sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A vida não é um traço linear | Por Marcelo Marchiori



"LEAR — Qual é a tua profissão? Que pretendes de nós?

KENT — Minha profissão é não ser menos do que pareço; servir fielmente a quem confiar em mim; amar quem for honesto; conversar com quem for sábio e falar pouco; temer a justiça; brigar quando não houver outro jeito, e não comer peixe.

LEAR — Quem és tu?

KENT — Um tipo de coração honesto e tão pobre quanto o rei."


A vida não é um traço linear. Não se trata de um projeto ascendente em que iremos melhorar em todas as áreas. Não há uma regra de que ficaremos mais espertos a cada ano que passa. Muitas vezes não somos capazes de aprender o necessário. Como Shakespeare diz através de um de seus personagens, sobre um rei que quis abrir mão de suas responsabilidades sem perder o poder: “Pobre Lear, ficou velho antes de ficar sábio”.

Não há uma hierarquia entre juventude e maturidade. Não é possível dizer que um destes dois momentos [ou arquétipos] possa ser mais importante, deva ser mais valorizado que o outro. O que dá para perceber são algumas distinções entre os dois períodos e assim, quem sabe, absorver o que de melhor surge em ambos os contextos.

Talvez um dos temas mais comuns nos consultórios de psicologia seja o dos relacionamentos amorosos. Chego a brincar que sou especialista em curar “dores de cotovelo”. Quando é o caso de atender um adolescente ou um jovem adulto, existe um enunciado com qual eu me divirto muito. Nunca me canso de ouvi-los dizer: “acho que depois dessa eu nunca mais vou me apaixonar”. Esse é um bom símbolo de como funcionam os primeiro anos de nossas vidas.

Com pouca idade, vivemos pouca coisa. Faltam elementos de comparação para quase tudo e as situações nos parecem muito maiores do que realmente são. Quem nunca achou que perder “aquela” festa era o fim do mundo? Pois que atire a primeira pedra! E o desespero de não ser aceito socialmente? Quantas modas ridículas não foram seguidas só para que a pessoa se sentisse enturmada e diminuísse um pouquinho o medo de se tornar um fracasso social? Tudo isso que nos tirou tantas vezes o sono e hoje quase não nos preocupa.

Por outro lado, podemos pensar também sobre a inconsequência. Alguma parte da coragem na juventude surge do total desconhecimento dos riscos que se corre em tomar certas decisões. Quanta gente não se arrepende em não ter sido um pouco mais prudente neste ou naquele momento? Em não ter pensado um pouquinho antes de aceitar aquele desafio estupido de pular o muro do cemitério na madrugada ou de virar 4 dedos de uma garrafa de vodca? Certos erros nos ensinam, outros podem ser irreversíveis.

No meio de tudo isso há um ponto que é positivo: quanto menos caminho percorrido, menor a possibilidade de carregar na cabeça uma montanha de traumas ou vícios, comportamentos deturpados. A capacidade criativa e de reinvenção da juventude é alta e permite que o sujeito possa corrigir um caminho problemático com menos esforço que alguém com muito apego por suas histórias, por suas manias.

No campo da maturidade quem nunca ouviu [ou disse] “não tenho mais idade para isso”? É a desculpa perfeita, o passo de fuga, para se livrar de qualquer revisão de comportamento necessária para uma vida mais completa, uma existência integral.

A repetição de determinados comportamentos acaba promovendo a otimização das ações. O custo de uma ação torna-se menor depois de criarmos um caminho pelo qual seguimos com os olhos fechados. Aparentemente estamos perto do ponto estável que tanto procuramos em nossas vidas, dá quase para acreditar que, ao menos, algumas das perguntas foram respondidas. É o poder de um hábito constituído.

Fica muito difícil dizer se um comportamento é bom ou ruim sem analisar o contexto em que ele se insere. Mesmo um sintoma pode ser a defesa contra algum tipo de sofrimento muito maior... a parte mais complicada pode ser a engrenagem que mantém nossa criatividade em movimento, mas, em alguns casos, um mau comportamento pode ser apenas um defeito que, mesmo assim, teimamos em mantê-lo, alimentá-lo e fortalece-lo por puro comodismo.

Retornarmos aqui a ideia que apresentei no início deste ensaio. Não existe uma hierarquia entre maturidade e juventude. Digo mais, entendê-las como algo sem possibilidades de unificação é algo arriscado. Ficamos sujeitos a nos enganarmos com as farsas da juventude ou hiperdimensionar as tragédias da fase adulta.

Um jovem que tem o apoio de alguém que possa alertá-lo sobre possíveis enganos escapa de muitos perigos desnecessários. Aprende que nem sempre é necessário enfiar a mão no fogo para entender que aquilo queima. Se uma parte das tradições merece, com toda razão, ser esquecida, outra é base para a evolução de uma cultura. Os jovens devem aprender com os mais velhos e introjetá-los desde cedo.

Do outro lado, é falsa a ideia de que alguém deixa de aprender. A convivência com a juventude estimula o questionamento de quem acreditava não ser capaz de descobrir novidades no mundo. Mesmo o “tio do pavê” vai abrindo sua visão de mundo quando confrontado pelo acervo de preconceitos que carrega junto de si, principalmente se é convidado a conhecer outras possibilidades de existência e perceber que não há nada de errado nelas. É provável que não se torne um militante de causas identitárias ou coisa assim, mas já toma algum cuidado maior ao conviver com a diferença.

Ainda vale a pena apostar em um processo dialético e permitir que as contradições destas fases se enfrentem dentro e fora de nós. Somos todos velhos e novos, em algum contexto e por algum motivo. Creio eu que a sabedoria de que fala Shakespeare surge desse difícil equilíbrio.


Marcelo Marchiori, outubro de 2017
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