segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Todos os pássaros no céu - Charlie Jane Anders | Editora Morro Branco


"- Somos adultos agora. Supostamente. E sentimos menos as coisas do que quando éramos crianças, porque temos muitas cicatrizes, ou nossos sentidos ficaram embotados." (p. 278)

Sob a lente dos óculos, o mundo parece disforme. Diante das escarificações, temos certeza disso. No livro de Charlie Jane Anders, tudo começa com o esvaziamento da infância, este intervalo entre o sonho e a crueldade de toda vida. Neste lugar despertencido, somos apresentados a Laurence e Patrícia, ainda crianças, que desde cedo compreenderam que o deboche, a inadequação e o pouco sorriso por vezes insistem em permanecer. Seja no ambiente da escola ou no interior da família, o cotidiano nem sempre é todo abraços, e a solidão de cada um passa a ter a cor de um teto vazio.

Na primeira parte do livro, o sofrimento de nossos personagens parece inevitável, e não é preciso conhecer poesia pra saber disso. Já no livro dois (a autora divide a história em quatro partes, e de algum modo segue uma cronologia), o choro já não cabe mais, e um sentimento amargo preenche os dias de Laurence e Patrícia, que buscam um no outro aquele amparo que o mundo esqueceu de lhes oferecer.

Por mais intenso e triste que seja este cenário, os dois primeiros livros-capítulos da autora são também repletos de belas reflexões sobre a natureza das coisas; é como se Laurence e Patrícia precocemente entendessem que é preciso suportar o inevitável, e superar a melancolia, para então habitar esse tal mundo a ser contruído por eles mesmos. Há toda uma expectativa pela vida adulta, onde, acredita-se, estaremos (Laurence e Patrícia e nós mesmos) libertos desta estação chamada sofrimento.

Em meados do Livro 2, a autora provoca um salto temporal em sua narrativa, de forma brusca até, infiltrando na história novos personagens e corpos e sensações, de modo que a ingenuidade da infância se apresenta agora como uma afeição desajeitada, meio assim inconsequente, que faz com que Laurence e Patrícia se tornem agora estranhos, embora desejantes, desejosos de carne, aceitação e sucesso.

Enquanto leitores, talvez haja estranheza nesta mudança de ambiente: se por um lado Patrícia encontra uma possibilidade de fuga e crescimento ao ingressar em uma nova sociabilidade (a saber: quando criança, a menina compreendia os seres da natureza, compartilhando até de sua linguagem, e de algum modo prevendo que a magia seria parte irrestrita de sua vida -- sim, cabe o parênteses: Charlie Jane Anders abraça toda uma "herança" J. K. Rowling em sua narrativa, inclusive inscrevendo Patrícia em uma escola de aprendizes de magos e bruxas), Laurence desenvolve habilidades científicas realmente admiráveis, ainda que possivelmente destrutivas (quando criança, Lau havia compreendido os princípios da robótica, além de desenvolver uma paixão por foguetes e realidades extraterrenas; quando adulto, no entanto, este conhecimento chegou aos limites da inconsequência); embora opostos em seus cotidianos e personalidades, ambos ainda guardavam esta "alguma coisa" que os unia; uma espécie de pertencimento indescritível.



O Livro Três permanece invocando distâcias temporais, ainda que apresente unicamente a vida quase adulta de Laurence e Patrícia. Novos personagens, novas cidades e um ou dois sentimentos antigos ainda escorregam pela narrativa, sempre a lembrar a luta de Laurence e Patricia pela invencibilidade e sobrevivência.

É preciso um apocalipse para restaurar a gentileza. E em Todos os pássaros no céu isto ocorre literalmente, especialmente quando chegamos ao quarto livro (sim, caros leitores, não chega a ser um spoiler, mas a desolação vivida na infância de nossos protagonistas se transforma em desastres nada metafóricos, e este é um ponto um tanto confuso da narrativa). No entanto, ao terminarmos a leitura, todo o sentimento de caos e exaustão proporcionado pela história (o quarto livro é extremamente intenso, seja através das dificuldades impostas à Patrícia em suas missões e taferas enquanto jovem bruxa, como na gestão de conflitos e cataclismas presentes na comunidade científica em que Laurence habita) se transforma em algo ainda mais esquisito: na penúltima página do livro, na seção de Agradecimentos, a autora simplesmente aponta o dedo para sua audiência e diz: "olha, se você não gostou ou não entendeu a história, acho que vou ter que desenhar pra você, né".

Certamente não posso afirmar as intenções de uma autora que conheci apenas ao longo de muitas páginas de ficção; no entanto, pareceu-me que as dores da autora, não esgotadas por meio de suas personagens, refletiu em um sentimento antecipado de defesa, em uma espécie de "muralha anti-críticas" tão (infelizmente) comum ao ambiente literário-criativo em que vivemos.


Em minha opinião, e só posso falar desta, uma obra literária de ficção (e literalmente de "ficção", com um inventário de bruxas e apocalipse e tudo mais) deveria continuar sendo apenas uma obra literária de ficção, e não incorrer em desamores próprios e/ou políticos de seus autores.

Em tempo: em um mundo onde um "aceita que dói menos" é o único argumento, a única réplica possível é um "não sou obrigada".

Enfim, não quero me estender neste desafeto, até porque Todos os pássaros do céu, apesar de seus muitos pesares, é ainda uma boa história, e merece nossa atenção. No entanto, até que a experiência me prove o contrário, permanece a insensibilidade da autora no trato com seus leitores. Vida que segue.

"Talvez eu esteja fazendo o que eu posso", respondeu Peregrino. "Talvez eu esteja tentando entender as pessoas, e ajudá-las a se apaixonarem seja um jeito de conseguir uma noção melhor de seus parâmetros. Talvez aumentar o nível agregado de felicidade no mundo seja uma maneira de tentar impedir a destruição". (p. 421)


Sinopse: Uma grandiosa história de amor, ficção científica e fantasia. Desde pequenos, Patrícia e Laurence tinham formas diferentes – e às vezes opostas – de enxergar o mundo. Patrícia podia falar com animais e se transformar em pássaros. Laurence construía supercomputadores e máquinas do tempo de dois segundos. Enquanto tentavam sobreviver ao pesadelo interminável da escola, seu isolamento se transformou em uma amizade cautelosa. Até que circunstâncias misteriosas os separam para sempre. Ou assim eles pensavam. Dez anos depois, ambos se reencontram em São Francisco. O mundo está prestes a implodir. Patrícia é formada em uma secreta escola de magia, e Laurence é um cientista tentando salvar a humanidade. A medida que os dois se reconectam, se veem levados a lados opostos em uma guerra entre ciência e magia. E o destino do mundo depende dos dois. Ou não. Uma profunda, mágica e divertida análise sobre a vida, o amor e o apocalipse.
domingo, 24 de setembro de 2017

Recebidos de Setembro | Editora Rocco e Ateliê Editorial


É primaveeeee-ra... (livros,) te amo! Bom demais começar uma nova estação com novos livros <3 Ainda mais porque em breve estarei em férias, então, hora de "fazer estoque" de leituras! :)

Nesta última semana chegaram dois lançamentos da Editora Rocco e um do Ateliê Editorial. Vamos conhecer estas novidades?


A Cidade Solitária - Olivia Lang

É possível ser solitário em qualquer lugar, mas há um sabor particular na solidão quando se mora em uma grande cidade. A princípio esse estado pode parecer incompatível com a vida urbana e a presença em massa de seres humanos, mas a mera proximidade física não é suficiente para dissipar a sensação de isolamento interno. Em A cidade solitária, Olivia Laing dá continuidade ao trabalho iniciado no celebrado Viagem ao redor da garrafa e volta a articular vida e arte para, combinando reportagem, literatura, biografia e relato pessoal, analisar a solidão a partir de obras de artistas que, em meio ao dia a dia intenso de uma metrópole, lidaram direta ou indiretamente com esse sentimento ou foram perturbados por ele – com destaque para Edward Hopper, Andy Warhol, David Wojnarowicz e Henry Darger. 

Aos 30 e poucos anos, a britânica Laing se viu sozinha em Nova York após uma desilusão amorosa. A partir da ausência, se viu abraçando a própria cidade – a miscelânea de mercearias, os rangidos do trânsito, as lagostas vivas na esquina na Nona Avenida, o vapor subindo pelas ruas. Na maior parte dos dias, fazia as mesmas coisas: sair para comprar ovos e café, caminhar sem rumo pelas ruas, sentar no sofá enquanto o vizinho de cima ouvia jazz a todo volume. Aos poucos, foi começando a perceber que sua aparência era como a de uma mulher pintada por Edward Hopper.

O que significa estar solitário? Como vivemos quando não estamos intimamente envolvidos com outro ser humano? De que forma nos conectamos com outros indivíduos? A tecnologia é capaz de nos aproximar ou simplesmente nos aprisiona atrás de telas? Habitada ainda por outros personagens, de Virginia Woolf a Alfred Hitchcock e Greta Garbo, A cidade solitária traz um texto provocativo, comovente e extremamente humano sobre os espaços entre as pessoas – que, inerentes ao ato de estar vivo, podem ser ocupados pelas estranhas e fascinantes possibilidades da arte. O livro foi considerado um dos melhores do ano por veículos como The Guardian, Observer, Telegraph, Times Literary Supplement, Elle e Slate.


TÔ FRITO! Uma coletânea dos mais saborosos desastres na cozinha
Luciana Fróes E Renata Monti

Todo cozinheiro tem uma boa história para contar. Afinal, a culinária é feita de imprevistos, escorregadas, receitas que desandam e que ganham vida própria. Frutos do acaso ou do descaso, quando vistos com outros olhos se transformam em acertos adoráveis. Do leite esquecido ao relento que virou queijo à luta de Dom Pérignon para controlar as borbulhas que fermentavam na garrafa e acabavam estourando. E o que dizer do confeiteiro de Luís XIV que, ao bater muito além da conta o creme de nata com açúcar, deu origem ao chantilly? Na gastronomia brasileira, não é diferente e, vira e mexe, um erro – ou mais de um – vira um acerto. Antes, porém, o desespero que antecede o sucesso vem na forma de um “Tô frito!”, como Claude Troigros costuma exclamar quando passa por situações como essa, com direitos a infinitos erres de seu sotaque francês.

Tô frito! – Uma coletânea dos mais saborosos desastres na cozinha, lançamento do selo Bicicleta Amarela, reúne histórias tão deliciosas quanto os imprevistos na cozinha. O livro é um apanhado de erros que acontecem nesse fascinante mundo da alquimia de odores e sabores, alguns bem-sucedidos, outros nem tanto, que foram parar nos cardápios dos melhores restaurantes brasileiros. Uma coletânea de histórias contadas em primeira pessoa por 20 chefs de destaque, em depoimentos às jornalistas Luciana Fróes e Renata Monti Barreto, que, sem qualquer pudor e com bastante humor – ressaltado nas ilustrações de Paulo Villela –, dividem as saias-justas que encaram todos os dias. 

Além de desastres que viraram sucesso, o livro reúne contos e causos ligados ao mundo da gastronomia. O veterano José Hugo Celidônio, que além de chef é ótimo contador de histórias, jamais irá esquecer da vez em que, ao servir frango com cogumelos em papillote (com os cogumelos envoltos em papel-manteiga) viu o casal que pedira o prato devorar tudo! e se deliciar com o papel... Já o empresário do ramo de gastronomia e hotelaria Rogério Fasano quase fora preso ao “contrabandear” uma espécie de minialcachofras que trouxera de Veneza, tudo na vontade de inovar e apresentar novos produtos e sabores aos brasileiros. O que se percebe na leitura de Tô frito! é que, mais que obras do acaso, o sucesso está principalmente na habilidade de seus criadores em lidar com ele e transformar um desastre em uma grande e inesquecível delícia.



Uma leitura reservada até então às crianças e fora de catálogo há muito tempo chega ao público adulto brasileiro: vinte narrativas em imagens e versos criadas nas décadas de 1860/1870 pelo clássico alemão Wilhelm Busch, precursor das histórias em quadrinhos, e traduzidas pelo poeta Guilherme de Almeida nos anos 1940 se tornam novamente acessíveis numa edição bilíngue, comentada e acrescida de manuscritos de tradução. Os virtuosos desenhos do artista, impressos em preto e branco, como em suas primeiras reproduções xilográficas para semanários humorísticos de Munique, dialogam com poemas reveladores de grande domínio da arte versificatória, tanto no original alemão quanto na recriação em português, gerando um elaborado jogo de assimetrias entre palavras e imagem.

Um pouco de história: Em 1857, o estudante alemão Wilhelm Busch, então com 25 anos, interrompeu seus estudos de pintura pela terceira vez – após experiências decepcionantes nas escolas superiores de arte de Düsseldorf, Antuérpia e Munique – e cogitou a possibilidade de emigrar para o Brasil, a fim de se dedicar à apicultura. No entanto, ele só chegaria a este país catorze anos depois, não em pessoa, mas por meio de seus poemas humorísticos ilustrados. Histórias Burlescas e Instructivas, em Versos Coxos Esdruxolos, e de Pé Quebrado se intitula a obra com três histórias buschianas, publicada no Rio de Janeiro, em 1871, pela Typographia Universal Laemmert, fundada por dois irmãos alemães na década de 1830. 

Exatamente três decênios após essa estreia, da qual hoje restaram muito poucos indícios, o hábil versificador alemão teria a sorte de ser traduzido por Olavo Bilac (sob o pseudônimo de Fantásio), numa publicação da
mesma editora Laemmert. A presente edição bilíngue reúne os poemas narrativos de Busch traduzidos por Guilherme de Almeida. Seu propósito é, por meio de um aparato crítico aos textos originais e às suas respectivas traduções, resgatar a recepção de Wilhelm Busch do âmbito da literatura estritamente infanto-juvenil, ao qual não se pode reduzir sua arte.


E você, já conhecia algum destes lançamentos? :)


Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá - Lima Barreto | Ateliê Editorial | Por Mich Fraga


E já temos mais uma resenha no canal! O autor da vez é o carioca Lima Barreto que em 1919 publicou Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Lima Barreto foi um dos mais brilhantes autores que o Brasil já teve! Confiram minhas impressões sobre essa obra marcante e numa edição totalmente caprichada pelo Ateliê Editorial :)


Sinopse: O velho Rio de Janeiro se desfigurava com a modernização urbana do início do século XX. Com ela, os valores tradicionais também se transformavam. Gonzaga de Sá é atingido pelas drásticas mudanças. Sua inadaptação o leva a questionar criticamente o que vê, sente e pensa. A vida desse obscuro funcionário, culto e sensível, em meio à mediocridade de um poder público ridículo e nefasto, bem como de uma sociedade frívola e hipócrita, é marcada por longas caminhadas pelas ruas da cidade, a contemplar a rápida destruição da paisagem urbanística antiga e a meditar sobre o surgimento de um mundo em que a alienação humana mais e mais se acentuava, um mundo em que não encontrava mais lugar para si. A Coleção Clássicos Ateliê publica esta nova edição do romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, com texto fidedigno, depurado e estabelecido com o rigor exigido pela metodologia da crítica textual. Um minucioso e lúcido estudo sobre o romance, exclusivo desta edição, é assinado por Marcos Scheffel. Mestre em literatura brasileira, doutor em teoria da literatura, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista na obra de Lima Barreto, Marcos Scheffel, além da leitura analítica e interpretativa de seu ensaio de apresentação da obra, esclarece e comenta aspectos do texto, com proficiência e pertinência, por meio de cerca de quatrocentas notas explicativas.Sugestivas ilustrações do artista plástico Kaio Romero também enriquecem esta edição, com que a Ateliê Editorial homenageia o célebre escritor carioca e, com orgulho, oferece aos leitores. 


Sobre o livro: Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é um caso raro na literatura brasileira. Apesar de escrito por um dos mais importantes autores nacionais, é um livro pouco lido, pouco conhecido, pouco estudado e pouco editado. No ano em que Lima Barreto é escolhido o autor homenageado da FLIP – Festa Literária de Paraty – a Ateliê Editorial repara este equívoco e lança, em uma edição especial, o romance.

O volume organizado por Marcos Scheffel, professor da UFRJ, traz um texto introdutório com importantes informações ao leitor que ainda não teve contato com a obra: histórico da publicação, um resumo sobre  atuação de Lima Barreto como cronista, um estudo sobre os personagens, informações literárias e as razões sobre as quais esta é uma obra que quase caiu no esquecimento.

Lima Barreto iniciou o projeto de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá em 1906, mas o livro só foi publicado mais de uma década depois, em 1919. Isso porque, com dois projetos de romances em mãos – Vida e Morte e Recordações do Escrivão Isaías Caminha – o carioca resolve apresentar Recordações para seu editor. A razão está em uma carta de Lima Barreto a Gonzaga Duque: “Era um tanto cerebrino, o Gonzaga de Sá, muito calmo e solene, pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas sincero sempre”.

De fato, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é um romance com um enredo mínimo  e voltado a questões filosóficas e existenciais. O narrador, Augusto Machado, assume uma postura de discípulo de Gonzaga de Sá, um velho funcionário público, e faz do romance uma espécie de uma biografia deste, reproduzindo conversas  sobre vários temas do cotidiano da cidade e sobre as reformas urbanísticas que estavam em curso no início do século na cidade do Rio de Janeiro. Neste ponto: “Lima Barreto apresenta no livro uma visão histórica que se opunha à visão Positivista (teleológica) que predominava em nosso meio intelectual. Quando havia um coro favorável a soterrar nosso passado colonial, ele trazia uma noção relativa do belo e de uma história que não devia ser lida de maneira linear”, explica o organizador.

Apesar da morte prematura, aos 41 anos, o legado de Lima Barreto à literatura brasileira é de grande importância. Por isso, discutir sua obra e colocar sua produção literária à disposição do público é bastante significativo. “[...]Vida e Morte não mereceu tanta atenção da crítica, dos leitores e do mercado editorial – gerando uma espécie de ciclo de esquecimento. Espero que a partir desta edição possamos ver novos estudos sobre esta importante obra”, conclui Scheffel.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Então você voltou... | Uma crônica de Regiane Medeiros


Então você voltou...

A escolha de ir embora foi sua. Eu lamentei, mas depois superei e cheguei a aceitar que era melhor assim, afinal nós dois queríamos coisas muito diferentes naquele momento.

Eu resisti bravamente à vontade de continuar sabendo o que você estava fazendo e agi da mesma maneira que nas ocasiões anteriores a essa: me desvinculei completamente de você, desabilitando seus contatos da minha agenda e excluindo as redes sociais que compartilhávamos. Apaguei as mensagens trocadas, deletei a maior parte das fotos (deixei uma ou duas, somente para me lembrar do que foi bom e de como eu fiquei no final, para não cair na onda de outro igual a você). Parei de pensar em você quando me deitava. Deixei de esperar que você sentisse saudade e me procurasse.

O tempo passou e você se tornou uma mera lembrança, mais um aprendizado na minha vida. E achei que estava tudo certo, que eu estava no caminho que devia seguir mesmo, sempre em frente.

Agora você volta e bagunça minha cabeça, me fazendo duvidar de minhas decisões, dos meus sentimentos. Porque tava tudo bem com você em silêncio, eu achava que estava tudo bem...  

Você podia facilitar e ter agido como a maioria, lançando um “oi sumida”, como se nada tivesse acontecido e eu que tivesse evitando você. Isso automaticamente me faria ter raiva de você e expulsar você definitivamente da minha vida, como se não houvesse existido... Mas, não. Como sempre, você sabe a coisa certa a dizer, me confundindo, me fazendo pensar em coisas que eu já não vislumbrava há muito tempo.

E aí, some de novo, me deixando na dúvida se foi uma breve recaída ou se foi uma isca jogada para que eu ficasse curiosa e decidisse dar o passo seguinte e te procurar. Aí vem aquela leve aflição de que talvez eu esteja interpretando tudo errado mais uma vez e de novo, eu não sou eu mesma por causa de você. 

Gostaria de concluir que você já não me afeta, mas não posso mentir para mim mesma. Ainda não entendo porque ouço seu canto de sereio, se já sei como vai terminar essa história. Eu, com mais algumas rachaduras no peito, algumas lágrimas desperdiçadas e a sensação de impotência diante de algo que não posso mudar. Mas, é praticamente impossível ignorar o apelo que vem daqui de dentro... Aquele que diz que pode ser diferente dessa vez.

Porque a gente insiste em acreditar? Porque precisamos ceder a essa louca esperança de que pode sim, finalmente ser diferente? No fundo, sabemos a resposta. Nosso coração não suportaria a certeza de que tudo sempre pode dar errado, ainda que as probabilidades sejam imensas e as estatísticas da vida sempre corroborem para isso.

Ainda não sei o que fazer a seu respeito. Não sei o que fazer com o que sinto. Não sei o que fazer comigo. Só quero me sentir eu mesma de novo, com ou sem a sua presença na minha vida.

“Fiz de mim descanso pra você
Te decorei, te precisei
Tanto que esqueci de me querer
Testemunhei o fim do que era agora

Agora eu quero ir
Pra me reconhecer de volta
Pra me reaprender e me apreender de novo
Quero não desmanchar com teu sorriso bobo
Quero me refazer longe de você”
 
Agora eu quero ir, Anavitória – Forasteiro, 2016.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017

[Unboxing] TAG Experiências Literárias - caixa de setembro | Por Mich Fraga


Pra curar a ressaca da Bienal, nada como receber em casa mais uma caixinha da TAG Experiências Literárias

Para quem não sabe, a TAG é um serviço de assinaturas de mistery box de alta literatura. E o que isso significa? Significa que todo mês virá um livro considerado de alta qualidade literária pelo curador do mês, geralmente são clássicos, mas isso não é uma regra.


Vamos conhecer então a caixinha de setembro da TAG Experiencias Literárias? Confira o vídeo:



E você, já conhecia a TAG?

Beijos e até a próxima.
Mich


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Mulher que matou os peixes - Clarice Lispector | Editora Rocco | Por Michelle Fraga




Publicado originalmente em 1968, A mulher que matou os peixes é um livro sobre perdas, animais e sobre nossa relação com a culpa e a verdade. No enredo, a própria Clarice é a protagonista. Em certa ocasião, ao deixar os peixinhos de seu filho morrerem, Clarice inicia uma retrospectiva de todos os animais que já fizeram parte de sua vida, tanto os de estimação quanto os que surgem de forma inesperada em nossa casa e caminho, como os insetos, por exemplo. Apesar de ser conhecido como uma história para crianças, A Mulher que matou os peixes é uma história que inquietará leitores de todas as idades!
 

Ah! A Editora Rocco tem em seu catálogo duas edições desta obra de Clarice, sendo uma destas em capa dura e com ilustrações da artista Mariana Vallente. A edição que está no vídeo foi publicada em formato brochura pelo selo Rocco Jovens Leitores (compartilhamos algumas imagens no fim deste post).

Conheça mais dessa história assistindo a vídeo-resenha que a Mich preparou pra gente:


Sinopse: "A mulher que matou os peixes infelizmente sou eu." Clarice Lispector começa confessando o "crime" que cometeu sem querer. E para explicar como tudo aconteceu, ela escreveu uma história de compreensão e afeto, contando sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa. Os que vieram sem ser convidados e foram ficando, e os que ela escolheu para criar, e que foram muitos: uma lagartixa que comia os mosquitos e mantinha limpa a sua casa, cachorros brincalhões, uma gata curiosa, um miquinho esperto, vários coelhos...

Antes de mais nada, ela explica que sempre foi alguém que gosta de animais, de crianças e também de gente grande. Todos os bichos que aparecem em seus livros fizeram, em algum momento, parte de sua vida. Nada mais natural, então, do que contar simplesmente o que aconteceu com cada um deles. Por isto mesmo, estas histórias são narradas de modo coloquial e muito próximo do cotidiano infantil. Mesmo quando ela fala sobre dor e perda, quando explica que, às vezes, as coisas acontecem diferente da maneira que queremos.

Clarice mostra, em A mulher que matou os peixes, que além de conhecer muito de perto o universo infantil, é alguém que sabe conversar com crianças com extrema sensibilidade. Ela trata os sentimentos com toda a delicadeza e fala direto ao coração.


domingo, 17 de setembro de 2017

Drácula - Bram Stoker | Editora Martin Claret | Texto por Regiane Medeiros


E para finalizar a leitura da edição especial Clássicos do Terror da Editora Martin Claret, vamos falar sobre Drácula, escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897, e que atualmente encontra-se em domínio público, sendo acessível em língua inglesa em diversas bibliotecas online. Embora não seja a primeira história escrita sobre vampiros, definitivamente foi a que os popularizou e tornou-se a maior referência sobre esses seres que sempre despertam curiosidade, fascínio e uma atração irresistível.

Jonathan Harker, jovem advogado inglês, faz uma viagem à Transilvânia para tratar de negócios jurídicos com o cliente do escritório para o qual trabalha, o Conde Drácula. O início da viagem de Jonathan já começa cheia de mistérios, pois ao chegar ao vilarejo de Bistritz, na região dos montes Cárpatos em um local remoto da Europa, acaba conhecendo um pouco sobre a história local e as superstições daquele povo, tão diferentes do que ele está acostumado na Inglaterra. Tais superstições se aplicam inclusive ao próprio Conde, nobre senhor da região.

“Quando lhe perguntei se conhecia o Conde Drácula e se poderia dizer-me algo sobre seu castelo, tanto ele como sua esposa se benzeram e, dizendo não saber absolutamente nada, simplesmente se recusaram a prosseguir com a conversa” – pág. 234.

Inicialmente encantado com o local e a educação do Conde, Jonathan acaba um pouco deslumbrado com o requinte e a aparente riqueza que o cerca, ainda que durante o caminho que percorreu até chegar ali, tenha passado por tantas situações estranhas que já deveriam ter lhe alertado de que algo estava muito errado com seu anfitrião. Mas é difícil ser indiferente à figura imponente e nobre do Conde, principalmente quando seu diálogo é tão rico e cheio de sentimentos.


“Não procuro alegria e prazeres nem desejo a ardente voluptuosidade de muito sol e de águas brilhantes que agradam aos jovens e alegres. Já não sou jovem e meu coração, cansado de chorar durante anos os mortos, não se adapta aos prazeres. (...) Amo a escuridão e a sombra, e gosto de ficar a sós com meus pensamentos, quando possível” – págs. 250 e 251.

Mas Jonathan não demora a perceber que tem algo sinistro acontecendo ao tentar explorar o castelo e descobrir que todas as portas de acesso ao lado externo, se encontram trancadas, bem como a ausência de criados, tendo observado sorrateiramente o Conde fazendo alguns serviços domésticos. Em um estalo, o jovem percebe que é um prisioneiro do castelo. Com essa constatação, suspeitas sobre o anfitrião começam a surgir, especialmente ao se dar conta de que Drácula nunca se alimenta durante as refeições, parece nunca dormir em um horário socialmente aceitável e não apresenta reflexo ao espelho: “Súbito, senti que alguém colocava a mão sobre meu ombro e ouvi a voz do Conde, que me desejava bom dia. Assustei-me, pois me perturbava o fato de que não o vira, uma vez que o espelho refletia todo o aposento atrás de mim.(...) Tendo respondido ao cumprimento do Conde, voltei-me para o espelho novamente, a fim de verificar como me enganara. Porém desta vez não havia possibilidade de erro: o espelho não revelava homem algum junto de mim, mas eu podia vê-lo sobre o meu ombro! Todo o quarto atrás de mim se projetava no espelho, porém nele não havia sinal de homem, a não ser eu mesmo. Isso era assustador e, somado a tantas outras coisas fantásticas, principiava a aumentar aquela vaga sensação de insegurança que eu sempre sentia quando o Conde estava próximo” – pág. 252.

Vendo-se prisioneiro, Jonathan começa a arquitetar formas de se libertar antes que se torne alvo de um destino que ele não consegue identificar, mas que pressente e do qual quer se esquivar, apegando-se a objetos que lhe foram entregues por pessoas no caminho durante a sua viagem até o castelo: “Por que me haviam dado o crucifixo, o dente de alho, a rosa silvestre e o cornogodinho? Abençoada seja aquela bondosa mulher que pendurou este crucifixo ao meu pescoço! Ele me proporciona consolo e força sempre que o toco” – pág. 254.

A partir de então, segue-se uma série de descobertas que vai levar Jonathan ao limite da sanidade mental e física, em uma busca frenética para colocar fim ao reinado de horror que Drácula começa a impor à Londres. Durante essa empreitada, ele vai contar com a ajuda de  Abraham Van Helsing, professor de antropologia e filosofia, especialista em doenças obscuras, além de ser um cientista de métodos pouco ortodoxos, fazendo uso de símbolos religiosos para derrotar seus inimigos, bem como de alguns amigos e da própria esposa, Mina, que durante um tempo acaba sendo acometida por uma “maldição”, que a conecta psiquicamente ao Conde Drácula e dessa ligação é que surge a inspiração para um plano que pode finalmente, livrá-los do mal que os cerca.

Dos três romances clássicos do terror que li, esse foi o mais difícil, não apenas por ser o mais longo, mas por algumas características que tornaram a leitura mais lenta, ainda que os acontecimentos me instigassem a prosseguir. O livro é todo narrado através de epístolas escritas pelos personagens, relatos em diário, jornais e registros de bordo, mas tudo era tão detalhado (inclusive o conteúdo das refeições feitas por Jonathan, por exemplo), que eu às vezes voltei alguns trechos para ter certeza de que não tinha deixado passar nada de importante, tamanha a minha distração durante a leitura.


Apesar disso, a linguagem do texto não é tão formal e teve uma ou outra palavra apenas que eu precisei buscar o significado ou do que se tratava, para entender, por isso a leitura também não é complexa de se fazer, é apenas um pouco cansativa. Mas isso só dura até começar a ação de verdade, a caçada ao predador mais temido dentre os seres sobrenaturais, pois a partir de então, a leitura é fluida e instigante. 

Eu gostei muito do fato do autor ter incluído entre os protagonistas da história, mulheres que não fizeram apenas figuração, elas participaram ativamente de todo o enredo e isso foi muito positivo em se tratando de uma obra do séc. XIV, onde a maioria dos enredos dá preferência aos narradores masculinos, bem como o protagonismo das histórias, mesmo escritas por mulheres, acabava caindo também sobre o gênero masculino.

Outro ponto positivo, foi que mesmo conhecendo a história e tendo visto muitas versões cinematográficas, a obra é surpreendente e digna do status de obra referencial de terror, apresentando surpresas e momentos realmente assustadores, quando comparada aos outros dois enredos lidos anteriormente.

Espero que vocês tenham curtido essa nossa viagem ao mundo clássico do terror e que apreciem essas leituras, que já se tornaram atemporais. Nós aqui, aguardamos quais serão as próximas apostas da Editora Martin Claret no nicho da literatura clássica.

Beijinhos, até breve!
Gih



Nesta edição, reunimos três clássicos do terror mundial. Frankenstein (1818), da autora inglesa Mary Shelley, tornou-se um dos maiores clássicos da literatura de terror e conta a história do dr. Victor Frankenstein. Essa história ficou imortalizada no teatro e no cinema em várias adaptações. O médico e o monstro (1886) aborda a dialética dos valores morais em forma assombrosa e vai além do bem e do mal da alma humana. O escritor escocês Robert Louis Stevenson impregnou neste romance um forte clima de apreensão, suspense, terror e perplexidade, que garantem a atenção do leitor do início ao fim. O romance gótico Drácula (1897), do autor britânico Bram Stocker, narra a história do Conde Drácula, vilão morto-vivo da Transilvânia, que se tornou o típico representante do mito do vampiro. Tradutores: Roberto L. Ferreira, Cabral do Nascimento, Maria L. L. Bittencourt.
 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cenas Londrinas - Virginia Woolf | Editora José Olympio


"Que estranho é ser uma mulher do campo depois de tantos anos sendo uma londrina típica! É possível que esta seja a primeira vez em minha vida que não tenha um teto em Londres... Você nunca compartilhou de minha paixão por essa grande cidade. No entanto, em algum nicho estranho de minha mente sonhadora, ela é tudo quanto representa Chaucer, Shakespeare, Dickens. Eis o meu único patriotismo." (trecho de carta de V. Woolf à sua amiga Ethel Smyth)

Em uma coleção de ensaios, Virgina Woolf tece impressões de sua cidade. Por sua atenção aos detalhes, até a menor das passagens tem a grandiosidade de uma travessia. Escritos entre 1931 e 1932, a memória afetiva da autora retrata o ritmo das manhãs e o das marés, em versos que circulam pelas docas do East Side, por catedrais e abadias, pela história de homens extraordinários e comuns, assim como pelo burburinho dos mercadantes e das mercadorias da Oxford Street. 

Nos relatos de Virgínia, a beleza de Londres está em sua grandiosidade, que é também sinônimo de vida breve e passageira. Porque é preciso que haja multidão para entender-mo-nos e sozinhos, e esta condição de exílio era todo o coração de Virgínia. Seja em Londres ou em sua cidade literária, a autora alimenta a saudade das imagens que um dia a seduziram, assim como a melancolia diante daquilo que, em sua percepção, a todo momento se desfazia.

Nestas cenas de Londres e Virgínia, o que permanece é uma ambígua incompletude: enquanto literatura, a cidade é uma metáfora de confronto e vida, e desta vida que exaspera em seu próprio sono e viço; enquanto morada de quem a tudo sobrevive, a literatura é o que nos faz tomar partido, e eventualmente partir: "Por tempos imemoriais, Londres tem estado ali, uma cicatriz mais e mais profunda naquela extensão de terra, cada vez mais inquieta, encaroçada e tumultuada, marcada de modo indelével. E ali jaz em camadas, em estratos, eriçando-se, ondulando, (...) justamente ali, onde naquele exato instante o rapaz de sempre senta-se num banco de ferro abraçando a moça de sempre."


"Assim, para conhecer Londres não apenas como um espetáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colméia de indústria, mas como um lugar onde as pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e atuam, mandam e legislam, era essencial conhecer mrs. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. (...) Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. (....) E Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade." (trecho de Retrato de uma londrina)



Cenas londrinas compila seis crônicas nas quais Virginia Woolf confirma sua paixão por sua cidade natal. Virginia faz um retrato da década de 1930 ao observar o encanto da moderna Londres. Ao se deslocar para a perspectiva tanto de grandes homens quanto de cidadãos comuns, a autora oferece uma visão original, clara e atraente do movimento orgânico das ruas.

Inicialmente publicado com cinco narrativas – produzidas entre 1931 e 1932 –, a este volume se soma a crônica descoberta na biblioteca da Universidade de Sussex, em 2005. É como se Virginia estivesse conduzindo o leitor por um passeio, começa nas docas de Londres, depois migra para o tumultuado comércio ambulante da Oxford Street, prossegue com um curioso giro por endereços de grandes homens – em busca de escritores ilustres. Há a contemplação das catedrais de St. Paul e de Westminster, e a visita à casa de Keats, em Hampstead. Por fim, o olhar se fixa na figura típica da mulher de classe média inglesa, para Ivo Barroso, “a visão de um microcosmo representativo de toda uma nacionalidade”.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Retrospectiva Bienal do Livro 2017 | Por Mich Fraga


A Bienal do Livro infelizmente chegou ao fim, mas foram 11 dias de experiências incríveis. Pude conhecer autores que eu admiro e, também, tive a oportunidade de encontrar diversos leitores do blog. Foram dias que jamais esquecerei.

Durante esse período eu tive a oportunidade de gravar vlogs e compartilhei com vocês um pouco de tudo que vi por lá.


No primeiro vlog eu mostro um pouco mais da feira em si, além de entrevistar autores veteranos e novatos que estavam lançando suas obras.

No segundo Vlog mostro um pouco de como é a correria e o esquema de distribuição de senhas para autógrafos. Como de costume, não poderia faltar as entrevistas com os autores que eu tanto adoro e que foram super solícitos ao nos conceder seu tempo para responder algumas perguntinhas... Ah, no final do segundo vlog, compartilho com vocês a experiência sensacional de conhecer pessoalmente o Maurício de Sousa! Confiram!


E vocês, tiveram a oportunidade de ir à Bienal? O que acharam?

Não esqueçam de se inscrever no canal, pois em breve teremos um super sorteio!

Beijos e até a próxima.
Mich

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Senhora de Wildfell Hall - Anne Brontë | Editora Record | Texto por Regiane Medeiros


Muitos são os motivos que me levam a me interessar por uma leitura. Se o livro é um clássico da literatura, meu interesse redobra, especialmente se a tal obra não é muito conhecida, embora o sobrenome do autor seja um dos mais notórios quando se trata de literatura inglesa. Afinal, quem nunca ouviu falar das irmãs Brontë? Certamente muitos leitores conhecem Emilly, autora de O Morro dos Ventos Uivantes e seu trágico Heathcliff. Também devem conhecer ou ter ouvido falar ao menos, de Charlotte e o brilhante Jane Eyre. Mas pouca gente conhece a irmã mais nova, Anne, que assim como as irmãs mais velhas, iniciou sua carreira literária fazendo uso de um pseudônimo masculino, algo bem recorrente na Europa do séc. XIX.

Anne escreveu apenas dois livros: Agnes Grey, que é o mais conhecido e A Senhora de Wildfell Hall, objeto de minhas atuais reflexões. O fato mais curioso a respeito dessa obra e que obviamente, me fez ansiar ainda mais por essa leitura, foi a descoberta de que o texto foi condenado pelas próprias irmãs de Anne. A família Brontë foi quase toda dizimada pela Tuberculose e Anne morreu precocemente vítima desse mal antes de Charlotte, que ficou com os direitos da obra literária das irmãs, impedindo a publicação desse texto específico, considerando-o como muitos críticos na época, exagerado e contundente na descrição das relações desproporcionais entre homens e mulheres. O texto só veio a ser republicado em 1855 após a morte de  Charlotte, mas quando viva, Anne escreveu um prefácio para a segunda edição, após ter sofrido reprimendas sobre a forma e tema de sua escrita, onde explica seus motivos para abordar o assunto e sua maneira para isso, deixando claro que tudo o que envolve o enredo se trata de observações da vida real e que seu maior desejo com essa abordagem, é o de que o leitor aprenda e não repita os erros expostos de seus personagens:

“Meu propósito ao escrever as páginas seguintes não foi apenas divertir o leitor; tampouco satisfazer meu próprio gosto ou ganhar as boas graças da imprensa ou do público: meu desejo era relatar a verdade, pois a verdade sempre comunica sua própria moral para quem é capaz de absorvê-la(...). Que não se imagine, no entanto, que eu considere ter competência para reparar os erros e abusos da sociedade, mas que deseje contribuir com minha humilde cota para um propósito tão bom; e que, se os ouvidos do público estão voltados para mim, prefira sussurrar neles algumas verdades saudáveis a bobagens sem sentido” – prefácio à segunda edição, presente na edição integral publicada pelo Grupo Editorial Record.

A história retrata a jornada de Helen Graham, jovem viúva que se muda para Wildfell Hall, propriedade que fica em alguma cidade rural da Inglaterra. Sua chegada, gera especulações por parte da vizinhaça, já que a mesma não cumpriu os rituais sociais de visitar e se apresentar aos vizinhos, nem foi à igreja no primeiro domingo após a sua mudança. Intrigados, os moradores das redondezas começam a fazer visitas à nova vizinha, em busca de informações sobre sua vida e rotina, geralmente saindo frustrados desses encontros, já que a sra. Graham é muito discreta com relação ao próprio passado e não esconde o desejo de ficar sozinha quando assim o deseja.

Entre os vizinhos intrigados, encontra-se Gilbert Markham, um jovem fazendeiro que assume o cuidado das terras da família com as próprias mãos, cultivando e fazendo melhorias em suas terras junto com os empregados. À primeira vista, há um choque não apenas cultural como também de opiniões entre Gilbert e Helen, gerando um estado de tensão, sempre que há a necessidade de um encontro e conversa entre ambos.

“’É bem como eu achei’, pensei com meus botões. ‘O temperamento dessa senhora não é dos mais afáveis, apesar de seu rosto doce e pálido e da testa imponente, onde a reflexão e o sofrimento parecem ter deixado marcas igualmente fundas’” – pág. 36.


O mal-estar entre eles, começa a se dissipar a partir do momento em que Arthur, filho da sra. Graham demonstra simpatia e uma certa predileção pela companhia de Gilbert durante os encontros sociais a que comparecem, fazendo com que os jovens sejam mais amistosos um com o outro e uma genuína admiração surja no coração de Gilbert, ao constatar que se precipitou em suas opiniões a respeito de Helen.

“Nos casos de amor, não há mediador melhor do que uma criança alegre, de alma simples – sempre pronta a unir corações separados, a construir uma ponte sobre o abismo hostil do costume, a derreter o gelo da reserva e a destruir as muralhas da formalidade e do orgulho” – pág. 96.

Com a passagem do tempo, uma delicada amizade surge entre eles e Gilbert descobre na sra. Graham uma mulher culta, que quer ter uma vida comandada por si própria, sustentando a si e ao filho com o que ganha vendendo obras que ela mesma pinta, encantando-o com sua sensibilidade e destreza ao transpor para as telas, paisagens que ele conhece desde sempre, mas que agora vê com outros olhos ao enxergá-las pelo olhar da mulher que vem conquistando seu coração ao demonstrar força de caráter, uma moral elevada e uma maturidade para ensinar o caminho do bem ao filho, como ele nunca viu em nenhuma mulher de seu convívio. Aliás ao comparar Helen com as demais, percebe o quão fúteis e rasas elas são, perto da mulher que possui um olhar da vida cheio de uma sabedoria que geralmente só quem já viveu muito e passou por muitas provações tem.

É claro que não demora e o comportamento da sra. Graham, a sua severidade ao condenar determinados costumes, como o consumo de álcool ainda que com moderação e a insistência em privar seu filho de experimentar determinadas situações, leva a um falatório maldoso por parte daqueles que tentam, mas não conseguem adentrar a muralha que ela ergueu sobre seu passado e nosso jovem apaixonado, crente de que tudo o que dizem a respeito dela não passa de mentiras, a defende ardentemente, levando os demais a suspeitar de seus sentimentos para com a viúva. Sentimentos, que ela conhece, mas prefere ignorar até quando é possível e quando finalmente Gilbert não consegue mais guardar o que sente para si, Helen toma a decisão de contar a ele seu passado, para que então ele decida se ela é digna de seu afeto ou não.

“É possível olhar nos olhos de alguém, ver o coração da pessoa e descobrir mais sobre a altura, a largura e a profundidade de sua alma em uma hora do que em uma vida inteira, se o outro não estiver disposto a revelá-la ou se você não tiver a inteligência de compreender o que vê” – pág. 102.

Mas essa conversa não chega a acontecer, devido a um acontecimento que deixa Gilbert atormentado por dúvidas e frustração, que ele ao invés de tentar elucidar, prefere tratar Helen com o mesmo desprezo que condenou em seus pares anteriormente. Após um desentendimento entre eles, Helen entrega a Gilbert seu diário, pendindo que ele o leia e só então a procure, para que eles conversem a respeito. Porque é claro que Helen tem um passado, do qual foge para salvar a si e ao filho e que pretende esconder de todos. Exceto de Gilbert.


Anne Brontë, de fato é uma autora contundente em suas palavras. Através de Helen, podemos ter um vislumbre de tudo o que ela reprovava no comportamento das pessoas, na pequena sociedade em que vivia, bem como do horror que ela provavelmente presenciou para falar com tanta propriedade de relações tóxicas, sejam elas entre um casal, sejam entre os membros de uma comunidade. Sua narrativa é instigante, falando diretamente conosco através das cartas emitidas por Gilbert para o cunhado, onde ele descreve todos os acontecimentos e os próprios sentimentos em relação a tudo o que aconteceu desde a chegada de Helen Graham à vizinhança, não nos poupando de nada do seu temperamento que varia entre o extremamente feliz até o miserável torturado pela dúvida. 

Dono de uma personalidade intensa, Gilbert vive tudo muito ao extremo e nos leva junto com ele na jornada que mudou seu coração e sua vida. De um jovem irreverente, que não se preocupa muito com os sentimentos dos outros, ele se transforma em um homem maduro, consciente do seu papel na sociedade e na família, enxergando e tentando corrigir os próprios erros e defeitos, a fim de se tornar uma pessoa não só digna de ser amado, mas também um homem digno de ser respeitado.

Quanto à Helen, é impossível não ter empatia imediata com ela. Delicada, mas firme, ela não tem tempo nem paciência para alimentar relações vazias. Atua em sociedade quando é preciso, para que o filho não seja alvo de ostracismo, mas não faz muita questão de companhias que em nada lhe acrescentam. Com sua atitude honesta, acaba sendo confundida com alguém cheia de soberba e pompa, que quer ser superior aos outros, mas diante desse julgamento, ela simplesmente se retira e ensina o filho a fazer diferente das pessoas que a julgam erroneamente, preparando-o para o mundo ao invés de deixá-lo sofrer as consequências de atos impensados.


Os personagens secundários são muito bem elaborados e dão o suporte necessário para que a trama, que é um pouco longa, não seja cansativa e dou um destaque especial a Arthur, que é um menino inteligente e muito observador, soltando algumas pérolas durante a história que nos fazem rir ou chorar, dependendo do momento.

Eu já havia lido O Morro dos Ventos Uivantes de Emilly, obra que tem uma trama muito forte, com personagens intensos, mas que não me conquistou completamente – me julguem, mas eu odeio Catherine e tudo o que ela fez com todos a seu redor – e já vi uma adaptação da BBC para Jane Eyre da Charlotte, que me deixou com os cabelos em pé ao descobrir o segredo de Edward Rochester, o “mocinho” da história. Comparando o que conheço dessas obras com o texto de Anne, ainda estou tentando entender porque ela foi tão mal apreciada na época. Talvez seja o fato de que ela não usou de fatos fictícios exagerados em sua trama, ela simplesmente retratou o que provavelmente aconteceu em muitos lares da época e que sinceramente, continua acontecendo nos dias de hoje. 

Uma trama com acontecimentos mirabolantes e surpreendentes, nos mantém presos sim e claro que a impressão causada pela surpresa e o choque contam muito na hora de dizer se uma obra é realmente boa ou não. Mas, particularmente, eu gosto de uma leitura mais próxima da realidade quando se trata de um romance histórico, gosto de saber como eram as sociedades antigas e seus costumes, gosto de entender os jogos políticos e sociais que eram feitos e isso não desabona um livro para mim, ao contrário, eu aprecio e comemoro por saber que algum autor foi capaz de transformar relações cotidiandas em algo digno de ser lido e reeditado tanto tempo depois de seu primeiro original vir a público. Talvez por isso, Anne tenha acabado de se tornar a minha favorita entre as Brontë, porque sua obra é exatamente assim, cotidiana e real, nos transportando diretamente para uma fazenda na Inglaterra do séc. XIX, para vivenciarmos junto com um inteligente e sagaz rapaz, o que o amor é capaz de fazer na vida de uma pessoa.

Espero que vocês que apreciam romances históricos, venham a conhecer essa obra incrível, que merece por muito tempo ainda, o destaque que lhe foi negado de berço.

“Todos os romances são, ou deveriam ser, escritos para os homens e as mulheres lerem, e não compreendo como um homem poderia se permitir escrever algo que seria realmente desonroso para uma mulher, ou por que uma mulher deveria ser repreendida por escrever algo que seria apropriado para um homem e digno dele”. Anne Brontë – 22 de Julho de 1848.


A Senhora de Wildfell Hall - Anne Brontë

Filha mais nova da família Brontë, Anne era irmã de Emily Brontë, autora de O morro dos ventos uivantes, e de Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre — livros clássicos e reeditados até hoje. Anne Brontë (1820-1849) desafia as convenções sociais do século XIX neste romance, A senhora de Wildfell Hall. A protagonista da obra quebra os paradigmas de seu tempo como uma mulher forte e independente, que passa a comandar a própria vida. Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários por parte dos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham, por sua vez, desperta um grande interesse pela moça e, aos poucos, vai criando uma amizade com ela e com seu filho. Porém, os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido pelos dois se concretize, fazendo com que Gilbert tenha dúvidas sobre a conduta da moça. Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. Ela narra sua história até então, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da proteção do filho.
quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O Carteiro e o Poeta - Antonio Skármeta | Editora Record


"- Dom Pablo, estou apaixonado.
- Isso você já disse. E em que posso servi-lo?
- Tem que me ajudar.
- Na minha idade?
- Tem que me ajudar porque não sei o que dizer a ela. Vejo-a diante de mim e é como se eu fosse mudo. Não me sai uma única palavra. (...) Se não fosse muito incômodo, eu gostaria que (...) escrevesse uma poesia pra ela.
- (...) Mas eu nem sequer a conheço... Um poeta precisa conhecer uma pessoa para se inspirar. Não pode chegar e inventar alguma coisa assim do nada.
- Olhe, poeta - perseguia-o o carteiro -, se o senhor cria tantos problemas por causa de um simples poema, nunca vai ganhar o Prêmio Nobel...
- (...) Olhe, Mario. Peço-lhe que me belisque para me despertar desse pesadelo.
- (...) Dom Pablo, se eu me casar com Beatriz González, o senhor aceitaria ser o padrinho do casamento?" 

Toda cidade pequena é rodeada por almas imensas. Em Ilha Negra, a sabedoria estava no coração dos pescadores e no suor dos que habitavam em seus litorais e estalagens. Nosso protagonista, Mario Jiménez, era também filho do mar e suas pescas. Quando crescido, porém, Mario decidiu saltar de sua embarcação e abraçar um novo sonho: tornar-se carteiro, e assim pedalar por toda cidade, sentir a brisa de cada kilômetro da Ilha, e com isso fugir aos espinhos e espinhas de seus antepassados.

De uniforme, bike e boné em riste, Mario Jiménez apresentou-se na agência dos Correios. Em seu primeiro dia de trabalho, Cosme, seu supervisor, informou-lhe que poucas eram as correspondências que chegavam em Ilha Negra, e que seu itinerário consistiria portanto em pedalar uma certa distância e entregar telegramas e encomendas para apenas um morador: o poeta Pablo Neruda.

Por ser pequeno o povoado, o ofício do poeta Neruda era há gerações conhecido por seu povo: suas estrofes, embora nem sempre compreendidas, embalavam as declarações e juras dos namorados, assim como os gritos de seus revolucionários descendentes. Para Mario Jiménez, conseguir um autógrafo e a amizade do poeta era questão de honra, e também uma forma de tornar-se notório na cidade, e, principalmente, junto às moças de San Antonio ou Santiago, cidades que pretendia visitar com o fruto das economias de seu trabalho.

Com este objetivo em mente, Mario dedicou seu primeiro salário a aquisição de um primeiro exemplar da obra poética de Neruda. Com o livro em mãos, Mario resolveu enfim iniciar uma conversa com o autor:

"- Que há?
- Dom Pablo?...
- Você fica aí parado como um poste.
Mario retorceu o pescoço e procurou os olhos do poeta, indo de baixo para cima.
- Cravado como uma lança?
- Não, quieto como uma torre de xadrez.
- Mais tranquilo que um gato de porcelana?
- (...) Mario Jiménez, afora as Odes Elementares, tenho livros muito melhores. É indigno que você fique me submetendo a todo tipo de comparações e metáforas.
- (...) Gostaria tanto de ser poeta"
- Rapaz! Todos são poetas no Chile. É mais original que você continue sendo carteiro. (...)
- (...) É que se eu fosse poeta poderia dizer o que eu quero."

Com este desejo de dizer o que se deseja, entre um telegrama e outro, Neruda e Mario iniciaram uma espécie de amizade, com toda intensidade, metáfora e novela possíveis.


E por falar em novela, a amizade entre o carteiro e o poeta chegou aos ouvidos dos pescadores, que passaram a considerar Mario também um aprendiz de escritor, já que este estava diariamente às voltas com Neruda, e também com o seu caderno de boa capa e caneta tinteiro em mãos. Em seu ofício de carteiro, dizia o povo, Mario teria encontrado a chance de não apenas conhecer o povoado e suas esquinas, mas, principalmente, a oportunidade de transformar em literatura a essência da Ilha e de sua gente. O que ninguém poderia imaginar é que Mario ainda não havia descoberto suas metáforas literárias e que as páginas de seu caderno permaneciam ainda vazias.

Em algum ponto da história, o livro de Antonio Skármeta distancia-se desta novela de Mario Jiménez e seu amor às letras para apresentar ao leitor uma outra realidade: a das paixões políticas, que viriam a consumir o cotidiano (tanto o iletrado como o de suas oligarquias) não apenas do Chile, mas da América Latina das décadas de 1960 e 70. Neste cenário reinventado por ideologias, os personagens de Ilha Negra aprenderam a conviver com o alvoroço e a escassez, seja de alimentos, relações e perspectivas. 

Neste meio tempo entre a vida comum e politização de tudo, Neruda decide ajudar o jovem carteiro a conquistar o coração de Beatriz, sua musa, que trabalhava como garçonete ali mesmo no vilarejo. O texto de Antonio Skármeta segue nesta prosa "casamenteira", adicionando episódios de vida dos jovens e seus familiares, assim como os da própria vida do poeta, que, por ocasião do momento histórico e político do Chile, obteve asilo político na Europa. Pode-se dizer que O Carteiro e o Poeta é um romance jornalístico, com episódios de muito bom humor e leveza, ainda que intercalados com a estetização da vida comum por meio da política, típica da época de Neruda e Skármeta, e, por que não dizer, de nossa vida hoje também.

O Carteiro e o Poeta é uma história tanto real como fictícia, e uma prova de que a literatura pode também existir em um universo de pequenas histórias e grandiosas perspectivas, com todas as metáforas, intenções e clichês possíveis.



O Carteiro e o Poeta - Antonio Skármeta

O romance que consolidou Antonio Skármeta como um dos autores mais representativos da nova literatura latino-americana

O que mais pode querer um homem apaixonado que ter um dos maiores poetas latinos como conselheiro sentimental? Mario Jiménez é um afortunado carteiro responsável pela correspondência de certo senhor que poderia ser apenas um simples ancião experiente e bem-falante sobre as coisas do amor, se não fosse ele Pablo Neruda.

A cada nova remessa de cartas, o humilde funcionário do serviço de correios chileno e o poeta consolidam uma relação inusitada: Mario vê no escritor e diplomata o cúmplice ideal nas considerações sobre a propriedade das metáforas e o mestre supremo na arte do amor.

Em meio à efervescência política do Chile na virada da década de 1960 para 1970, a improvável amizade floresce. É do prêmio Nobel de Literatura que o carteiro busca conselhos sobre como conquistar o coração da garçonete Beatriz. E é do simples Mario que Neruda recebe os sons de sua casa, quando, doente, pede ao rapaz que grave os ruídos que encontrar pela Ilha Negra. Tal encontro, tão fictício quanto as figuras do carteiro e de sua amada, é promovido por Antonio Skármeta neste tempestuoso, engraçado e apaixonante romance. Uma inesquecível homenagem a Neruda, ao amor e à poesia.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Lançamentos de Setembro Editora Sextante


Eu apenas acho que todo mundo tem que conhecer esse livro do Ique. Apenas <3
Trechinho:

"Meus pais completaram 47 anos de casados dia 2 de junho de 2015.
Eles sempre dançaram nesse dia.
Meu pai não consegue mais se levantar.
Minha mãe entrou no quarto e colocou a música que eles dançavam.
Ela disse: “Meu filho, traz a cadeira de rodas.”
Eu perguntei: “O que você vai fazer?”
Ela respondeu: “Vou fazer o que seu pai faria por mim.”
Eu busquei a cadeira de rodas.
Minha mãe colocou meu pai na cadeira.
Ela se ajoelhou ao lado dele e disse: “Vamos dançar.”
Abraçou meu pai e fez a cadeira girar.
Ela ficou ajoelhada a música toda. Meu pai chorava e ria ao
mesmo tempo.
Eles ficaram ali dançando e se divertindo.
Eu voltei para o meu quarto chorando. Abri o notebook e resolvi
escrever este texto.
Porque vejo o mundo distorcendo ou complicando demais o amor.
Um monte de gente dizendo:
“Fique com alguém que faz isso, que faz aquilo, que te dê isso, que não sei o que mais.”
Esse monte de regras e exigências são coisas criadas pela cabeça.
E, meu velho, não sei se você sabe, mas o amor é criado pelo coração.
O resto é ilusão.
Então, acredite: o amor,
o amor completo,
é quando você quer o outro sempre perto.
Só isso."


Trago seu amor de volta sem pedir nada em troca - Ique Carvalho
O que é o amor? O amor não é uma pergunta. É a resposta para tudo.

A vida de Ique Carvalho era tranquila e parecida com a de muitos jovens de Belo Horizonte, sua cidade natal. Ele morava com os pais e os irmãos, era apaixonado pela namorada e trabalhava na agência de publicidade da qual era sócio. Suas impressões sobre o cotidiano iam para o blog The Love Code, onde podia dar vazão ao seu talento para escrever. Até que, em 2013, dois fatos fizeram tudo virar de ponta-cabeça.

Na mesma semana, seu namoro teve um fim traumático e o pai recebeu o diagnóstico de uma doença degenerativa grave, que o mataria aos poucos. Sem chão e em meio a um turbilhão, foi no blog que encontrou refúgio para expressar seus sentimentos.

Os textos fortes e genuínos acabaram viralizando, popularizando o site e dando a Ique milhares de fãs e seguidores. Suas palavras possuem o incrível dom de ser, ao mesmo tempo, simples e profundamente verdadeiras, traduzindo o que há de mais puro e desejável no amor.

Essa mesma capacidade de causar impacto e despertar as emoções dos leitores permeia as reflexões tocantes de Trago seu amor de volta, seu aguardado segundo livro solo. Ique mais uma vez demonstra sua vocação única como cronista do amor em todas as suas expressões.


Outros lançamentos bacanas deste mês de setembro:


Tudo começa com a comida - Dallas Hartwig

E se existisse um programa alimentar simples e fácil de seguir, que incluísse comida de verdade e não contasse calorias, mas melhorasse a composição corporal, os níveis de energia, o sono, o humor, a capacidade de concentração e a qualidade de vida?

Que também ajudasse a eliminar a vontade de comer besteiras e ainda diminuísse o risco de desenvolver a maioria das doenças relacionadas ao estilo de vida, como diabetes, doenças cardiovasculares e doenças autoimunes?

Você seguiria algo assim? Então prepare-se para experimentar o programa Whole30.

O segredo para a saúde plena está no que você come e na relação que tem com a comida. É por isso que essas são as bases do Whole30, um poderoso plano nutricional de apenas 30 dias capaz de desintoxicar o corpo e restaurar por completo sua saúde.

Com ele, você poderá equilibrar seu metabolismo, curar seu trato digestivo, acalmar a inflamação sistêmica, melhorar o sistema imunológico e colocar um ponto final nos hábitos prejudiciais e nas compulsões alimentares.

Tudo começa com a comida é o seu guia nessa mudança de vida.

Com um plano de refeições simples e receitas fáceis e saborosas, vai ser fácil aprender como eliminar os alimentos prejudiciais e consumir mais refeições nutritivas, além de conhecer as estratégias para que os benefícios alcançados se mantenham a longo prazo.


O Caminho do Artista - Julia Cameron

O caminho do artista reúne uma série de exercícios, reflexões e ferramentas para ajudar você a despertar sua criatividade, recuperar a autoconfiança e se livrar dos bloqueios criativos.

Organizadas num programa de 12 semanas, essas técnicas vão guiá-lo por uma viagem de autodescoberta, ajudando-o a enfrentar seus medos, crenças e inseguranças – os maiores obstáculos para quem deseja expressar qualquer forma de arte.

Este livro desmistifica a ideia de que o processo criativo precisa ser sofrido e extenuante, embora ele requeira uma boa dose de persistência e prática. Com este método, você vai aprender a abandonar as desculpas que o impedem de transformar suas ideias em realidade.

Você vai descobrir como criar com mais liberdade e menos autocrítica, usando de forma consciente o potencial criativo que estava represado até agora.

Conheça alguns conceitos apresentados aqui:

• Páginas matinais: Você deve escrever três páginas por dia, com pensamentos em livre associação. Isso vai reforçar sua prática e diminuir a força da sua crítica interna.

• Encontro com o artista: Tire um tempo para si mesmo, aproveitando esses momentos para fazer algo que aguce sua imaginação.

• O artista-sombra: Muitas pessoas escondem seu talento e vivem à sombra de outros artistas ou escolhem trabalhos próximos à carreira artística desejada, como jornalistas que sonham ser escritores.

• Criatividade x Espiritualidade: Em última análise, o caminho do artista é um caminho espiritual, pois nos leva a entrar em contato com nosso eu mais profundo e a nos tornar pessoas (e não apenas artistas) melhores.

Esta é uma obra fundamental para escritores, poetas, pintores, músicos e qualquer pessoa que deseje trazer um pouco mais de inspiração à sua vida.