East of Eden | À Leste do Éden - John Steinbeck | Por Bruno Fraga

janeiro 08, 2018

Dentre os excelentes romances escritos por John Steinbeck, um destaca-se por sua audácia: East of Eden. Publicado em 1952, o livro evidencia uma excelente geração de escritores americanos, pois é o mesmo ano de publicação de outro clássico: The Old Man And The Sea, de Hemighway,  reforçando a importância da literatura americana para o mundo, assim como foram os autores vitorianos no Reino Unido um século antes. Apesar de sua narrativa lembrar a de um romance comum, podemos considerar East of Eden como tendo o papel similar aos épicos nas culturas clássicas, por exercer influência na fundamentação das artes, cultura, nação e idioma.

Em suma, podemos dizer que East of Eden relata a história sobre duas famílias distintas: os Trasks e os Hamilton. Seus membros, durante sete décadas, protagonizam uma saga que percorre décadas, de Conneticut à California. À primeira vista seria natural apontar a trajetória das famílias como opostas, entretanto, após a influência que o patriarca dos Hamiltons, Samuel, terá no futuro dos Trasks, elas deixarão de ser distintas, e o desenvolvimento do enredo, antes separado por capítulos entre as famílias em diferentes partes dos Estados Unidos será canalizado no oeste americano.

O romance que conduz a história é o do casal Adam Trask e Cathy James. Suas vidas serão as mais detalhadas no desenvolvimento do livro, acompanharemos os dois em sua infância até seus últimos dias na terra. Sendo personificações de opostos do ser humano, se em um dos dois há ingenuidade, pureza e bondade, o inverso aparece no outro, com perversas atitudes que surpreenderão o leitor.

"I believe there are monsters born in the world to human parents. . . . The face and body may be perfect, but if a twisted gene or a malformed egg canproduce physical monsters, may not the same process produce a malformed soul?" 


O principal tema abordado pelo escritor é a aceitação e a rejeição do amor, discorrendo sobre a não correspondência do sentimento tanto em âmbito familiar como na paixão. Muitas vezes o assunto é abordado através de rica argumentação dos personagens sobre a natureza e os motivos de tal afeição e recusa. O mordomo chinês dos Trasks, Li, por exemplo, traz ao longo da história, de forma muito inteligente, uma perspectiva oriental sobre as tragédias particulares de seu chefe: 

"It seemed to Samuel that Adam might be pleasuring himself with sadness." 


As referências bíblicas, como a de Abel e Cain enriquecem a obra desde o título, mas não espere por isso alguma obviedade no andamento ou desfecho das histórias apresentadas. Há de se ressaltar o conflito de personagens nos expressivos diálogos que nos fazem parar, fechar o livro e refletir por alguns segundos sobre a distinta profundidade que existe ali.

Setenta anos passarão, o leitor será um espectador, como o próprio John Steinbeck, que se apresenta nesse livro como uma criança, misturando à sua ficção elementos da própria infância no vale californiano. Enquanto a história transcorre, conseguiremos ainda sentir saudades de certos personagens, desejar desfechos para alguns e ficar na curiosidade de outros. Para quem é recomendado?  Todos que em algum momento tiveram um sentimento rejeitado devem ler este livro e, se nada disso aconteceu com você, esse é o principal motivo para East of Eden ser sua próxima leitura:

“A great and lasting story is about everyone or it will not last.”

East of Eden também foi adaptado para o cinema em 1955 sob a direção de Elia Kazan e estrelado por James Dean. No Brasil, uma das últimas edições da obra literária foi publicada na década de 1990 pela Editora Record.

Até a próxima resenha!
Bruno Fraga

John Steinbeck
Editora Record, edição de 2015

Considerado um dos melhores livros do autor, abrange a história dos Estados Unidos desde a Guerra Civil até a Primeira Guerra Mundial. Publicado em 1952, relata a saga dos Hamilton (com base nos parentes maternos de Steinbeck, representando a “família universal”), e dos Traks, clã ficcional que mimetizaria os “vizinhos universais”, focalizando três gerações. A inspiração veio da Bíblia, pois recria o confronto entre Caim e Abel no cenário do vale de Salinas, na Califórnia, terra natal do autor.

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