sexta-feira, 18 de agosto de 2017

[Novos Autores] Um dia perfeito dentro de uma história rude | Por Davi Caldas


Lembro-me como se fosse hoje. Saí do metrô, atrasado. O coração batendo acelerado. Subi pela escada rolante e virei em direção à praça. De longe, avistei o lindo e altivo prédio do Teatro Municipal. A construção mais bonita do Centro da cidade. Andei neste rumo, passando os olhos por toda a praça. Eu estava de casaco, mas já começava a suar. Um sol tímido despontava no céu.

Há poucos metros do Teatro, no último banco da praça, ela estava sentada. Vestia uma calça roxa e uma camisa quadriculada de mangas compridas. Foi o combinado. Meu casaco era cinza. Ainda o tenho em casa. É um bom casaco. Acho que eu disse: "Cheguei!". Ela se virou. O meu primeiro pensamento foi: "Ela ainda é mais linda ao vivo". Era o nosso primeiro encontro.

Aqueles olhos verdes. Aquele modo de prestar atenção, com um sorriso de canto, bem discreto, e um sincero e meigo "uhuuum" estendido. Como eu amei aquela moça!

E tudo foi surreal. Como sempre foi. Como seria depois dela também.

É sempre um milagre conquistar a moça dos seus sonhos. A ficha demora a cair. Mas perder a moça dos seus sonhos torna tudo ainda mais estranho. Há coisas que parecem não ter acontecido, embora saibamos que elas foram tão reais quanto é o sol sobre nossas cabeças.

Para nos lembrar que essas histórias surreais foram também reais é que existe a memória. Em cada lugar, uma memória; e um mar de histórias. As praças, o restaurante japonês, cada pizzaria, cada shopping, cada estabelecimento, cada rua. Por onde passo, uma antiga ou recente memória de algum período belo de doces ilusões.

Nenhuma memória, no entanto, me impacta mais que aqueles olhos verdes. Nenhuma ilusão foi maior. E quanto maior a ilusão, maior também a desilusão.

Aqueles olhos verdes se foram e nos dois anos que se passaram depois disso, nada mais foi tão intenso. Talvez isso seja bom. Faz pouco mais de um mês que terminei um namoro recente. Uma decisão difícil, distante da minha vontade real, porém necessária e acertada. Pensei que ficaria depressivo. Mas o que vi foram semanas tranquilas e estáveis, em uma constância que eu não experimentava há pelo menos três anos, tanto em períodos sem compromisso, como em períodos nos quais estive comprometido. A motivação parece ter retornado com tudo. Tenho produzido bastante, me sentido leve emocionalmente e feliz. É estranho.

Apesar do fim (até o momento) de um longo período de desânimo frequente, com picos intensos e uma montanha russa emocional, as memórias nunca se vão. A maioria não causa mais qualquer sintoma.

São apenas memórias. Memórias estéreis. Outras, no entanto, geram profundas reflexões e, por vezes, um coração acelerado. Se é tristeza, saudade, perplexidade ou contemplação, eu não sei (Deus o sabe). O que nos impacta, seja bom ou ruim, tende a sempre mexer conosco de alguma maneira. Pelo menos, é assim comigo.

Hoje passei em frente ao Teatro Municipal, fazendo o mesmo percurso daquele memorável dia, uma quinta-feira. Não houve como não lembrar daquele banco, daquele primeiro olhar, daquele primeiro encontro.

Um dia perfeito dentro de uma história rude. E o que eu escolho fazer dessa lembrança hoje? Uma história perfeita... Dentro de um dia rude. Levemente rude.

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