O Médico e o Monstro - Robert Louis Stevenson | Especial Clássicos do Terror | Martin Claret | Texto por Regiane Medeiros

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Deixe-me escolher o meu próprio destino, por pior que seja” – Henry Jekyll.

Desde o início de nossa compreensão, durante a infância, são incutidos em nossas mentes os conceitos de bem e mal, certo e errado, moral e imoral. Tais conceitos são a principal base da convivência harmoniosa em sociedade e fazem uma importante distinção entre os indivíduos. Mas, em diversas culturas, há a premissa (em grande parte filosófica) de que ninguém é exclusivamente bom ou mau, de que há parcelas de ambos os conceitos em nossas personalidades e que essa dualidade promove o equilíbrio para o nosso desenvolvimento.

Tal dualidade tem sido tema recorrente em todas as vertentes artísticas, especialmente na literatura, e talvez seu maior representante seja o clássico O Médico e o Monstro, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, considerada sua obra-mestra até hoje, reproduzida em diversas versões literárias, teatrais e adaptações cinematográficas, além de servir de inspiração para o desenvolvimento de tantas outras obras – qualquer semelhança com histórias em que há a presença de um alter-ergo, é mera coincidência... Ou não (risos). A obra faz parte da edição especial criada pela Editora Martin Claret, que reúne os três maiores clássicos de terror de todos os tempos – Frankenstein já teve sua resenha publicada no blog.

Publicado originalmente em 1886, segundo os relatos históricos, essa história nasceu de um sonho ou melhor, de um pesadelo (algo parecido com o que aconteceu com Mary Shelley antes de escrever Frankenstein – uma coincidência peculiar) e toda a narrativa parece nos levar a esse clima natural de maus sonhos, onde somos acometidos de uma inexplicável apreensão que cresce até que algo nos desperta do sono e nos traz alívio. Logo nos primeiros capítulos, nos é apresentado um crime brutal, característica que marca quase toda essa história:

Via-se à noite em uma cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa do médico; os dois chocavam-se, e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos” – pág. 183.

Esse crime hediondo assombra o Dr. Utterson, advogado residente em Londres, durante boa parte da história porque segundo testemunhas, tal ato foi cometido por Edward Hyde e Hyde é protegido do Dr. Henry Jekyll, médico e amigo de longa data de Utterson. Inicialmente, o advogado teme que a reputação do amigo esteja em jogo por se associar a um homem capaz de tamanha brutalidade, mas conforme vai investigando a vida de Hyde, Utterson descobre que há muito mais que força bruta e vileza em tal pessoa... Há, a verdadeira presença do mal. Mal esse, que continua a mover Hyde a cometer crimes sem encontrar a punição devida, em parte por conta de seu benfeitor, Henry Jekyll.


O que Utterson não sabe a respeito do seu amigo Henry Jekyll, é que o renomado e respeitado médico está realizando experiências em seu laboratório particular. Jekyll acreditava que tinha encontrado uma fórmula capaz de separar as duas partes do ser humano, o bem e o mal que há dentro de cada um:

Na minha própria pessoa habituei-me a reconhecer a verdadeira e primitiva dualidade humana, sob o aspecto moral. Depreendi isso das duas naturezas que formam o conteúdo da consciência, e, se eu pudesse corretamente dizer que era qualquer das duas, seria ainda uma prova de que eu era ambas. Desde muito tempo, ainda antes que as minhas descobertas científicas começassem a sugerir-me a simples possibilidade de semelhantemilagre, aprendi a admitir e a saborear, como uma fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se” – pág. 215.

Creio que não constitui spoiler (já que a obra é tão conhecida e tão reproduzida em todos os lugares do mundo) dizer que a conclusão desse mistério nos leva à revelação de que Jekyll e Hyde são, na verdade, a mesma pessoa, pois o médico iniciou seus experimentos usando a si mesmo como primeira cobaia. Através de Hyde, Jekyll é capaz de vivenciar todos os prazeres a que sempre se negou para manter a postura diante da sociedade que era esperada dele, devido à sua posição como médico vindo de uma família conceituada. Enquanto Jekyll é educado e preocupado com o próximo, Hyde se entrega à luxúria como um fim em si, incluindo entre seu meios de expressá-la, a força física, regozijando-se cada vez que machuca alguém, enquanto Jekyll, sente todo o peso do remorso de seus atos, mas também sente-se reenergizado, mais leve e mais jovem fisicamente e logo essas sensações tornaram-no um escravo de seu alter-ego: “Havia algo de estranho nas minhas sensações, algo de novo e indescritível que, pelo seu ineditismo, era incrivelmente agradável” – pág. 216.

Mas como lidar de forma sensível com a certeza de que dentro de si há tamanha crueldade? Como obter o controle necessário para que não se perca nesse frágeis prazeres obtidos por um momento de consciência amoral? De que forma, podemos encontrar o equilíbrio necessário entre nossas parcelas de bondade e maldade, para que uma não seja mais alimentada que a outra e a submeta completamente? Esses e outros questionamentos permeiam a mente do leitor durante essa leitura. Stevenson conseguiu de maneira magistral construir um thriller psicológico que nos abala ao mesmo tempo em que nos mantém presos às suas palavras até o fim da narrativa, permanecendo em nossa mente muito depois de finalizada a leitura.

Há muita influência da ficção científica iniciada com a obra de Mary Shelley, tanto que as duas obras são consideradas praticamente a base para todos os enredos posteriores que se valem do cenário da ciência para seus enredos. Mas, há em O Médico e o Monstro um algo diferente no tocante ao plano psicológico de seus personagens, que são extremamente bem desenvolvidos e críveis. Claro que a teoria de que é possível separar fisicamente nossas porções boas e más, é extremamente surreal, mas no campo da psquiatria e psicologia, há diversas síndromes que mostram o desenvolvimento de múltiplas personalidades, cada uma delas com suas peculiaridades, trejeitos e até mesmo constituição moral e sim, são reais e estão entre nós.

A única ressalva a respeito dessa história, é que ela é curta – risos!!! – eu adoraria ter visto mais desses personagens tão elaborados, profundos e intensos. Mas, ainda assim, a narrativa empolgante de Stevenson, com o toque certo de suspense e horror, me ganhou eternamente!!! Quero ler tudo dele!!!

Espero que vocês tenham a oportunidade de vivenciar essa leitura e por favor, esqueçam tudo o que viram no cinema sobre tais personagens... Nada na tela nos prepara para a história original!!!


SINOPSE: O tema do “Duplo”, tão caro à literatura do século XIX, tem em O médico e o monstro sua expressão mais icônica. A obra, que conta a história de um médico acima de qualquer suspeita que se transforma numa criatura odiosa e amoral, propõe discussões que desafiam alguns dos nossos conceitos mais arraigados. Indo muito além da dinâmica entre o bem e o mal, “O médico e o monstro” nos convida a refletir sobre a real natureza do homem, seu papel na sociedade e a ideia de civilização como força coerciva e condicionante. Nesse jogo entre ser e parecer, a multilateralidade se revela como o aspecto mais basilar do indivíduo. Publicada originalmente em 1886, a obra, que se tornou sucesso instantâneo de público, é ainda hoje um verdadeiro símbolo pop. Continuamente adaptada, citada e reinterpretada, a criação de Robert Louis Stevenson está presente nas mais diversas mídias, do cinema ao desenho animado.

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