A Ilusão do Tempo - Andri Snaer Magnason | Editora Morro Branco

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"Quanto de vinho eu tenho? - perguntou ele.
- 746.425 litros de vinho fino, majestade.
- Quanto tempo levarei para beber tudo isso?
- 409 anos, se beber cinco garrafas por dia.
- Eu conseguirei comandar o reino se beber cinco garrafas por dia?
- Não conseguiria caminhar, majestade - disse Exel.
- (...) Para que conquistar o mundo se o mundo por fim rouba meu tempo?"
(p. 52)

Era uma vez um Rei que conheceu o amor no coração da floresta. Seu nome era Luz da Primavera, uma jovem de olhos sonhadores e gentis. De tão apaixonado, o Rei convidou-a para habitar no castelo, e com ele conquistar novos reinos. Conquistado pela simplicidade de um romance silvestre, o Rei aceitou esta vida à dois em uma casinha à beira do lago. Era verão e a conquista de novos mundos poderia esperar, seu reinado ganhara um novo significado.

Algumas estações se passaram e a felicidade encontrou sua primeira tempestade: em meio ao choro de uma pequena princesa, em seus braços silenciava a Luz de sua vida. E foi neste instante de nascimento e despedida que o Rei Dímon XVII iniciou sua primeira batalha contra o tempo.

Na história de Andri Snaer Magnason, duas são as realidades temporais: a primeira, ancestral, fala da ambição de um Rei e dos males que sucederam a este ideal de conquista do mundo, não por acaso denominado Pangeia; a segunda, não muito distante de hoje, apresenta um cotidiano onde acredita-se que, com a ajuda de toda a nossa tecnologia, o ser humano pode escapar da fúria dos homens, e porventura do tempo. Diante das adversidades, importa ao homem então a sobrevida, ainda que por meio da distopia da fuga (algo que, para Dímon XVII, acostumado ao espírito bélico, seria motivo de pesar e lamúria).

"Não é possível conquistar o mundo, sem conquistar o tempo". Segundo a história, esta é a sabedoria da floresta, que chegou ao conhecimento do Rei um pouco antes de seu encontro com a Luz, em um tempo onde a arrogância do reinado enfrentou as leis da natureza, e o fim desta batalha não poderia ter resultado de outro modo, senão em maldição.


"- Eu não tinha mais certeza se o mundo estava enfeitiçado ou se ele havia se livrado de um feitiço. As pessoas já o tinham destruído tanto. As pessoas estavam numa corrida contra o tempo, tentando acumular tantas coisas e tanto lixo quanto pudessem. Destruíram tudo que havia de belo e agora elas se fechavam dentro de sua própria idiotice." (p. 195)

Os dias de hoje também estavam, de algum modo, repletos de mal estar: em um mundo onde a soberania deixou de ser nacional (pobre Rei se estivesse vivo!) para tornar-se tecnológica, bastava o morador do campo ou da cidade entrar em contato com a TIMEX, encomendar uma cápsula do tempo e escapar de todo o aborrecimento, qualquer que seja (curiosamente, a adesão às cápsulas aumentava quando a tv anunciava dias de racionamento, assim como novos decretos do governo).

E já que a possibilidade de fuga foi criada, toda a população se acostumou a "viver fora do tempo" (ou seja, dentro das cápsulas da TIMEX) e assim escapar de todos os males (chuva, inflação, tédio, provas, viroses, greves...). O que à primeira vista parecia uma boa ideia (vou ali entrar na cápsula do tempo e volto quando a inflação baixar) tornou-se maluquice: 

"... depois veio a crise financeira e os economistas previram um ano tenebroso. (...) As pessoas foram aconselhadas a proteger os seus filhos desses tempos horríveis, (...) com isso, as vendas das lojas caíram, de modo que os seus funcionários providenciaram caixas para si. Com isso, o estado passou a arrecadar menos impostos (...); por fim, não havia mais ninguém para consumir todos os alimentos que os fazendeiros produziam e eles puseram os animais em caixas e perguntaram ao governo o que ele pretendia fazer.

- O que ele fez?
- Arranjou caixas e se enfiou dentro delas também."

Parece uma história sem solução e fim, não é mesmo? E neste momento você deve estar se perguntando: o que a lenda de um Rei tem a ver com cápsulas do tempo? Bem, essa é a graça de A Ilusão do Tempo, que aproxima dois mundos inimagináveis, e que partilham de uma mesma ambição: fugir ao inevitável (as intempéries, as crises e as despedidas), ainda que para isso seja preciso subtrair a própria vida.  

A fábula de Andri Snaer é mesmo cativante e, à sua maneira, encantada - afinal, apesar de nossas ambições e erros, a Vida consegue ainda ser generosa, vez por outra soprando bons ventos, atalhos e senhas para orientar o nosso caminho. Com esta história em mãos, só posso dizer que é leitura recomendadíssima, para todas as idades! Parabéns pelo lançamento, Editora Morro Branco <3 E que a reflexão sobre o tempo e suas (im)permanências esteja conosco, a cada dia, enquanto houver dia...


Sinopse: Quando as coisas não vão nada bem e os economistas preveem uma enorme crise financeira, a família de Vitória – assim como o resto do mundo – decide se esconder em suas misteriosas caixas pretas à espera de tempos melhores. No entanto, após vários anos, a caixa de Vitória se abre e a menina se vê em uma cidade em ruínas. Sem rumo, ela caminha por prédios e ruas tomadas por florestas e animais selvagens, até chegar à uma casa onde crianças se reúnem em torno de uma senhora para ouvir a história de um rei ganancioso que conquistou o mundo, mas desejava conquistar o tempo. Para poupar sua bela princesa dos dias escuros e sombrios, normais ou sem valor, ele a coloca em uma caixa mágica transparente como cristal, mas feita de uma seda de teia de aranha tão densa que o próprio tempo não consegue penetrar. Vitória aos poucos percebe uma conexão entre sua própria história e a do reino mágico. Junto com seus novos amigos, ela precisa encontrar uma forma de consertar o mundo antes que seja tarde demais.


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