, na verdade, a mesma pessoa, pois o médico iniciou seus experimentos usando a si mesmo como primeira cobaia. Através de Hyde, Jekyll é capaz de vivenciar todos os prazeres a que sempre se negou para manter a postura diante da sociedade que era esperada dele, devido à sua posição como médico vindo de uma família conceituada. Enquanto Jekyll é educado e preocupado com o próximo, Hyde se entrega à luxúria como um fim em si, incluindo entre seu meios de expressá-la, a força física, regozijando-se cada vez que machuca alguém, enquanto Jekyll, sente todo o peso do remorso de seus atos, mas também sente-se reenergizado, mais leve e mais jovem fisicamente e logo essas sensações tornaram-no um escravo de seu alter-ego: “Havia algo de estranho nas minhas sensações, algo de novo e indescritível que, pelo seu ineditismo, era incrivelmente agradável” – pág. 216.

Mas como lidar de forma sensível com a certeza de que dentro de si há tamanha crueldade? Como obter o controle necessário para que não se perca nesse frágeis prazeres obtidos por um momento de consciência amoral? De que forma, podemos encontrar o equilíbrio necessário entre nossas parcelas de bondade e maldade, para que uma não seja mais alimentada que a outra e a submeta completamente? Esses e outros questionamentos permeiam a mente do leitor durante essa leitura. Stevenson conseguiu de maneira magistral construir um thriller psicológico que nos abala ao mesmo tempo em que nos mantém presos às suas palavras até o fim da narrativa, permanecendo em nossa mente muito depois de finalizada a leitura.

Há muita influência da ficção científica iniciada com a obra de Mary Shelley, tanto que as duas obras são consideradas praticamente a base para todos os enredos posteriores que se valem do cenário da ciência para seus enredos. Mas, há em O Médico e o Monstro um algo diferente no tocante ao plano psicológico de seus personagens, que são extremamente bem desenvolvidos e críveis. Claro que a teoria de que é possível separar fisicamente nossas porções boas e más, é extremamente surreal, mas no campo da psquiatria e psicologia, há diversas síndromes que mostram o desenvolvimento de múltiplas personalidades, cada uma delas com suas peculiaridades, trejeitos e até mesmo constituição moral e sim, são reais e estão entre nós.

A única ressalva a respeito dessa história, é que ela é curta – risos!!! – eu adoraria ter visto mais desses personagens tão elaborados, profundos e intensos. Mas, ainda assim, a narrativa empolgante de Stevenson, com o toque certo de suspense e horror, me ganhou eternamente!!! Quero ler tudo dele!!!

Espero que vocês tenham a oportunidade de vivenciar essa leitura e por favor, esqueçam tudo o que viram no cinema sobre tais personagens... Nada na tela nos prepara para a história original!!!


SINOPSE: O tema do “Duplo”, tão caro à literatura do século XIX, tem em O médico e o monstro sua expressão mais icônica. A obra, que conta a história de um médico acima de qualquer suspeita que se transforma numa criatura odiosa e amoral, propõe discussões que desafiam alguns dos nossos conceitos mais arraigados. Indo muito além da dinâmica entre o bem e o mal, “O médico e o monstro” nos convida a refletir sobre a real natureza do homem, seu papel na sociedade e a ideia de civilização como força coerciva e condicionante. Nesse jogo entre ser e parecer, a multilateralidade se revela como o aspecto mais basilar do indivíduo. Publicada originalmente em 1886, a obra, que se tornou sucesso instantâneo de público, é ainda hoje um verdadeiro símbolo pop. Continuamente adaptada, citada e reinterpretada, a criação de Robert Louis Stevenson está presente nas mais diversas mídias, do cinema ao desenho animado.
terça-feira, 22 de agosto de 2017

O Menino Múltiplo - Andrée Chedid | Martin Claret



"- Na sua idade, de onde você tira essas coisas? - perguntou Maxime, mais tarde.
- Um dia te conto.
- Você fala às vezes como um menino, às vezes como um homem. Quando você é você mesmo, Omar-Jo?
- Em todas essas vezes."

O passado é aquilo que nos divide. Por denunciar a origem (do indivíduo, da sociedade), o passado é uma espécie de vento que em um dia quente traz conforto, e tempestade quando menos gostaríamos.

O passado dos Homens guarda episódios de gratidão e vergonha - tão exatamente como o Nosso, em nossa geração, casa e feitos, e também em tudo o que abadonamos pelo caminho.

Na ficção poética de Andrée Chedid, o protagonista é um Menino. Seu nome, Omar-Jo, é o uma espécie de testemunho de suas origens (de Omar e Joseph, seu pai e avô). De mãos dadas com a criação do Menino, estava também o Estado, cujos filhos porfiam por atenção e sangue e ruínas, a todo custo, ao custo de todos, até do Menino.

Eu habito toda a terra
Eu choro ou eu rio
Pelos lados de lá Pelos de cá
Pelos fortes Pelos fracotes
Eu moro sob a terra
Que não me engoliu!

Certo dia, uma primeira explosão anunciou a reconstrução da cidade. Nesta primeira e em tantas outras vezes, por baixo dos escombros, ainda encontrou-se esperança no coração de seu povo. Porque há milênios os Homens prezam suas vitórias para em seguida pecar, e, em busca de uma qualquer redenção, seguem em disparates que insultam toda alma e pele e destino.

E foi assim, em um dia opaco, que a vida comum de Omar-Jo e sua vizinhança viu-se presa em uma explosão. Dizem que os destroços da alma perfuram mais do que os do cal e do cimento; o que sabemos é que Joseph, o avô do Menino, viria a gravar no mármore junto a terra as iniciais dos que eram sua pátria: Omar. Annette. Pai e mãe e moradia do menino. Não importa se em mil e setecentos ou oitocentos, ou em um nove centos de explosões, não importa: bastou uma, apenas uma, uma rinha, uma vaidade, uma rixa para que Joseph segurasse a única mão do Menino, nesta solidão que agora encaminhava-se para um exílio.


"Depois dos gritos de angústia, não resta outra saída que a de se reconectar com a vida.
Omar-Jo pega do bolso sua velha harmônica e, reencontrando o sopro, tira dela, mais uma vez, sons melódicos e vívidos.
Lentamente, o Carrossel volta a girar.
Sem saber direito se acabara de mergulhar na mais cruel das realidades ou se havia assistido apenas a uma intervenção, a multidão aplaudiu."

Omar-jo entendeu-se Múltiplo quando atravessou a fronteira: seus primos, que em outras épocas fugiram aos assaltos de sua pátria, eram hoje comerciantes na Cidade Luz, a alguns kilômetros das imagens que estampavam os cartões postais. Ainda assim, vida de Omar-jo ainda não havia recomeçado. Porque era preciso reencontrar-se, e no mapa de Paris não estava indicado o ponto onde isso era possível.

Baldio estava o coração, e também os olhos de um alguém que resiste. Em meio a um triste deambular, descalço e repleto de recordações esquecidas, Omar-Jo depara-se com um Carrossel bem ali, suspenso no terreno outrora baldio. Sem pestanejar, o Menino escala a plataforma e se refugia em uma pequena carruagem escondida sob a lona e o luar de Paris.

Reocupar o passado e alegrar o presente talvez fosse mais fácil ao som do cavalgar de um corcel, pensava Maxime, um homem que deixara de sonhar havia poucos dias - que, na verdade, eram décadas: décadas de um trabalho sem amor, e de pouco amor por si mesmo, e pelos seus, que sempre fizeram pouco de si, assim pensava.

Era apenas mais um dia após um outro que já nem contei quando Maxime avistou o Menino. Saia, seu pedinte! Não sou um pedinte! Quem você é então? Sou Omar-Jo, um Menino. Omar-Jo, que nome é esse? Um nome, e um nome Múltiplo, como a própria vida.

E foi assim que o homem vazio conheceu o menino que já não tinha mais o que transbordar. Sobre a amizade, é bem possível que você possa supor o seu destino; sobre o próprio destino, a narrativa de Andrée Chedid é múltipla em seus sentidos: sentimentos de glória e extorsão; de cânticos de vitória e lamentos de ingratidão; de poemas que surgem de quem muito sofre, como também na voz de quem tudo silencia.

Maxime construiu um Carrossel para começar uma nova vida. Enquanto isso, o Menino Múltiplo vence a própria vida em sua teimosia.

 
"- Não se preocupe, Maxime. Você nunca vai estar sozinho.
- O que você sabe sobre isso?
- Você tem a mim!
- Ãh? - fez Maxime.
- E eu, eu tenho você!
- É assim que você vê as coisas?
- É assim que elas são."


O Menino Múltiplo - Andrée Chedid

Filho de pai muçulmano egípcio e mãe católica libanesa, Omar-Jo carrega suas origens no nome. Durante a guerra do Líbano, em 1987, um carro-bomba leva seus pais e seu braço. E o menino de doze anos é enviado pelo avô, trovador, a Paris. Na Cidade Luz ocorre o encontro do Oriente com o Ocidente, do menino-duplo com as luzes, as cores, os sons e os movimentos do Carrossel de Maxime; o rabugento proprietário que, pouco a pouco, reencontra com o menino, então múltiplo, a alegria de viver. Alteridade, amor e tolerância fazem parte do enredo poético. A ser lido em voz alta.

[Novidades das Editoras] Dan Brown - Origem | Pré-venda | Editora Arqueiro


Dan Brown é um daqueles autores impossívels de não se conhecer. Seja pelas adaptações cinematográficas estreladas por Tom Hanks ou pelos inúmeros bestsellers há anos presentes nas livrarias, cada lançamento desperta no leitor uma curiosidade quanto a inventiva e misteriosa trama a ser revelada em suas páginas.

No mês de outubro, a Editora Arqueiro lançará mais um título do autor, Origem, que já está em pré-venda no site da Saraiva.

Conheça a Sinopse:

Robert Langdon, o famoso professor de Simbologia de Harvard, chega ao ultramoderno Museu Guggenheim de Bilbao para assistir a uma apresentação sobre uma grande descoberta que promete “mudar para sempre o papel da ciência”.

O anfitrião da noite é o futurólogo bilionário Edmond Kirsch, de 40 anos, que se tornou conhecido mundialmente por suas previsões audaciosas e invenções de alta tecnologia. Um dos primeiros alunos de Langdon em Harvard, há 20 anos, agora ele está prestes a revelar uma incrível revolução no conhecimento… algo que vai responder a duas perguntas fundamentais da existência humana.

Os convidados ficam hipnotizados pela apresentação, mas Langdon logo percebe que ela será muito mais controversa do que poderia imaginar. De repente, a noite meticulosamente orquestrada se transforma em um caos, e a preciosa descoberta de Kirsch corre o risco de ser perdida para sempre.

Diante de uma ameaça iminente, Langdon tenta uma fuga desesperada de Bilbao ao lado de Ambra Vidal, a elegante diretora do museu que trabalhou na montagem do evento. Juntos seguem para Barcelona à procura de uma senha que ajudará a desvendar o segredo de Edmond Kirsch.

Em meio a fatos históricos ocultos e extremismo religioso, Robert e Ambra precisam escapar de um inimigo atormentado cujo poder de saber tudo parece emanar do Palácio Real da Espanha. Alguém que não hesitará diante de nada para silenciar o futurólogo.

Numa jornada marcada por obras de arte moderna e símbolos enigmáticos, os dois encontram pistas que vão deixá-los cara a cara com a chocante revelação de Kirsch… e com a verdade espantosa que ignoramos durante tanto tempo.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

[Novos Autores] Carlos Cardoso | Ateliê Editorial


Exílio

Espero do exílio em que me ponho
acovardado

absorver a essência do que me foi
dito,
e a existência, do que me foi
silenciado.

Recebemos dos parceiros do Ateliê Editorial  a divulgação mais um lançamento de Poesia e já corremos para compartilhar com vocês! Com previsão de lançamento para o segundo semestre, o poeta Carlos Cardoso retorna às livrarias com "Na Pureza do Sacrilégio", idealizado após um reencontro com seus manuscritos e com a própria condição de poeta.

Em 2004, Carlos Cardoso reuniu alguns de seus poemas no volume Sol Descalço, lançado pela 7Letras. No ano seguinte chegava às prateleiras Dedos Finos e Mãos Transparentes, pela mesma editora. 

Apesar do começo promissor, Cardoso precisou concentrar-se na carreira de engenheiro, mas a poesia nunca o abandonou. Sobre este retorno, conclui o autor: “A poesia melhora minha vida de várias maneiras. Tenho uma sensação prazerosa em escrever. E gosto de ver os poemas terem vida própria, causarem sentimentos e entendimentos diferentes em cada pessoa que entra em contato com eles”.

Em Sol Descalço, o poeta dedicou-se a uma abundância de imagens poéticas; em Dedos Finos e Mãos Transparentes, Cardoso revelou um mundo de simplicidade. Já em Na Pureza do Sacrilégio, o livro será pautado por questões filosóficas e existenciais, além da criação de textos que mesclam o real com o inventivo.

Parabéns Ateliê Editorial por promover mais este lançamento! Já estamos curiosos pra conhecer este novo trabalho!

Sugestão

Encontre a paz e seja feliz.
Desista de tudo o que te agride.
A solidão a insensatez a covardia.
Deixe apenas uma palavra,
tão pura e serena
que ninguém a diria.


Sobre o autor: Carioca, nascido em 30/12/1973, tem como influências literárias T.S Eliot, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa, Octavio Paz, Dylan Thomas e Camões.

“...quando nós, leitores, pensávamos ter capturado e enquadrado a originalidade poética de Carlos Cardoso, surge um novo livro do autor Dedos finos e mãos transparentes, no qual a fúria motriz das imagens alucinadas se atenua e dá lugar a um mundo de sutilezas e sensações as mais cotidianas que, sem jamais perder a visceralidade e o gosto pela surpresa, nos tocam por sua simplicidade”, escreveu sobre ele Carlito Azevedo.

Site: www.carloscardoso.art.br
Facebook: https://www.facebook.com/carloscardoso.art


A memória é uma porta de escape,

fenda por onde o amor foge quando
o amor bate.

Gênios também amam #3 | A Lógica Inexplicável da Minha Vida - Editora Seguinte | Texto por Mich Fraga


A resenha de hoje é muito especial. Em primeiro lugar, por ter sido uma experiência incrível a imersão nessa leitura - para quem não se lembra, esse livro veio na malinha de junho do Turista Literário - e em segundo lugar, por esse livro se encaixar perfeitamente na temática de os gênios também amam.

A Lógica Inexplicável da Minha Vida é uma daquelas leituras tão proveitosas que você chega a sentir falta quando a história termina.


Essa é a história do Salvador, um adolescente, descendente de mexicanos, e sua família adotiva vivendo nos Estados Unidos. Mas tentar resumir essa história é algo extremamente difícil, pois é uma história rica em detalhes e sensibilidades que você so pode compreender, de fato, lendo.

A escrita do Benjamin Alire Sáenz é muito penetrante. Ele trata de assuntos atuais e sérios como a homofobia, a xenofobia, a morte, o importante papel da família, de uma forma tão sensível como poucos autores consegue fazer. Você simplesmente não consegue largar o livro até que, de fato, chegue ao fim.

Confira a vídeo resenha e mergulhe de cabeça.


E vocês, já conheciam esse livro?
Espero que tenham gostado. Beijos e até a próxima.
Mich
sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Um verão para recomeçar - Morgan Matson | Editora Novo Conceito



"Não conseguia dormir. Esse parecia ser o tema do verão, já que ficava acordada por horas todas as noites, mesmo depois de ter trabalhado o dia inteiro e ficar exausta, quando deveria cair no sono tão logo colocasse a cabeça no travesseiro. Mas, assim que me deitava, ficava horas me revirando na cama, meus pensamentos não me deixando dormir. Parecia que, desde que chegamos ao lado Phoenix, estava constantemente me confrontando com todas as coisas que fizera de errado nos últimos cinco anos e nas quais tentei não pensar. E era sempre à noite, quando não conseguia escapar, que os pensamentos tomavam conta de minha mente, se recusando a ir embora." (p. 234)

Como lidar com a dor de uma despedida? Não é de hoje que a literatura young adult levanta essa questão, especialmente a partir de enredos baseados em despedidas e recomeços, como o da autora Morgan Matson, recentemente publicado pela Novo Conceito. Ainda que a intenção de seus autores não seja a de oferecer respostas, e sim relatos (ficcionais ou não) de quem precisou lidar com uma reviravolta brusca em sua vida, o contato com textos young adult pode despertar no leitor a sensibilidade necessária para uma reflexão a respeito de como estamos hoje e de como sobrevivemos até aqui.

Um verão para recomeçar conta a história de Taylor Edwards, uma jovem que guarda na memória um trauma vivido aos doze, quando a profusão de sentimentos e experiências nunca antes imaginadas (o primeiro amor, o ciúme e a disputa por esse amor) surge de forma avassaladora, paralisando-a, não restando senão uma única opção: abandonar este primeiro capítulo de sua adolescência, logo assim no início, e literalmente fugir.

No entanto, como acontece não apenas nas páginas de um livro, mas em nossa própria juventude, é bem possível que acontecimentos cotidianos (nem sempre planejados - aliás, quase nunca planejados!) nos façam reencontrar aquela pessoa que nos magoou (e, principalmente, aquela que magoamos) em algum momento do passado, e de forma também inesperada tenhamos que aprender a sobreviver a este reencontro, lidando com toda a culpa, remorso e com nossa própria imaturidade.

Histórias young adult nos surpreendem também por sua simplicidade, e pela atenção que seus personagens dedicam a inúmeros acontecimentos que escapam ao trauma. Talvez por entenderem, de forma intuitiva mesmo, que cada pequena nova história e conquista pode se tornar o passo necessário para se tocar a vida e prosseguir, ainda que a memória de tudo o que nos paralisou ainda insista em nos perseguir. No enredo da jovem Taylor, além do desastre de seu primeiro destino amoroso e da apatia que se seguiu ao longo de sua adolescência, chegou o dia em que foi preciso amadurecer muito rápido, e lidar com a iminência de mais uma perda (a incurável doença de seu pai), e igualmente encarar o desafio desta juventude que a intimava a dar um passo adiante, qualquer que fosse, ainda que a vontade de fugir a este segundo ataque brutal da vida ainda falasse alto dentro de si.

É claro que uma escrita assim, em tom de diário e confissão, em muitas maneiras intensifica os sentimentos ruins, assim como os medos de seus personagens (com os quais nos identificamos prontamente); na história de Morgan Matson, no entanto, me chamou atenção este mínimo de esperança que surge com a inesperada colaboração dos eventos presentes em seu próprio dia-a-dia, como a responsabilidade, atenção e cuidado que precisaremos tirar de algum lugar esquecido dentro da gente e simplesmente "devolver para o mundo", como se no intuito de aprendermos a conviver melhor com nossos familiares, colegas e amigos, bem como com aquilo que nos traumatizou no passado. Quando conseguimos não fugir ao que nos amedronta, uma pequena brecha se abre, e é bem possível que um ou outro relacionamento possa ser até restaurado.

Por vezes também, histórias young adult, quando lidas sob a ótica de que "é apenas um livro, escrito por uma autora de idade próxima a minha" percam um pouco de seu encanto (isto é, será que a autora realmente viveu isso, ou será que é tudo invenção? Na minha opinião, com a leitura a gente acaba entendendo que isso realmente não importa, afinal, uma boa história acaba sendo maior que qualquer dúvida que o leitor possa ter a esse respeito...); Um verão pra recomeçar traz esse diferencial de ser ao mesmo tempo adulto, por tratar de temas como reconciliação, luto, responsabilidade e futuro, e igualmente trazer a ingenuidade de quem ainda está a descobrir o mundo, e com cada descoberta se sentir motivado a abraçar esse tal desconhecido e seguir em frente. Um sonho e um dia por vez; uma dor e uma superação por vez.
O recomeço e a despedida acompanham a todos, em tantos momentos, neste algum lugar do coração e da memória onde tudo demora pra deixar de doer (a gente até que não acredita, mas sempre chega o dia em que tudo - senão uma parte - dói menos). Ainda assim, quando observado com alguma distância - e com alguma esperança, o passado é capaz de se transformar em "retrospectiva", e com o entendimento nosso de cada dia é bem possível que a própria vida se converta em instantes de contentamento. Muitos instantes. Cabe a nós lutar para acreditar nisso...

Um verão para recomeçar é uma história capaz de emocionar a todos e despertar inúmeras páginas de sorrisos. Dentre os young adults do mês, o romance de Morgan Matson é leitura recomendadíssima, com certeza! :)



“Foi somente então, quando cada dia que eu passava com ele era contado, que eu percebi o quanto eles eram preciosos. Milhares de momentos para os quais eu não tinha dado o devido valor — principalmente por achar que teríamos milhares de outros...”;

A família de Taylor Edwards não é muito próxima – todos estão ocupados demais com seus afazeres –, mas, quase sempre, eles se dão muito bem. Quando o pai de Taylor recebe más notícias sobre a saúde dele, a família decide passar, todos juntos, o verão na casa do lago Phoenix.

Fazia cinco anos que eles não passavam o verão naquele lugar, que agora parece bem menor do que antes. E, apesar da tristeza, os momentos em família os aproximam novamente. Além disso, Taylor descobre que as pessoas que ela pensou ter deixado para trás continuam ali: sua ex-melhor amiga e seu primeiro amor (que está muito mais bonito do que antes). Com o passar do verão, e com os laços quase refeitos, Taylor e sua família tornam-se cada vez mais conscientes de que estão correndo contra o tempo diante da doença de seu pai. Mas, apesar de tudo, o aprendizado que fica é que sempre é possível ter uma segunda chance.


[Novos Autores] Um dia perfeito dentro de uma história rude | Por Davi Caldas


Lembro-me como se fosse hoje. Saí do metrô, atrasado. O coração batendo acelerado. Subi pela escada rolante e virei em direção à praça. De longe, avistei o lindo e altivo prédio do Teatro Municipal. A construção mais bonita do Centro da cidade. Andei neste rumo, passando os olhos por toda a praça. Eu estava de casaco, mas já começava a suar. Um sol tímido despontava no céu.

Há poucos metros do Teatro, no último banco da praça, ela estava sentada. Vestia uma calça roxa e uma camisa quadriculada de mangas compridas. Foi o combinado. Meu casaco era cinza. Ainda o tenho em casa. É um bom casaco. Acho que eu disse: "Cheguei!". Ela se virou. O meu primeiro pensamento foi: "Ela ainda é mais linda ao vivo". Era o nosso primeiro encontro.

Aqueles olhos verdes. Aquele modo de prestar atenção, com um sorriso de canto, bem discreto, e um sincero e meigo "uhuuum" estendido. Como eu amei aquela moça!

E tudo foi surreal. Como sempre foi. Como seria depois dela também.

É sempre um milagre conquistar a moça dos seus sonhos. A ficha demora a cair. Mas perder a moça dos seus sonhos torna tudo ainda mais estranho. Há coisas que parecem não ter acontecido, embora saibamos que elas foram tão reais quanto é o sol sobre nossas cabeças.

Para nos lembrar que essas histórias surreais foram também reais é que existe a memória. Em cada lugar, uma memória; e um mar de histórias. As praças, o restaurante japonês, cada pizzaria, cada shopping, cada estabelecimento, cada rua. Por onde passo, uma antiga ou recente memória de algum período belo de doces ilusões.

Nenhuma memória, no entanto, me impacta mais que aqueles olhos verdes. Nenhuma ilusão foi maior. E quanto maior a ilusão, maior também a desilusão.

Aqueles olhos verdes se foram e nos dois anos que se passaram depois disso, nada mais foi tão intenso. Talvez isso seja bom. Faz pouco mais de um mês que terminei um namoro recente. Uma decisão difícil, distante da minha vontade real, porém necessária e acertada. Pensei que ficaria depressivo. Mas o que vi foram semanas tranquilas e estáveis, em uma constância que eu não experimentava há pelo menos três anos, tanto em períodos sem compromisso, como em períodos nos quais estive comprometido. A motivação parece ter retornado com tudo. Tenho produzido bastante, me sentido leve emocionalmente e feliz. É estranho.

Apesar do fim (até o momento) de um longo período de desânimo frequente, com picos intensos e uma montanha russa emocional, as memórias nunca se vão. A maioria não causa mais qualquer sintoma.

São apenas memórias. Memórias estéreis. Outras, no entanto, geram profundas reflexões e, por vezes, um coração acelerado. Se é tristeza, saudade, perplexidade ou contemplação, eu não sei (Deus o sabe). O que nos impacta, seja bom ou ruim, tende a sempre mexer conosco de alguma maneira. Pelo menos, é assim comigo.

Hoje passei em frente ao Teatro Municipal, fazendo o mesmo percurso daquele memorável dia, uma quinta-feira. Não houve como não lembrar daquele banco, daquele primeiro olhar, daquele primeiro encontro.

Um dia perfeito dentro de uma história rude. E o que eu escolho fazer dessa lembrança hoje? Uma história perfeita... Dentro de um dia rude. Levemente rude.