domingo, 26 de novembro de 2017

Dois assuntos: Resenha de As Pupilas do Senhor Reitor, por Mich Fraga | Uma conversa franca sobre parcerias, por Rebeca C.


Olá, Leitores! Hoje é dia de resenha de mais um clássico da literatura mundial. Dessa vez vamos conhecer as maravilhas da literatura portuguesa com a obra As Pupilas do Senhor Reitor, de Julio Dinis, que representa o marco da transição entre o romantismo e o realismo em Portugal. Com o enredo tipicamente rural, temos personagens apaixonantes lutando pela sobrevivência e em busca da felicidade e do amor verdadeiro. Vale a pena conferir!

Obs: os 5 primeiros minutos são de desabafo e a resenha começa logo em seguida.

Espero que gostem da resenha!
Beijos e até a próxima!
Mich


(PS - Recado da Rebeca) - Neste vídeo, nossa colunista Michelle compartilha um necessário desabafo acerca da relação entre blogs literários editoras. Na verdade, o assunto é um pouco mais específico: o que será que as frentes de relacionamento das editoras esperam de seus leitores parceiros? Ou seja, qual a contrapartida realmente esperada pelas equipes de comunicação e marketing das Editoras? Espera-se uma grande divulgação? Uma mediação sincera entre obra e público? Um tratado crítico-acadêmico sobre cada lançamento? Pra ser sincera, nem sempre estes pontos são pré-definidos no início da parceria entre Blogs e Editoras, e é bem possível que em algum momento uma das partes acabe se sentindo um tanto insatisfeita com a relação. Uma ou ambas as partes, infelizmente acontece.

Mas enfim, o desconforto mencionado no vídeo diz respeito a uma situação pontual e recente onde foi cobrado de um grupo de leitores parceiros um certo "formato de resenha", baseado em uma "boa argumentação", para que enfim se evitasse uma "cópia em massa de sinopses", ou algo do tipo. Afinal, este ideal da "boa argumentação" é uma espécie esforço necessário e esperado, e todo blogueiro deveria ter consciência disso.

Em tempo, super concordo com a parte do "vamos pegar leve na divulgação das sinopses"; não há o que desdizer.

Mas veja bem, caro leitor, vamos especular um pouco a respeito do que é e poderia ser uma "boa argumentação" no que diz respeito a resenhas e demais modos de divulgação de livros:

1) Se há uma cobrança qualitativa, é porque há uma equivalência de qualidade na pessoa do avaliador-de-resenhas, que, assim especulamos, totalmente apto a mensurar o que poderia ser ou não uma "boa argumentação". 

2) Agora, sobre "haver um avaliador": Sabendo como são formadas as equipes de relacionamento das editoras (em sua maioria, compostas tanto por jovens estagiários e analistas de comunicação e marketing e/ou carreiras afins), soa para nós um tanto "complicado" haver uma exigência quase "acadêmica" no que diz respeito ao ao conteúdo de nossas escritas. Três pontos quanto a isso:

a) Se o blog x ou y foi selecionado para ser parceiro da Editora x ou y, é porque em dado momento avaliou-se a escrita de tais blogs, assim como a compatibilidade de tais páginas com o perfil de trabalho e ação da Editora naquele momento, certo? Bom, pelo menos é assim que se acredita, que os critérios de seleção de blogs parceiros sejam baseados não exclusivamente em métricas (sabemos que estas fazem parte do jogo e tudo bem quanto a isso) mas também em relação ao formato de trabalho e escrita desenvolvido pelos Blogs. E, se fomos selecionados, é porque tudo parecia estar em sintonia, não é isso?

b) Então, quando o blogueiro é de algum modo "confrontado" com a necessidade de uma "boa argumentação", olha, a sensação que dá é a de que a Equipe de Relacionamento das Editoras está realmente dizendo: "vem cá, acho que rola se esforçar um pouquinho mais hein, essa resenha tá bem meia boca". Desculpe a sinceridade, mas acho difícil qualquer um de nós blogueiros não pensarmos assim. Porque afinal, acho meio difícil um blog ter sido selecionado para uma parceria sem que o avaliador-da-Editora tenha percebido um mínimo de valor no trabalho de tal ou tal blogueiro. Porém, se em meio ao milheiro de inscrições o blog x ou y foi uma escolha "ao acaso", ou por critérios de "simpatizei antes mas agora desgostei" (critérios subjetivos certamente existem e cabem ser considerados, estamos um tanto okay quanto a isso), eu sinceramente penso que precisamos reformular com clareza a redação das solicitações enviadas aos blogs parceiros, não acham? Afinal, vamos ler o ponto abaixo para concluirmos este pensamento:

c) Quando nos é cobrada uma "alta performance" e "qualidade" em nosso trabalho, imagino eu, Rebeca, e falo também em nome da Equipe do Blog Papel Papel, porque há consenso entre nós, de que do outro lado da linha haverá um avaliador super mega doutor em Letras, praticamente uma Marina Colasanti, apenas à espera de nossas resenhas, e apto para emitir o parecer de "que estupendo" ou "mano, que coisa estúpida". Neste momento estou sendo irônica, claro, porque sabemos que não é assim que a coisa funciona. E, neste momento também, estarei realizando sim um juízo de valor: não sendo o avaliador-de-resenhas-das-Editoras um doutor em educação e letras, nada mais "justo" que este "empenho curricular" não seja cobrado aos parceiros, certo? "Ah, Rebeca, mas quem faz essa mediação entre blogs e instituições tem formação em Letras sim, e pós em redes sociais, e...". Meus caros, nós também. Porque Universidade deixou de ser status há muito tempo, principalmente em cursos de humanas. Graduação, Pós, Mestrado, os vinte e os trinta e quiçá os quarenta anos, estas são as "qualificações" da maioria dos blogueiros de literatura que conhecemos. Então, acho que a relação não deveria ser pautada por aí... Para exigir qualidade, não basta dizer "então, eu achei que você mandou mal na escrita. Porque segundo Ricoeur, toda narração é intencional, e a de vocês está contribuindo em nada nesta problematização". Caríssimos avaliadores, meus mais sinceros votos by T. S. Eliot pra vocês:

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada  

3) Ainda sobre esta ladainha: Que o blogueiro "copie e cole" sinopses e as transforme em resenhas, é meio óbvio que não é um comportamento "ideal" e muito menos esperado; ainda assim, seja por que motivo for, o trabalho que os blogueiros realizam (tanto o da blogueira muito jovem que está comprando os primeiros livros de sua vida quanto o dos blogs que realmente se apresentam como "acadêmicos") deveria ser muito mais valorizado. Tanto no sentido existencial da valoração (ou seja, uma nota de reconhecimento, do tipo "que bacana seu trabalho, estamos curtindo, valeu!" - e felizmente há MUITAS equipes de relacionamento que são mega humanas neste sentido, e super dá vontade de dizer o nome de todo mundo que é bacana aqui, mas... quem sabe em outra ocasião) como também (atenção para a palavra "tabu-proibida" em nosso meio cultural) no financeiro. Sim, porque amamos livros, e super agradecemos o espaço e audiência que as Editoras e seus canais oferecem a todos nós que temos páginas dedicadas a literatura; mas esse "hábito do brasileiro" onde o trabalho de produção cultural é e sempre será "um agrado", "um favor", e, principalmente, "de graça", é algo que em algum momento mereceria ser discutido, dito às claras, para que as relações sociais e de trabalho realmente se tornassem mais harmoniosas e, consequentemente, produtivas.

Em tempo, quanto ao "de graça" das relações literárias, não poderia deixar passar a oportunidade de comentar sobre um fato por que passamos neste ano: Certa vez, ao participarmos da produção de um trabalho/projeto para uma determinada instituição, lá no meio da relação chegamos a ouvir algo do tipo "então, eu to investindo meu tempo, to tendo custos, to gastando luz, to gastando ar condicionado, vamos ver se o projeto dá resultado". Gastando luz, gastando ar condicionado, vocês não ouviram errado! E tipo, independente de nós do Blog estarmos presentes na instituição ou não, o dono do estabelecimento já estaria gastando luz e ar condicionado, já que ele não trabalha no calor e muito menos no escuro! Que isso, gente...

E depois perguntam porque eu, Rebeca, e meus companheiros aqui do blog somos contra ideologias. Pra ter ideologia e ser mesquinho, eu prefiro não ter. Obrigada, de nada.

Enfim, desculpe aí o textão, Galera. Eu teria muita coisa pra comentar ainda sobre as inúmeras e inesperadas "relações de trabalho" aqui no meio literário mas... melhor não. Fica apenas o registro de um desabafo, apenas isso.

Ah, e cabe a pergunta: Será que iremos perder parceiros e parcerias por conta deste meu desabafo aqui? Minha resposta é: Que seja. Afinal, nestes dois anos de trabalho aqui no Blog (que, obviamente, se comparados ao trabalho de tantos outros blogueiros de nossa rede é um "nadica de nada" de tempo), não nego que "erramos feio" em muitas situações, mas foi só a partir desta consciência de nosso erros que chegamos ao ponto de repensar a nós mesmos, tanto no sentido de nossos objetivos pessoais (ou seja, de nosso papel-função neste meio literário) como no que diz respeito aos nossos objetivos comuns (ou seja, tudo aquilo que compartilharemos com vocês, nossos fiéis e queridos leitores, que chegaram aqui há pouco ou desde o dia da primeira resenha). Porque acreditamos sim que o relacionamento e as relações de proximidade (tanto de ideais, de perspectivas como, principalmente, as afetivas) são a chave de todo trabalho (sim, ter um blog é um trabalho, e não só porque "dá trabalho", mas porque é um ofício, é toda uma dedicação, é todo um sonho e garra e vontade envolvida). Então, vamos ser mais sinceros em nossos relacionamentos? Com amor, doa a quem doer? Eu acredito nisso. E vocês? Se quiserem trocar uma ideia sobre tudo isso, estamos aí :)

Um abraço a todos,
Rebeca C.


As pupilas do Senhor Reitor - Julio Dinis 
Editora Record

Sinopse: Júlio Dinis, importante autor português, nos traz uma obra escrita de forma clara e agradável, semelhante aos romances de folhetim. José das Dornas, lavrador abastado de uma área rural portuguesa do século XVIII, tem dois filhos: Pedro, trabalhador e seu sucessor nos negócios, e Daniel, sonhador e alheio às preocupações do pai com seu futuro. Acatando a sugestão do reitor da paróquia local, Daniel é enviado para o Porto, de onde volta anos depois, formado em medicina e com ideias liberais que vão conflitar com a mentalidade conservadora da aldeia. Ao retornar, sua vida cruza com as de Margarida e Clara, duas órfãs entregues aos cuidados do reitor, e as desventuras amorosas envolvendo Daniel, Pedro e as irmãs vão movimentar a pacata cidade. As pupilas do senhor Reitor evidencia o confronto entre dois mundos: um conservador, beato, machista e outro mais livre, laico, constitucional. Assim, temos uma trama que, além de nos servir de base para compreender certo passado, dialoga com o presente de maneira substancial. Leitura de grande importância para a literatura portuguesa, necessária para os que a estudam e cativante para os que a querem conhecer melhor.
quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Nora Roberts - Irmãos de Sangue | Editora Arqueiro | Resenha por Regiane Medeiros


Editora Arqueiro | Resenha por Regiane Medeiros

"Do seu modo ordeiro, Cal organizou o acampamento. Comida em uma área, roupas em outra, ferramentas em uma terceira. Com a faca de escoteiro e a bússola em seu bolso, foi apanhar alguns gravetos. Os arbustos espinhosos o espetavam e arranhavam à medida que andava. Com os braços cheios, não viu quando algumas gotas de seu sangue pingaram no chão na beira do círculo... Ou o modo como o sangue chiou, fumegou e depois foi sugado por aquela terra marcada." (p. 28)

"- Nós nascemos dez anos atrás, na mesma noite, na mesma hora, no mesmo ano. Somos irmãos. Na Pedra Pagã juramos lealdade, verdade e fraternidade. Misturamos aqui nosso sangue." (p. 33)

#Resenha: Vocês já demoraram a ler um determinado autor e quando finalmente lê algo dele, se arrepende de não ter feito isso antes? Eu sim, para minha eterna agonia e vergonha.

Eu sempre ouvi falar da Nora Roberts e sempre tive curiosidade, mas por motivos além da minha compreensão, ainda não o tinha feito! Mas, fico feliz em anunciar que já remediei esse lapso!

Minha última leitura foi Irmãos de Sangue, primeiro livro de uma trilogia que tem como principal cenário uma cidade pequena do interior dos EUA. Nessa cidade existe uma floresta, daquelas sombrias e repletas de lendas de assombração, mas que de fato esconde algo maligno. Isso até Cal, Fox e Gage libertarem esse mal. Não é culpa deles, afinal, eram apenas garotos querendo comemorar o aniversário de 10 anos juntos em uma aventura, porém, acabam despertando uma maldição que vai assombrá-los e assolar a cidade onde moram, a cada 7 anos, durante 7 dias, no 7° mês do ano.

A culpa os impulsiona a buscar por uma solução, enquanto trabalham para minimizar o estrago causado, mas as coisas só começam a clarear com a chegada de uma jornalista, disposta a escrever a história da cidade e o fenômeno que a cerca durante o período dos Sete. Porém, mais do que curiosidade, Quinn tem visões, daquelas que arrepiam todos os cabelos do corpo, as mesmas visões que assombram Cal, Fox e Gage. Mas, se Quinn não é da cidade, porque vê e é afetada pelas mesmas coisas que eles? Essa resposta só vem com a leitura!!!

A escrita da Nora é deliciosa, fluida e dinâmica. Seus personagens são interessantes, singulares e nos atraem a cada página, a cada diálogo. E o suspense em torno de todos os acontecimentos que os uniram é digno dos maiores mestres do gênero! Já estou ansiosa pelas continuações, pois o final de Irmãos de Sangue, é apenas o início dessa aventura sobrenatural!

"Quando se virou, viu o garoto. Estava em pé na calçada, a meio quarteirão de distância. Não usava casaco, chapéu ou proteção contra o vento cortante, que não agitava os seus cabelos compridos. Seus olhos brilhavam, assustadoramente vermelhos, enquanto repuxava os lábios para emitir um rosnado." (p. 65)

"Quantas perdas ele vira? Quinn gostaria de saber. Quantas perdas sofrerá desde seu décimo aniversário? E ainda assim voltava para aquela floresta, para onde tudo começara. Ela achou que nunca tinha visto uma atitude mais corajosa." (p. 103)


Sinopse: A misteriosa Pedra Pagã sempre foi um local proibido na floresta Hawkins. Por isso mesmo, é o lugar ideal para três garotos de 10 anos acamparem escondidos e firmarem um pacto de irmandade. O que Caleb, Fox e Gage não imaginavam é que ganhariam poderes sobrenaturais e libertariam uma força demoníaca.

Desde então, a cada sete anos, a partir do sétimo dia do sétimo mês, acontecimentos estranhos ocorrem em Hawkins Hollow. No período de uma semana, famílias são destruídas e amigos se voltam uns contra os outros em meio a um inferno na Terra.

Vinte e um anos depois do pacto, a repórter Quinn Black chega à cidade para pesquisar sobre o estranho fenômeno e, com sua aguçada sensibilidade, logo sente o mal que vive ali. À medida que o tempo passa,

Caleb e ela veem seus destinos se unirem por um desejo incontrolável enquanto percebem a agitação das trevas crescer com o potencial de destruir a cidade.

Em Irmãos de sangue, Nora Roberts mostra uma nova faceta como escritora, dando início a uma trilogia arrebatadora em que o amor é a força necessária para vencer os sombrios obstáculos de um lugar dominado pelo mal.
quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Sonata em Auschwitz - Luize Valente | Editora Record


Sonata em Auschwitz - Luize Valente
Editora Record, 2017
(Resenha por Rebeca C.)

"No sótão, vivem-se as horas de longa solidão. (...) No sótão também as intermináveis leituras. No sótão, o disfarce com os trajes de nossos avós, com o chale e os laços. (...) Ali, as coisas velhas se imprimem, para o resto da vida, na alma da criança. Um devaneio dá vida a um passado familiar, à juventude dos antepassados." (Gaston Bachelard)

Certas histórias adormecem. Entre o bolor e a trégua, o tempo que enfraquece é o mesmo que reconstrói; e o que seria da memória sem rumores e fortalezas? Quando em gavetas, o passado desbota suas páginas, e por vezes adoece. Nódoas e glórias nos fazem então contar histórias, principalmente quando tão certas, tão seguras de que não se pode mais aprisioná-las, muito menos em gavetas. 

Nascida enquanto percurso ou certidão, a escrita do passado é necessária não apenas enquanto desabafo ou homenagem, ou ainda romance intempestivo; honrar o passado é uma forma de resistência (senão a única), de modo que só se pode avançar contra os que se apresentam incendiários com a certeza de que nossa existência não é mera letra, mas uma proposição de existência. Queiram os adversários ou não.

"Mas daí a contar sua história? Como se houvesse palavra que pudesse expressar o que fora tudo aquilo? (...) De que adiantaria expor seus entes queridos? O mundo continuava do mesmo jeito. Injustiças, opressão, racismo, antissemitismo existiriam para sempre. (...) Por que nunca falara sobre isso?

(...) Dor é coisa que se sente. Quando muito intensa, se espalha no ar. Sinto a dor de Adele. E não posso fazer nada. Passados sessenta anos, ninguém pode fazer nada." (p. 147-148)


Porque é de guerra que falamos quando insistem em desdizer o que na própria pele se inscreveu. Não nos cabe um ensaio sobre a legitimidade e o testemunho; ainda assim, sobre Auschwitz, há que se apontar os que porfiam tratados dizendo "não foi bem assim". E muitos são os que ditam reescritas deste ontem "que não (n)os convém". Quanto ao Holocausto "em si", permanece na história enquanto alegoria politika, moeda de reputação e escambo entre ideólogos, acadêmicos e até alguns ingênuos. Pontos nevrálgicos na história do homem sempre haverão, porém não basta a borracha em seus altares para eximi-los. E não é preciso rebobinar demais os acontecimentos: em nosso cotidiano, por exemplo, vemos protestos a favor e contra a "minha luta", enquanto ao mesmo tempo erguemos altares para uma certa "verdade tropical". A realidade, ao que parece, é como uma grande cárie em meio a ineficácia de uma anestesia: sempre uma inadequação; sempre um desequilíbrio entre o que pode e o que não pode ser digerido, quiçá dito.

O livro de Luize Valente se apresenta enquanto um romance de pesquisa e testemunho. Inspirado em relatos de uma sobrevivente do holocausto, que ainda hoje carrega em lucidez a inconsequência de todo um século, Sonata em Auschwitz apresenta ao leitor uma trama de personagens que, distantes temporal e geograficamente, carregam as marcas de uma ferida que dificilmente cicatrizará, especialmente porque ainda lhes são impostos o ardil da injúria, e a vergonha do esquecimento. Mein Politka, e não importa a nacionalidade, e sim a linguagem, que, com o aval do Poder, tem a função de desconstruir todo e qualquer sentido. Afinal, o sangue não é assim tão vermelho, e tampouco o partid..., como ousa, como...?

"Havia três meses que a Alemanha assinara a rendição. (...) Enoch e Johannes optaram por viver um dia de cada vez, como nos tempos da guerra, porém com a agravante de sentirem um pessimismo que evitavam dividir um com o outro. (...) E assim levavam os dias, esperando que a paz finalmente assentasse. Não eram armistícios que a garantiriam.

(...) Para que vale a verdade? O que é a verdade? (...) Dizem que os bons pereceram em Auschwitz. Eu acredito que Auschwitz pereceu nos bons. Bons como Adele. Que vivem apesar de. São viventes. O resto de nós é sobrevivente." (p. 327; 343; 346)

A cada relato e ficção da autora, a cada pesar e ilusão de suas personagens, o leitor vivenciará Sonata em Auschwitz como uma lembrança a qual embalamos fielmente; porque afinal, não se pode dizer adeus a uma família, uma canção e tampouco a um filho; neste livro de Luize Valente, é preciso entender a memória enquanto testemunho, ainda que em meio a escombros; ainda que sob as auguras e honras de se estar e permitir-se ainda vivo.


Sinopse: Um bebê nascido nas barracas de Auschwitz-Birkenau, em setembro de 1944. Uma sonata composta por um jovem oficial alemão, na mesma data, também em Auschwitz. Duas histórias que se cruzam e se completam. Décadas depois, Amália, jovem portuguesa, começa a levantar o véu de um passado nazista da família a partir de uma partitura que lhe é revelada por sua bisavó alemã. A dúvida de que o avô, dado como morto antes do fim da Segunda Guerra, possa estar vivo no Rio de Janeiro, a leva a atravessar o oceano e a conhecer Adele e Enoch, judeus sobreviventes do Holocausto.

A ascensão do nazismo na Alemanha, culminando na fatídica Noite dos Cristais, a saga dos judeus húngaros da Transilvânia, os guetos na Hungria e Romênia, os trens para Auschwitz, os mistérios acontecidos no campo de extermínio da Polônia e o pós-guerra numa casa cheia de segredos num lago de Potsdam oferecem os trilhos que Amália percorrerá para montar o quebra-cabeça.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Unboxing TAG Experiências Literárias - caixa de novembro | Por MIch Fraga


Mais uma unboxing do amor! Sempre que chega caixinha da TAG Experiências Literárias é motivo de comemoração e, para mim, esse mês a comemoração foi ainda mais especial já que a curadora do mês, Heloísa Buarque de Holanda, grande crítica literária do Brasil, escolheu um "livro de mulher" que marcou de uma vez por todas a entrada da mulher brasileira no mundo literário. No início do séc XX, "livros de mulher" eram considerados baixa literatura, com pouca profundidade ou relevância. Hoje em dia esse tipo de pensamento não faz o menor sentido e a escrita literária da mulher veio ganhando seu espaço de direito graças a autora homenageada de novembro pela TAG.


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domingo, 5 de novembro de 2017

Dom Casmurro - Machado de Assis | Por Mich Fraga


Buenos días. A resenha de hoje, que na verdade era para ter saído ontem mas o YouTube não colaborou com o upload, é super especia! Dessa vez vamos conversar detalhadamente sobre "Dom Casmurro" de Machado de Assis. 

Mas atenção, essa é uma resenha mais minuciosa pensada para ajudar os alunos que prestarão o ENEM ou qualquer outra prova em que seja cobrada essa leitura, então, se você não quiser saber tantos detalhes da obra, essa resenha não é para você.



Apesar de eu ter falado muitos aspectos da obra, garanto a você que não revelei nem 1/3 dos mistérios da história e você precisará ler o livro para descobrir todos os detalhes.


Espero ter ajudado de alguma forma.
Beijos e até a próxima,
Mich.
sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Unboxing Turista Literário - caixinha de outubro


Já está no ar o unboxing da malinha de outubro do Turista Literário! Os Correios deram uma atrasada básica, mas.... finalmente chegou a caixinha tão esperada de todos os meses!!! Confira o unboxing com todas as minhas impressões:


PS: Meu passaporte literário atingiu a mesma quantidade de carimbos que meu passaporte real. Será um sinal de que preciso viajar mais? Ou talvez um sinal de que preciso comprar menos livros? kkkkkkkk <3