O Menino Múltiplo - Andrée Chedid | Martin Claret

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"- Na sua idade, de onde você tira essas coisas? - perguntou Maxime, mais tarde.
- Um dia te conto.
- Você fala às vezes como um menino, às vezes como um homem. Quando você é você mesmo, Omar-Jo?
- Em todas essas vezes."

O passado é aquilo que nos divide. Por denunciar a origem (do indivíduo, da sociedade), o passado é uma espécie de vento que em um dia quente traz conforto, e tempestade quando menos gostaríamos.

O passado dos Homens guarda episódios de gratidão e vergonha - tão exatamente como o Nosso, em nossa geração, casa e feitos, e também em tudo o que abadonamos pelo caminho.

Na ficção poética de Andrée Chedid, o protagonista é um Menino. Seu nome, Omar-Jo, é o uma espécie de testemunho de suas origens (de Omar e Joseph, seu pai e avô). De mãos dadas com a criação do Menino, estava também o Estado, cujos filhos porfiam por atenção e sangue e ruínas, a todo custo, ao custo de todos, até do Menino.

Eu habito toda a terra
Eu choro ou eu rio
Pelos lados de lá Pelos de cá
Pelos fortes Pelos fracotes
Eu moro sob a terra
Que não me engoliu!

Certo dia, uma primeira explosão anunciou a reconstrução da cidade. Nesta primeira e em tantas outras vezes, por baixo dos escombros, ainda encontrou-se esperança no coração de seu povo. Porque há milênios os Homens prezam suas vitórias para em seguida pecar, e, em busca de uma qualquer redenção, seguem em disparates que insultam toda alma e pele e destino.

E foi assim, em um dia opaco, que a vida comum de Omar-Jo e sua vizinhança viu-se presa em uma explosão. Dizem que os destroços da alma perfuram mais do que os do cal e do cimento; o que sabemos é que Joseph, o avô do Menino, viria a gravar no mármore junto a terra as iniciais dos que eram sua pátria: Omar. Annette. Pai e mãe e moradia do menino. Não importa se em mil e setecentos ou oitocentos, ou em um nove centos de explosões, não importa: bastou uma, apenas uma, uma rinha, uma vaidade, uma rixa para que Joseph segurasse a única mão do Menino, nesta solidão que agora encaminhava-se para um exílio.


"Depois dos gritos de angústia, não resta outra saída que a de se reconectar com a vida.
Omar-Jo pega do bolso sua velha harmônica e, reencontrando o sopro, tira dela, mais uma vez, sons melódicos e vívidos.
Lentamente, o Carrossel volta a girar.
Sem saber direito se acabara de mergulhar na mais cruel das realidades ou se havia assistido apenas a uma intervenção, a multidão aplaudiu."

Omar-jo entendeu-se Múltiplo quando atravessou a fronteira: seus primos, que em outras épocas fugiram aos assaltos de sua pátria, eram hoje comerciantes na Cidade Luz, a alguns kilômetros das imagens que estampavam os cartões postais. Ainda assim, vida de Omar-jo ainda não havia recomeçado. Porque era preciso reencontrar-se, e no mapa de Paris não estava indicado o ponto onde isso era possível.

Baldio estava o coração, e também os olhos de um alguém que resiste. Em meio a um triste deambular, descalço e repleto de recordações esquecidas, Omar-Jo depara-se com um Carrossel bem ali, suspenso no terreno outrora baldio. Sem pestanejar, o Menino escala a plataforma e se refugia em uma pequena carruagem escondida sob a lona e o luar de Paris.

Reocupar o passado e alegrar o presente talvez fosse mais fácil ao som do cavalgar de um corcel, pensava Maxime, um homem que deixara de sonhar havia poucos dias - que, na verdade, eram décadas: décadas de um trabalho sem amor, e de pouco amor por si mesmo, e pelos seus, que sempre fizeram pouco de si, assim pensava.

Era apenas mais um dia após um outro que já nem contei quando Maxime avistou o Menino. Saia, seu pedinte! Não sou um pedinte! Quem você é então? Sou Omar-Jo, um Menino. Omar-Jo, que nome é esse? Um nome, e um nome Múltiplo, como a própria vida.

E foi assim que o homem vazio conheceu o menino que já não tinha mais o que transbordar. Sobre a amizade, é bem possível que você possa supor o seu destino; sobre o próprio destino, a narrativa de Andrée Chedid é múltipla em seus sentidos: sentimentos de glória e extorsão; de cânticos de vitória e lamentos de ingratidão; de poemas que surgem de quem muito sofre, como também na voz de quem tudo silencia.

Maxime construiu um Carrossel para começar uma nova vida. Enquanto isso, o Menino Múltiplo vence a própria vida em sua teimosia.

 
"- Não se preocupe, Maxime. Você nunca vai estar sozinho.
- O que você sabe sobre isso?
- Você tem a mim!
- Ãh? - fez Maxime.
- E eu, eu tenho você!
- É assim que você vê as coisas?
- É assim que elas são."


O Menino Múltiplo - Andrée Chedid

Filho de pai muçulmano egípcio e mãe católica libanesa, Omar-Jo carrega suas origens no nome. Durante a guerra do Líbano, em 1987, um carro-bomba leva seus pais e seu braço. E o menino de doze anos é enviado pelo avô, trovador, a Paris. Na Cidade Luz ocorre o encontro do Oriente com o Ocidente, do menino-duplo com as luzes, as cores, os sons e os movimentos do Carrossel de Maxime; o rabugento proprietário que, pouco a pouco, reencontra com o menino, então múltiplo, a alegria de viver. Alteridade, amor e tolerância fazem parte do enredo poético. A ser lido em voz alta.

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