O Carteiro e o Poeta - Antonio Skármeta | Editora Record

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"- Dom Pablo, estou apaixonado.
- Isso você já disse. E em que posso servi-lo?
- Tem que me ajudar.
- Na minha idade?
- Tem que me ajudar porque não sei o que dizer a ela. Vejo-a diante de mim e é como se eu fosse mudo. Não me sai uma única palavra. (...) Se não fosse muito incômodo, eu gostaria que (...) escrevesse uma poesia pra ela.
- (...) Mas eu nem sequer a conheço... Um poeta precisa conhecer uma pessoa para se inspirar. Não pode chegar e inventar alguma coisa assim do nada.
- Olhe, poeta - perseguia-o o carteiro -, se o senhor cria tantos problemas por causa de um simples poema, nunca vai ganhar o Prêmio Nobel...
- (...) Olhe, Mario. Peço-lhe que me belisque para me despertar desse pesadelo.
- (...) Dom Pablo, se eu me casar com Beatriz González, o senhor aceitaria ser o padrinho do casamento?" 

Toda cidade pequena é rodeada por almas imensas. Em Ilha Negra, a sabedoria estava no coração dos pescadores e no suor dos que habitavam em seus litorais e estalagens. Nosso protagonista, Mario Jiménez, era também filho do mar e suas pescas. Quando crescido, porém, Mario decidiu saltar de sua embarcação e abraçar um novo sonho: tornar-se carteiro, e assim pedalar por toda cidade, sentir a brisa de cada kilômetro da Ilha, e com isso fugir aos espinhos e espinhas de seus antepassados.

De uniforme, bike e boné em riste, Mario Jiménez apresentou-se na agência dos Correios. Em seu primeiro dia de trabalho, Cosme, seu supervisor, informou-lhe que poucas eram as correspondências que chegavam em Ilha Negra, e que seu itinerário consistiria portanto em pedalar uma certa distância e entregar telegramas e encomendas para apenas um morador: o poeta Pablo Neruda.

Por ser pequeno o povoado, o ofício do poeta Neruda era há gerações conhecido por seu povo: suas estrofes, embora nem sempre compreendidas, embalavam as declarações e juras dos namorados, assim como os gritos de seus revolucionários descendentes. Para Mario Jiménez, conseguir um autógrafo e a amizade do poeta era questão de honra, e também uma forma de tornar-se notório na cidade, e, principalmente, junto às moças de San Antonio ou Santiago, cidades que pretendia visitar com o fruto das economias de seu trabalho.

Com este objetivo em mente, Mario dedicou seu primeiro salário a aquisição de um primeiro exemplar da obra poética de Neruda. Com o livro em mãos, Mario resolveu enfim iniciar uma conversa com o autor:

"- Que há?
- Dom Pablo?...
- Você fica aí parado como um poste.
Mario retorceu o pescoço e procurou os olhos do poeta, indo de baixo para cima.
- Cravado como uma lança?
- Não, quieto como uma torre de xadrez.
- Mais tranquilo que um gato de porcelana?
- (...) Mario Jiménez, afora as Odes Elementares, tenho livros muito melhores. É indigno que você fique me submetendo a todo tipo de comparações e metáforas.
- (...) Gostaria tanto de ser poeta"
- Rapaz! Todos são poetas no Chile. É mais original que você continue sendo carteiro. (...)
- (...) É que se eu fosse poeta poderia dizer o que eu quero."

Com este desejo de dizer o que se deseja, entre um telegrama e outro, Neruda e Mario iniciaram uma espécie de amizade, com toda intensidade, metáfora e novela possíveis.


E por falar em novela, a amizade entre o carteiro e o poeta chegou aos ouvidos dos pescadores, que passaram a considerar Mario também um aprendiz de escritor, já que este estava diariamente às voltas com Neruda, e também com o seu caderno de boa capa e caneta tinteiro em mãos. Em seu ofício de carteiro, dizia o povo, Mario teria encontrado a chance de não apenas conhecer o povoado e suas esquinas, mas, principalmente, a oportunidade de transformar em literatura a essência da Ilha e de sua gente. O que ninguém poderia imaginar é que Mario ainda não havia descoberto suas metáforas literárias e que as páginas de seu caderno permaneciam ainda vazias.

Em algum ponto da história, o livro de Antonio Skármeta distancia-se desta novela de Mario Jiménez e seu amor às letras para apresentar ao leitor uma outra realidade: a das paixões políticas, que viriam a consumir o cotidiano (tanto o iletrado como o de suas oligarquias) não apenas do Chile, mas da América Latina das décadas de 1960 e 70. Neste cenário reinventado por ideologias, os personagens de Ilha Negra aprenderam a conviver com o alvoroço e a escassez, seja de alimentos, relações e perspectivas. 

Neste meio tempo entre a vida comum e politização de tudo, Neruda decide ajudar o jovem carteiro a conquistar o coração de Beatriz, sua musa, que trabalhava como garçonete ali mesmo no vilarejo. O texto de Antonio Skármeta segue nesta prosa "casamenteira", adicionando episódios de vida dos jovens e seus familiares, assim como os da própria vida do poeta, que, por ocasião do momento histórico e político do Chile, obteve asilo político na Europa. Pode-se dizer que O Carteiro e o Poeta é um romance jornalístico, com episódios de muito bom humor e leveza, ainda que intercalados com a estetização da vida comum por meio da política, típica da época de Neruda e Skármeta, e, por que não dizer, de nossa vida hoje também.

O Carteiro e o Poeta é uma história tanto real como fictícia, e uma prova de que a literatura pode também existir em um universo de pequenas histórias e grandiosas perspectivas, com todas as metáforas, intenções e clichês possíveis.



O Carteiro e o Poeta - Antonio Skármeta

O romance que consolidou Antonio Skármeta como um dos autores mais representativos da nova literatura latino-americana

O que mais pode querer um homem apaixonado que ter um dos maiores poetas latinos como conselheiro sentimental? Mario Jiménez é um afortunado carteiro responsável pela correspondência de certo senhor que poderia ser apenas um simples ancião experiente e bem-falante sobre as coisas do amor, se não fosse ele Pablo Neruda.

A cada nova remessa de cartas, o humilde funcionário do serviço de correios chileno e o poeta consolidam uma relação inusitada: Mario vê no escritor e diplomata o cúmplice ideal nas considerações sobre a propriedade das metáforas e o mestre supremo na arte do amor.

Em meio à efervescência política do Chile na virada da década de 1960 para 1970, a improvável amizade floresce. É do prêmio Nobel de Literatura que o carteiro busca conselhos sobre como conquistar o coração da garçonete Beatriz. E é do simples Mario que Neruda recebe os sons de sua casa, quando, doente, pede ao rapaz que grave os ruídos que encontrar pela Ilha Negra. Tal encontro, tão fictício quanto as figuras do carteiro e de sua amada, é promovido por Antonio Skármeta neste tempestuoso, engraçado e apaixonante romance. Uma inesquecível homenagem a Neruda, ao amor e à poesia.

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